A urgência das quatro horas

Até queria chegar mais cedo, mas enquanto o relógio ao pulso desvelava lentamente as horas, ela se ilhava em seus pensamentos desconcertantes e quando se via, já era passado tempo: a vida, ao longe da sua imobilidade, avançava. E hora, é sabido, não fica ao lado da gente, mas sim, tremula os cabelos tal como vento urgente e sem freio.

Por isso perdeu o trem da despedida na estação, quando não desatava se era luxo de saudade ou escabiose da alma, por não conceder ficar só. No fim, restituiu-se à antiga viela e permaneceu quieta, afincada num canto mais omisso que suas lágrimas. Continuar lendo

Vó Véia

Não seria inusitado que a casa estivesse cheia de tempos em tempos, pois visitas sempre havia e, em grandes comemorações, era inelutável ter que lidar com multidão de parentes, principalmente crianças. Vinha ela, então, do fundo do terreno de mil metros quadrados, onde sua casa de dois dormitórios era acessória, depositava seu corpo afilado pardo e alto logo à entrada, preparando a profética interrogação, assim que qualquer um acabasse de chegar:

– Mas que dia vocês vão embora? De manhã ou à tarde?

Era doce e independente, contudo. Permanecia no seu canto ao longo dos dias, limpando, cosendo e cozinhando e, vez ou outra, aparecia arrastando suas chinelas pela casa da avó, dona do terreno. Também ela era avó, só que bisa, e todos a chamavam Vó Véia.

A menina Clarice olhava recuada a entrada da casinha, não se aventurava a pisotear aquele terreno porque a panela ao fogo, a colcha de retalhos imensa toda colorida e o mistério que aqueles dois pedacinhos de terra emanavam só poderiam significar uma coisa: bruxaria. Ambas as casas, a principal e a anexa, tinham comunicação e Clarice certificava-se todas as noites de que a porta que as ligava estivesse trancada. Continuar lendo

O meu mundo interior interessa a poucos

“Só não tente me dizer o que é melhor para mim
Quem pode saber?”
(Humberto Gessinger)

Dali de fora, é mais fácil não sentir dor. Cada passante caminha fustigado pelas suas próprias tempestades (chuva e eterno vento?), com medo de não chegar, com pavor do toque e absorto em seus lamentos.

O meu mundo interior interessa a poucos, de fato. Esse rico nada interior ou pobre tudo, de acordo com o desvairamento dos dias, é todo meu e, para quem nele não habita, é somente uma miragem.

Então, mesmo turva confesso: esqueci como se grita. Não me alegro, nem me comovo.

Esqueci como é o velho sentir. Sim, socorro, pois não sinto nada.

E nem consigo demolir os próprios enigmas que criei.

Abri o livro, mas ninguém há de me ler sem perigo.

O meu vizinho não conheço. Mas dali de fora o mundo parece perfeito

Muito

Há casas que ainda não foram habitadas. Há gente que não fala a mesma língua e nem língua alguma. Há línguas que não se soltam do céu da boca, e ficam ali amorfas e taciturnas, escondendo o não-dito.

Há nuvens de chuva que se concentram acima da janela. Há roupas no varal que nunca mais querem secar. Há presentes esperando pelo seu dono e encontros que jamais acontecerão.

Há paredes descascando no quintal e o sol queima o chão, esperando para aquecer os pés, mal o dia começou. Há corpos consumidos pelo cansaço, que teimam em não trazer o olhar para a rua, em casa estão com os pés gelados.

Há uma sede indomável coçando a garganta e, por mais que os dias passem, não passará. Há alicerces desmoronando e a sabedoria pode ficar, mas as dores invadem e não se pode mais seguir em frente. Continuar lendo

Bia

Bia me espiava lá do fundo da sala, nas últimas carteiras, postura algo arqueada e um olhar que arremessava intromissão e alguma demanda, que não soube dizer bem o que era. Mirava em frente, nunca acima de sua cabeça. Não se aproximou em sua totalidade, mas tornou confessas algumas palavras em um dos muitos cadernos de recordações, dos quais mal me recordo ainda hoje. Orgulhava-se da amizade, que nem existia formalmente.

Bia se chegou como tia. Dávamos apelidos/cargos para cada um. Uma era a mãezinha, outra a tia, outra a irmã, outra a psicóloga…uma sociedade monótona, em que os papéis eram especulativos, para justificar as afinidades.

Bia quis ser Continuar lendo

Bailarina ela não é

“Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem.”

(Chico Buarque)

De um sobressalto, levanta-se da cama, sem aviso prévio. Pensa se alguém lhe havia perguntado se é isso mesmo que deseja. Não, um sonho a mais, por favor. Mas não foi bem isso que se deu. Alguns choros, que juntos não somam mais do que seis anos, repercutem em seu quarto, mesmo que, propositadamente, os quartos sejam um pouco distantes do seu.

Tempo de trocar fralda, lembrar o xixi do grande, o seu mesmo fica para depois, limpar os mucos que douram a face do menor, escovar os dentes, tantos dentes, remédio de asma e o relógio, nesse meio tempo, andou avançando alguns minutos acelerado. Bailarina ela não poderia ser às seis da matina.

Olha-se ao espelho, enquanto os dois se estapeiam entre as pernas dela. Deuses da natureza! Que círculo lúgubre e cinzento é esse abaixo de seus olhos turvos? E essas erupções tomando formatos exacerbados? Procurou bem e tinha certeza de que ontem não havia essa imagem sentenciosa ao reflexo. Não procurou direito decerto, pois olheira, remela e pereba só a bailarina que não tem.

Serve o café a quem deve, por direito, tomá-lo e vai vestir algo passível de ser conferido às ruas, basta que a calcinha não marque, o sutiã não salte aos olhos e as meias, se notadas, sejam do mesmo par, ao menos semelhante. Mas faz uma paradinha obrigatória no banheiro antes, em raros segundos de sossego, visto que ela não é bailarina, e de vez em quando, tem piriri.

Apressa um pouco quem tende a devanear por sobre o copo de leite, pois a rotina bate à porta. Para sair, é preciso falar mais alto, até prometer penalidades a quem não obedecer, já que ela se descuidou um bocado do relógio; assim, perde um pouco os bons modos e, convenhamos, quem tem maneiras é a bailarina, o que ela tem são contas para pagar.

O dia vai se despachando sem atalhos e o que comeu ainda nem foi digerido, o esmalte das unhas a ser roído e as feridas do coração nem Continuar lendo

Escrever pode ser fácil?

Escrever é um empreendimento de paciência, equilíbrio e bravura. O que nos sai da caneta ou dos dedos ao teclado (ou à máquina, há quem ainda use) não é tema que surja do nada e sim, palavrinha, frase ou história recôndita, esperando sua hora de fluir e se infiltrar no mundo externo. E somos nós que permitimos que a escrita se realize.

Cada autor entende Continuar lendo

O que eu detesto

Recentemente lancei um post no face com a seguinte pergunta: o que vocês acham que eu detesto? Tratava-se de uma TAG, a convite do meu querido Marcelo do blog Patriamarga, e muitos opinaram. Cada resposta suscitava em mim uma exclamação muito íntima do tipo “nossa, isso realmente é péssimo!”. Entretanto, mais do que enumerar sentimentos e atitudes capazes de despertar o ódio em alguém, a exposição me trouxe um questionamento crucial: é saudável carregar tanto de tudo isso dentro de si?

Detestar      Odiar          Desgostar

Aversão      Inimizade    Repulsão

Psicopatia

1)    Hipocrisia

“O amor está mais perto do ódio do que a gente geralmente supõe. São o verso e o reverso da mesma moeda de paixão.” (Érico Veríssimo)

2)    Mi mi mi

 “Hate is a train
That thunders aimless through my head.” (Metallica – Hate train)

3)    Barata

“Não odeies o teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo o seu escravo. O teu ódio nunca será melhor do que a tua paz.” (Jorge Luís Borges)

4)    Aranhas

“With such confusions
Don’t it make you wanna scream?” (Michael Jackson – Scream)

5)    Vida sem vida

“Lost inside my sick head
I live for you, but I’m not alive
Take my hands before I kill
I still love you, I still burn.” (Alice in chains – Love, Hate, Love)

6)    Música ruim

“O ódio pega como planta que se rega, mas no peito que navega a pessoa fica cega.” (Tom Zé)

7)    Monotonia

“O ódio é o prazer mais duradouro; os homens amam com pressa, mas odeiam com calma.”(Lord Byron)

8)    Cobrança

 “I like to tear things down than build them up, It’s easier that way.” ( The Offspring – Cool to hate)

9)    Desamor

“O olhar de quem odeia é mais penetrante do que o olhar do que o olhar de quem ama.”(Leonardo da Vinci)

10)           Erros de português

“Um pouco de desprezo economiza bastante ódio.” (Jules Renard)

11)           Mentira

 “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso da loucura.” (Guimarães Rosa)

12)           Gente fake que alardeia verdades absolutas

“Não levo ninguém a sério o bastante para odiá-lo.” (Paulo Francis)

13)           Falsidade

“Nada une tão fortemente como o ódio – nem o amor, nem a amizade, nem a admiração” (Tchekhov)

14)           Mau humor

“Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror” (Charles Chaplin)

15)           Falta de esforço

“There’s a thin line between love and hate
Wider divide that you can see between good and bad” (Iron Maiden – The thin line between love and hate)

16)           O óbvio

“We can make this hate stop
Now don’t you want to rise up?” (Jamiroquai – Give hate a chance)

17)           Gente negativa

“O que não faz parte de nós não nos perturba.” (Herman Hesse)

18)           Ingratidão

“Quanto menos é o coração, mais ódio carrega” (Victor Hugo)

19)           Gente chata

“Não há nada mais tenaz que um bom ódio” (Machado de Assis)

De tudo que foi citado, nem as baratas e aranhas eu consigo odiar, pois o pavor que tenho delas é tão gritante que não correria o risco de causar nelas nenhum ideal de vingança contra mim, ao oferecer a elas emoções tão negativistas. Claro que ingratidão, mimimi, falsidade, hipocrisia, viver por viver, tudo isso incomoda demais. Cobrança exagerada então me faz querer fazer as malas e partir, e erros crassos de português doem como estaca alojada no coração.

Mas…definitivamente…ódio..detestar…nada disso cabe por aqui.

“Não vá dizer que estou ficando louco
só porque não consigo odiar ninguém.”
(Engenheiros do Havaí)

 

“A maior qualidade de um repórter é a inquietude intelectual. As coisas estão boas? Podem ficar melhores.”
(Caco Barcellos)

Carrego comigo essa inquietude, como pessoa e escritora. E acho que as coisas podem mesmo ficar melhores, como bem pode contar essa foto.

Aprendi que nada me impede de fazer do meu jeito. Fui ensinada a ser uma garota padrão. Sei agradecer com os olhos, sei negar com o silêncio, sei pedir com as mãos e me aquietar com um suspiro, mas se eu não disser, ninguém saberá. Ninguém vai saber, por exemplo, que sou um ser de mim mesma. Por isso disfarço, finjo-me pequena, para não amedrontar. Finjo-me acuada, mas porque quero fazer tudo ao meu modo. Só para não parecer eu.