Todos temos aquele amigo

“A amizade é uma alma com dois corpos”

(Aristóteles)

Amigo faz moradia dentro da gente, cava e cava buraco até se infiltrar de vez e depois perde a chave, faz pompa na vizinhança e se serve de todas as nossas reservas de carinho e, curiosamente, para ele, esses estoques parecem nunca se acabar.

Amigo sabe tocar na gente, literalmente falando: pega na mão, dá abraço de quebrar as costelas, puxa pelo ombro, acotovela-se todo para sair na foto e dá aquele tapinha de leve no braço, raras vezes deixa hematomas, te chamando de tolo por alguma bobagem dita.

De amigo exige-se Continuar lendo

A cola da memória

O aroma da vela acesa sobre a mesa do jantar não é somente aprazível. O copo de alumínio não é só um meio de matar a sede. A música mais triste não entra simplesmente pelo ouvido e vai embora ao final do acorde. Vela, copo e canção fazem os olhos arderem de saudade, lembranças aguçadas ou disformes, memórias que nimbam a alma ou exorcizam determinadas dores, não importa.

As lembranças são Continuar lendo

Aos nossos crimes inexplicáveis

Algumas vezes é um tijolo que a vida lança na nossa cabeça. Outras vezes, a vida passa longe dessas transgressões e, no entanto, quem nos acena é a morte, com toda sua criminalidade.

– Tia, você vai ficar comigo?

Enquanto atendia em ritmo aventureiro na segunda-feira à noite de um pronto atendimento em pediatria, fui chamada para avaliar uma criança na sala de emergência, mais conhecida como sala de medicação, já que era raro algo de muita gravidade chegar ao nosso plantão.

Na maca, um menino de 5 anos de cílios gigantes, grau importante de irritabilidade, com palidez e gemência era o motivo de eu estar ali, numa apresentação típica de um quadro de choque séptico. A mãe, com o desespero Continuar lendo

Subterrâneo

Quando o carro adentra o túnel, eu me sinto só.

A pouca luz que me afronta os olhos se torna uma sombra de incertezas e não há passageiro a me fazer companhia.

Não sei que medo será esse que eriça os pelos do braço e me faz ponderar sobre minha finitude.

O percurso é retilíneo, plano, mas estremece em meu corpo a ideia nauseante de que precipitei em queda livre. Fico ali aguardando o momento em que meu corpo irá se dilacerar ao contato com o chão.

Tudo é negro e os sons distantes não ajudam, pois não chegam até mim. Sigo inconquistável e sem controle.

E quando a mente esvazia, os segundos voam, eis que o Sol retorna aos olhos, trazendo de volta o ritual de existir.

Saio do anonimato do subterrâneo e a solidão,  apartada, acena para mim, como quem aguarda o próximo encontro.

A urgência das quatro horas

Até queria chegar mais cedo, mas enquanto o relógio ao pulso desvelava lentamente as horas, ela se ilhava em seus pensamentos desconcertantes e quando se via, já era passado tempo: a vida, ao longe da sua imobilidade, avançava. E hora, é sabido, não fica ao lado da gente, mas sim, tremula os cabelos tal como vento urgente e sem freio.

Por isso perdeu o trem da despedida na estação, quando não desatava se era luxo de saudade ou escabiose da alma, por não conceder ficar só. No fim, restituiu-se à antiga viela e permaneceu quieta, afincada num canto mais omisso que suas lágrimas. Continuar lendo

Vó Véia

Não seria inusitado que a casa estivesse cheia de tempos em tempos, pois visitas sempre havia e, em grandes comemorações, era inelutável ter que lidar com multidão de parentes, principalmente crianças. Vinha ela, então, do fundo do terreno de mil metros quadrados, onde sua casa de dois dormitórios era acessória, depositava seu corpo afilado pardo e alto logo à entrada, preparando a profética interrogação, assim que qualquer um acabasse de chegar:

– Mas que dia vocês vão embora? De manhã ou à tarde?

Era doce e independente, contudo. Permanecia no seu canto ao longo dos dias, limpando, cosendo e cozinhando e, vez ou outra, aparecia arrastando suas chinelas pela casa da avó, dona do terreno. Também ela era avó, só que bisa, e todos a chamavam Vó Véia.

A menina Clarice olhava recuada a entrada da casinha, não se aventurava a pisotear aquele terreno porque a panela ao fogo, a colcha de retalhos imensa toda colorida e o mistério que aqueles dois pedacinhos de terra emanavam só poderiam significar uma coisa: bruxaria. Ambas as casas, a principal e a anexa, tinham comunicação e Clarice certificava-se todas as noites de que a porta que as ligava estivesse trancada. Continuar lendo

O meu mundo interior interessa a poucos

“Só não tente me dizer o que é melhor para mim
Quem pode saber?”
(Humberto Gessinger)

Dali de fora, é mais fácil não sentir dor. Cada passante caminha fustigado pelas suas próprias tempestades (chuva e eterno vento?), com medo de não chegar, com pavor do toque e absorto em seus lamentos.

O meu mundo interior interessa a poucos, de fato. Esse rico nada interior ou pobre tudo, de acordo com o desvairamento dos dias, é todo meu e, para quem nele não habita, é somente uma miragem.

Então, mesmo turva confesso: esqueci como se grita. Não me alegro, nem me comovo.

Esqueci como é o velho sentir. Sim, socorro, pois não sinto nada.

E nem consigo demolir os próprios enigmas que criei.

Abri o livro, mas ninguém há de me ler sem perigo.

O meu vizinho não conheço. Mas dali de fora o mundo parece perfeito

Muito

Há casas que ainda não foram habitadas. Há gente que não fala a mesma língua e nem língua alguma. Há línguas que não se soltam do céu da boca, e ficam ali amorfas e taciturnas, escondendo o não-dito.

Há nuvens de chuva que se concentram acima da janela. Há roupas no varal que nunca mais querem secar. Há presentes esperando pelo seu dono e encontros que jamais acontecerão.

Há paredes descascando no quintal e o sol queima o chão, esperando para aquecer os pés, mal o dia começou. Há corpos consumidos pelo cansaço, que teimam em não trazer o olhar para a rua, em casa estão com os pés gelados.

Há uma sede indomável coçando a garganta e, por mais que os dias passem, não passará. Há alicerces desmoronando e a sabedoria pode ficar, mas as dores invadem e não se pode mais seguir em frente. Continuar lendo

Bia

Bia me espiava lá do fundo da sala, nas últimas carteiras, postura algo arqueada e um olhar que arremessava intromissão e alguma demanda, que não soube dizer bem o que era. Mirava em frente, nunca acima de sua cabeça. Não se aproximou em sua totalidade, mas tornou confessas algumas palavras em um dos muitos cadernos de recordações, dos quais mal me recordo ainda hoje. Orgulhava-se da amizade, que nem existia formalmente.

Bia se chegou como tia. Dávamos apelidos/cargos para cada um. Uma era a mãezinha, outra a tia, outra a irmã, outra a psicóloga…uma sociedade monótona, em que os papéis eram especulativos, para justificar as afinidades.

Bia quis ser Continuar lendo

Bailarina ela não é

“Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem.”

(Chico Buarque)

De um sobressalto, levanta-se da cama, sem aviso prévio. Pensa se alguém lhe havia perguntado se é isso mesmo que deseja. Não, um sonho a mais, por favor. Mas não foi bem isso que se deu. Alguns choros, que juntos não somam mais do que seis anos, repercutem em seu quarto, mesmo que, propositadamente, os quartos sejam um pouco distantes do seu.

Tempo de trocar fralda, lembrar o xixi do grande, o seu mesmo fica para depois, limpar os mucos que douram a face do menor, escovar os dentes, tantos dentes, remédio de asma e o relógio, nesse meio tempo, andou avançando alguns minutos acelerado. Bailarina ela não poderia ser às seis da matina.

Olha-se ao espelho, enquanto os dois se estapeiam entre as pernas dela. Deuses da natureza! Que círculo lúgubre e cinzento é esse abaixo de seus olhos turvos? E essas erupções tomando formatos exacerbados? Procurou bem e tinha certeza de que ontem não havia essa imagem sentenciosa ao reflexo. Não procurou direito decerto, pois olheira, remela e pereba só a bailarina que não tem.

Serve o café a quem deve, por direito, tomá-lo e vai vestir algo passível de ser conferido às ruas, basta que a calcinha não marque, o sutiã não salte aos olhos e as meias, se notadas, sejam do mesmo par, ao menos semelhante. Mas faz uma paradinha obrigatória no banheiro antes, em raros segundos de sossego, visto que ela não é bailarina, e de vez em quando, tem piriri.

Apressa um pouco quem tende a devanear por sobre o copo de leite, pois a rotina bate à porta. Para sair, é preciso falar mais alto, até prometer penalidades a quem não obedecer, já que ela se descuidou um bocado do relógio; assim, perde um pouco os bons modos e, convenhamos, quem tem maneiras é a bailarina, o que ela tem são contas para pagar.

O dia vai se despachando sem atalhos e o que comeu ainda nem foi digerido, o esmalte das unhas a ser roído e as feridas do coração nem Continuar lendo