PAREI DE SONHAR

Blecaute. Amanheceu. Cortinas cerradas. Motor desligado. Fim de show. Créditos finais.

O sonho acabou!

Com os olhos em alerta, a mente cismada e a turbulência dos dias, aqueles minutos dispersos deixaram de existir. Não tem sido possível, portanto, voar suspenso em balões e nem ter uma imagem mental toda azul, quase azul da cor do mar. A visão das estrelas ficou manchada, a porta permaneceu entreaberta, com ímpetos de bater com o vento e trancar-se por conta própria, o meu grande pequeno universo se encolheu muito além do que se enxergaria, pois a partir daquele dia eu não fui mais capaz de sonhar. Continuar lendo

Obrigado por você ser diferente

Agradeço a você por esse tom de pele que possui e que me lembra a todo momento que a beleza é tão mais intensa quanto mais matizes houver.

Agradeço a você pelos olhos rasgados, pequenos, enormes, vastos por tudo que já viveram, heroicos por tudo que ainda pretendem viver, pois eles enxergam passos longínquos.

Agradeço também as roupas que veste, seu estilo que determina sua unicidade e que ninguém precisa seguir ou muitos podem almejar se igualar, sem regras ou críticas, mas o que é externo não te definirá jamais.

Agradeço pela religião que escolheu para si, pelas crenças que guarda com paixão; a sua diferença me faz questionar meus conceitos, a minha missão nesse mundo e, apesar de não mudar minha opção, faz com que eu floresça sementes dentro de mim.

Agradeço a você pelos desenhos que reinam em seu corpo, pelas cicatrizes que carrega em sua alma, por ser velho e por ser novo e pelo fato de cada pedacinho de você ser uma obra de arte em construção, desde que você acredite em si mesmo.

Agradeço a você por saber cantar, estudar, desenhar, jogar, torcer, escrever bem, falar em público, dançar, liderar, por fazer tudo aquilo que não sei e admiro, pois se não me traz o ímpeto de aprendê-lo, ao menos me torna espectador a inebriar-me com seu ofício.

Agradeço a você por ser do outro time, do outro ideal, do outro edifício, de outra cidade, por ultrapassar barreiras e, ao mesmo tempo, ter seus limites muito bem definidos, prolongando-se, mas respeitando o espaço alheio.

Agradeço a você por seu peso, seu tamanho, pelos seus excessos e também suas faltas, aos quais reconhece plenamente e me incitam a reconhecer meus tantos e meus poucos também.

Agradeço a você pelo sorriso farto que ostenta e por, de um momento para o outro, chorar as lágrimas que receio não caberem em meu rosto.

Agradeço a você por ter a cabeça em ordem e também por ter alguns parafusos a menos, mostrando a mim diariamente que há muito mais poesia na desordem do que sonha a nossa medíocre filosofia.

Agradeço a você por você ser homem e também por ser mulher e por poder ser tudo junto e misturado. Agradeço por você sentir prazer sem medo, por transar com quem tiver vontade e por me fazer entender que para se amar é preciso somente permitir-se a isso.

Colo de mãe

“O segredo do amor é maior do que o segredo da morte.”

Oscar Wilde

Ela já era muito grave, desde o nascimento. Por volta de 2 meses de vida, nunca havia saído da UTI. A mãe, ali do lado, quase não desgrudava dela, quase nunca a deixava sem um afago, e em nenhuma circunstância deixou de enxergá-la como o doce bebê com quem sonhara por tanto tempo, apesar do aspecto inchado, muito inchado, de quem já passou por tantas infecções, cirurgia cardíaca e procedimentos variados.

Já fazia tempo que não via os olhos da filha abertos, tampouco o fechar das mãos nas suas, o choro invocando sua presença. Um dia, ela revelou que não tivera a oportunidade de pegá-la no colo. Jamais. Ficava lá, em vigília ao lado do berço, quando muito, sentava em uma poltrona um tanto desaconchegada, ausentava-se nas situações de procedimentos para um café ou hidratar a boca pálida, permitindo que seus olhos esgotados espiassem também outros cenários, sem alarmes, monitores, números e gasometrias.

No entanto, a pequenina não melhorava. Seu aspecto e o quadro se agravavam ao longo dos dias, em verdade. Nenhuma medida surtia qualquer efeito. E face a face com a mãe, não havia como mentir, disfarçar, enganar. Não havia nem muito o que dizer, pois ela sabia.

Sabia da nossa tensão, das intermináveis discussões, do quanto estudamos procurando uma terapêutica diferente, de todos os especialistas que opinaram, do quanto a vida de cada um de nós também estava afetada por aquela história, já que é impossível passar imune numa UTI. Mas ela, a mãe, vistoriava diariamente sua própria força, reconhecia seus limites e diante desse impasse, executava a tarefa de esperar da maneira que suas pernas e seu amor aguentassem: trêmulos, ziguezagueando, às vezes, mas sem ruir.

Não se permite que um filho vá, ponto final. Mas eles partem. Aquele alvorecer foi implacável. Quatro perdas, ou seriam rendições? Quatro famílias sem alento. E a pequena e sua mãe, esgotada de lágrimas, estavam nessa sequência. Não se descreve dor, não se diz “eu sei” porque não há como entender, e a frase surrada de “ela descansou” é dispensável. Tudo é agudo demais para ser pronunciado, até mesmo o nome, quanto mais o indesejado verbo conjugado. Só dá para abraçar, chorar e ficar junto, fazer o que dá pra fazer: esperar.

Todo esse sofrimento, apesar de continuar intitulado dor, trouxe um momento mágico, sem lágrimas, e com uma devoção sem troca, mas mesmo assim um instante de entrega inacabável: após negar e negar, achar que não podia, não seria capaz, a mãe resolveu sentar naquela conhecida poltrona e pegou sua filha no colo, pela primeira vez. E ali ficou um tempo, transbordando-se de amor, sem pressa, num discurso silencioso, em despedida.

Adote uma lua

– Boa noite, Note!

E ele me afrontou dali, em seu modo de espera, enquanto eu divagava se a tela do site não estaria, quem sabe feito magia, toda arranjada, preenchida e pronta para navegar.

Não, não estava. Os espaços em branco me intimavam. Era meu esse encargo, fui eu mesma que decretei que essa noite me doaria a algum estranho. E, para começar, era hora de abarrotar cada janela com as lacunas de minha tediosa existência.

“Então seguirei meu coração até o fim…” Continuar lendo

Uma dose de empatia, por favor

Há fundamentos variados para se sentir triste e formas grosseiramente distintas de expressar essa emoção. E não é o motivo da tristeza que a valida, que traz sublimidade a ela, gerando maior valor. Não é preciso se sentir desolado por grandes tragédias, nem por questões universais; os pequenos dramas têm seu direito em raspar a consciência e provocar feridas. Não é imperioso sentir a tristeza que todos estiverem compartilhando em dado momento ou ainda sentir-se mal quando é dessa maneira que todos esperam que você se posicione. Continuar lendo

As pancadas da vida

Alguns irão escapar, mesmo que você os retenha o mais firmemente possível com suas mãos doloridas e não haverá nada a dizer, nem se entristeça, pois eles não são seus.

Alguns irão berrar, ofender, aviltar você, muitas vezes sem perceber, e não importa, porque você já começou a andar no sentido contrário, com os ouvidos vedados, ainda que zunindo, e aquelas palavras foram só jogadas ao vento. Continuar lendo

Ria seu riso

“Livrai-me de tudo que me trava o riso.”
(Caio Fernando Abreu)

 

Por onde andava, ninguém sabia ao certo, havia muito que não concedia o ar de sua graça, graça mesmo, por inteiro. Atrás das responsabilidades, boletos, relações enganosas e eclipses do dia, o Riso se perdera. Não se mostrava na rotina, não aparecia nas horas escuras, nem no calor das piadas, já que era mais fácil ser sério, era mais fácil ser brando, era mais simples ser vazio. Continuar lendo

Melancolia em versos

Na cozinha, o café esfria,
o pão com manteiga endurece
e a cabeça rodopia,
não sei bem o que acontece.
E nem sei o que fazer com essa monotonia.

A água da chuva já secou,
o universo despencou
e os escombros persistem morando no chão da sala,
ocultando aquela dor que ainda resvala
e não sei o que fazer com aquela fotografia.

As frases ditas se perderam em castigo.
As palavras não ditas se esconderam em abrigo.
A ausência se incorporou à minha nudez,
enfatizando os meus quilômetros e quilômetros de insensatez
e me pergunto o que fazer ao final do dia?

Viro para o canto: olhos abertos, lembranças insanas;
desencanto, caminhos incertos
(e a inércia se espalhando na cama)
e a cabeça leviana que olha para trás
e, por enquanto,
não é capaz de abandonar o passado ainda em vigília.

Procuro, então, uma sombra
mas é sol que fulgura.
Encaro o espelho em afronta,
Mas só enxergo tal imagem obscura.
E eu realmente não sei o que fazer
depois que a saudade distancia.

Sucumbir, mas retornar.
Definir e, enfim, praticar.
Mas o tempo estagna e a tristeza irradia.

Reconhecer é recomeçar,
surpreender ao se revelar
nesses versos em melancolia.

 

Eu não tenho que nada

“Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer.”
 (Grande Vinícius)
 

Minha namorada é uma canção da música popular brasileira que me toca profundamente: a melodia delicada, a voz de Vinícius cortejando meus ouvidos, a súplica por amor e presença… isso é inigualável! Entretanto, peço perdão ao poetinha, com todo o respeito que dedico aos seus colóquios e rimas…mas EU NÃO TENHO QUE NADA! Continuar lendo