Aquela moça

Sabe aquela moça sentada ao seu lado no metrô, com um livro em mãos, absorta em seu rumo? Parece a você que ela está seguindo para o trabalho ou colégio, e aproveita a ocasião para colocar em dia a leitura que não foi possível no final da noite, já que as suas pálpebras se esgotavam, pedindo encerramento. Deixe-me contar um segredo: os olhos dela atravessam as páginas, ela não está mais no metrô, pois ela não se entende em meio à multidão. Ela não queria ter que ir a lugar nenhum, ela não queria abrir os olhos hoje pela manhã e engoliu um café morno sentindo o amargor do dia.

Sabe aquela moça que cruzou algumas vezes com você no mercado, com o carrinho de compras vazio em todos as “quase colisões” e tinha em mãos um celular, do qual não tirava os olhos? Você imagina que é mais uma vítima de alguém detido em relações virtuais e talvez não consiga passar nem um minuto de seu dia sem imaginar se alguém irá curtir seu post. Uma confissão: ela olha para o aparelho em busca de uma palavra de conforto que não chega nunca, uma vez que todas as pessoas reais de seu convívio já foram embora e não se lembram mais de revê-la.

Sabe aquela moça que está a sua frente na fila do almoço e, pacientemente, escolhe o que servir em seu próprio prato e nada parece apetecê-la e, após tanta espera, chega à balança com quase nada, que o mesmo seria ter abandonado a fila e saído sem comer? Parece-lhe que é refém do peso, das dietas e constantemente lida com exercícios do qual odeia e o dramático confronto ao espelho. Tenho que lhe revelar: ela sabe que não adianta encher o prato, pois não irá conseguir deglutir nem mesmo aquele mínimo de comida que atirou nele. E tal feito tão simples não será logrado porque ela carrega na garganta o impacto de uma bola de perturbações que impedem que o novo seja engolido e, a todo momento, parece que irá ser expelida e deixá-la meio assim, completamente vazia.

Sabe aquela moça…? Ah, você não a viu no metrô, nem no mercado, muito menos no restaurante? Desculpe insistir, é que você a viu, sim, só não se afetou em olhá-la. Ela também nada viu, pois estava preocupada demais em manter-se em pé, e esse é o maior desafio com que ela afronta diariamente. Ela virou na esquina, trôpega em seus passos, enquanto você atravessou a rua e seguiu sua trilha, pois os deveres convocam e o metrô, logo mais, estará lotado. E o melhor a fazer é enevoar os olhos.

O beijo

Mãos unidas, corpos resvalando, sinto sua essência tão próxima de mim, sua boca me convoca em sopro perfumado, e a pele vivencia o mormaço de seu hálito. Aguardo ansiosa o batismo dos seus lábios, aglomerando-se nos meus, feito colisão frontal, sem cálculo, sem premência, com devoção ausente de embaraço.

Esse toque me acode, surge para coexistir junto a mim, eu que não sei ser deserta, eu que suplico contato. Chega para invadir meus impérios, tomar posse, traz junto seu odor, sua saliva, sua língua, seus olhos cerrados embrenhando-se em minhas trevas.

Nada mais se enquadra no espaço de um beijo, nenhum segredo cala, por fim, nossa comoção e outras formas de linguagem se esvaecem. Vou e retorno da amplidão ao abismo em um mero átimo e não me interessa mais outra direção tomar.

Não me solte, não lacere minha alma ao desvencilhar-se de meus lábios. Quero persistir nessa viagem, excursionando em seus sentidos, perdendo-me na falta de juízo e desprovida de qualquer inquietação, deixando a noite cair…

A história de cada um

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.

(Lya Luft)

Nem é preciso que revelem o quanto a dor dilacera, o peito arfa e os dias não escoam. Diviso a tortura em cada olhar. Não, essencial isso não é, mas sei o quanto é necessário que cada de um de nós conte sua história.

Levantou-se P., portanto, mãos trêmulas, cultuando a luz da sala:

– Eu sonhava que o momento seria eterno e que, de tão incomensurável, poderia adquirir o dom de voar e seduzir a amplidão; saberia enxergar lágrima doce em cada melodia de canções favoritas. Porém, da calmaria passei rapidamente para o sopro de fúria, e agora preso aqui estou, sem mais reconhecer os limites da minha ira. Essa é a minha indignada história.

Mais doce, constrangida, todavia decidida, foi Continuar lendo

De amores e monstros

“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

(Nietzsche)

 

Diante da cadeira à mesa do café, riso não havia. Era um homem com sua xícara. Enquanto o café esfriava ao passar apressado dos minutos, ele aceitava o que não conhecia. Aceitava mesmo sem confiar e fazia da copa um confessionário silencioso, onde segredos não se revelariam à hora serena do dia.

Teria ele sido mutilado nos Continuar lendo

Minha querida vizinha

“Diz-me quem é o teu vizinho que te direi a fria em que te enfiaste”
(Provérbio meu, criado ‘inda agorinha)

Gostar de morar em prédio não é unanimidade. Há quem seja indiferente e se mova em passos distraídos do portão da calçada até a entrada do apartamento, sem sofrer com as etapas de passagem pelo portão A, portão B, portão C, janelinha da portaria, hall de entrada, corredor de espera pelo elevador, saída dessa caixa móvel e, por fim, a penetração na morada em si, sob olhares curiosos e insolentes de vizinhos de acesso.

Há os que, entretanto, veem-se deleitados em poder, a cada movimento, parar sem pressa alguma e abordar, com qualquer passante, assuntos relativos ao tempo, aos preços exorbitantes dos produtos no mercado ou a respeito do atraso na chegada do elevador. Será que está com defeito, vou de escada ou espero um pouco mais? Na semana passada esperei mais de dez minutos, que absurdo! Vou falar sobre isso com o síndico na próxima reunião de condomínio. Você vai, não é?

E, indubitavelmente, há os reservados que, por mais que estabeleçam relações educadas e cumprimentem a todos, sem contar anedotas pré-programadas, ainda assim fazem promessas mentais diárias para não se deparar com determinados vizinhos e não terem que improvisar relatórios pessoais sobre seus últimos feitos, como resposta aos questionários a que são submetidos.

A historieta que se segue trata dessa Continuar lendo

Para sempre

Parece que a ouvi chamar. Então, logo obedeci. Você não podia me ver, nem eu sequer adivinharia seu rosto, tão similar ao meu. Porém sua voz dormente e seu toque ainda distante acalmavam-me os dias, despertando o desejo de surgir e nascer para apurar quem de fato  era você.

Logo cheguei, apesar dos rodeios. Há quem diga que me arremessei nos seus braços. Hoje penso que foi você quem me alcançou, refugiando-me nessa fusão até o fim dos meus dias.

Tanto chorei e a vi mortificada a policiar suas próprias lágrimas. Tanto me retive acordado, à procura de um conforto que eu nem bem entendia e a vi ali a tentar estabilizar as pálpebras combalidas.

Então, compreendi onde estava. Não sabia nomear, mas sabia que era minha, que tudo era para mim e que não estava a viver essa vida sozinho.

Dessa forma, foi mais fácil sorrir. E quase me dilacerar em gargalhadas, pois também você se abria em riso rasgado para refletir minhas conquistas.

Você me viu rolar, cair para o lado, tropeçar. Testemunhou os primeiros desconfortos, as grandes dúvidas dos limites da normalidade e contestou até que ponto garantiria a sua própria lucidez.

E sem qualquer abecedário, estávamos ali numa nova realidade por vezes assustadora, outras pulsátil, em que trocamos longos discursos mesmo sem dizer uma palavra e li nos seus olhos a hesitação do “e agora?”

E aquela hora você começou a me formar, deixando que eu me modelasse. Naquela hora você me influenciou, embora fosse eu quem decidisse ao fim. Naquela hora você criou um roteiro, mas deixou que eu entrasse em cena como estrela, sendo sempre coadjuvante. Naquela hora você me deixou seguir, desprendendo-se de minhas mãos, sem, no entanto, desconectar-se de mim.

Sei que travou uma luta contínua para se renovar, para melhor lapidar esse novo nome que ganhou. Mãe.

Então, agora sou eu que a chamo. Para sempre.

Das pessoas perfeitas que nos despertam

Sem o intuito de esbarrar nas concepções sociais ou morais de excelência e primor, esse texto é sobre um ser perfeito. Não perfeito sob a designação comumente usada de perfeição, mas perfeito pelo conceito de capacidade, suficiência e necessidade. É sobre alguém que não impõe rótulos nos sentimentos e pode causar estranhamento, paixão, encantamento, tudo ao mesmo tempo e nem sempre se trata de amor.

É sobre uma pessoa capaz, suficiente e necessária, dessas que representam a primavera em qualquer época do ano: expulsam os medos, conseguem ficar com você por inteiro e conquistam aquilo que couber, entregando-se por uma hora, um dia, um mês, um ano ou uma vida, desde que seja com sabor de fruta mordida degustada ora sem pressa, ora com urgência.

Então ela é aquela pessoa perfeita, que te decifra pelo olhar e te assegura que as portas podem ser abertas, que as paredes devem ser derrubadas e não é vantajoso reconstruí-las, para que o sol entre; e que você pode simplesmente deixar fluir e ir.

É a criatura que aparece sem ser anunciada, com a boca escancarada em sorriso ao te avistar, e paralisa ao seu lado, fazendo daquele momento, eternidade.

E quando te abraça, traz a sensação de lar, de que é naqueles braços que você deveria ficar para sempre aninhado, de que dali você nunca deveria ter partido.

É para essa figura que você pode contar seus sonhos, delirar despreocupadamente, viver o melhor do futuro no presente, o melhor de si, na versão mais fiel de si mesmo.

Com esse personagem você vai conversar sobre tudo o que se encaixar ou vai ficar em silêncio, porque na mudez haverá tanta voz, tanto o que revelar e ele saberá ouvi-lo com a mesma intensidade que você.

É nos seus lábios – quando beijos existirem – que as horas se perdem e o chão recua, num hiato de espaço-tempo. Porém mesmo que não haja toque e envolvimento físico, há o consolo da entrega da alma, que é insubstituível, trazendo tanta dor e prazer quanto corpos unidos o fariam.

Essa é a pessoa que você carregará consigo, em alguma camada de si que já foi revelada no seu convívio ou que ainda se anunciará no porvir. Assim como a primavera, ela também talvez vá embora, porque precisa alçar voo. Vazio, contudo, não sobra, pois ficam as recordações definitivas em alguma gaveta da mente, provando que, nesse tempo em que esteve por perto, fez com que a vida se iluminasse e você se enchesse de si.

Bora correr

Ele passa de peito aberto, apesar do porte miúdo, com o par de tênis violeta, o calção preto meio justo e a pressa do atleta que tem as horas correndo atrás de si. O bom dia é tão afoito quanto sua pernada, e na mente o dia inteiro já se desenvolveu, tudo cuidadosamente planejado, mesmo que o relógio ainda aponte 07:30.

Ela corre despercebida dos arredores, blusa branca, tornozelo encorpado, o cabelo esvoaçando num rabo de cavalo a acompanhar seu movimento. Não é nada fácil, ela pensa, vou conseguir, não aguento mais. Só mais um pouquinho. Sabe que depois de tanto esforço não poderá se conter ao encarar o pão fresquinho com cheiro de convocação, a fatia de queijo, o pedaço de bolo, o café com açúcar. São 07:35 e ela já cogita se render.

Já a outra caminha curiosa, olhar para tudo, olhar para nada. Chama a atenção de quem por ela passa para o pato que contempla a lagoa, para a flor vermelha, cujo nome não sabe definir. O que ela queria mesmo era vestir-se de verde, ter asas e nadar em água calma. Mas os minutos não podem se exceder e ela já pensa no almoço, na organização da casa, pois já são 07:40.

Ele, com seu corpo delgado, os cabelos em neve, a postura linear, sabe que não está só, mas não se deixa alcançar. Sua voz é levada com o vento, mesmo que as palavras não se voltem para ninguém em específico. A marcha é veloz pois a linha imaginária de chegada está fora de alcance. São 07:45 e ele não vai parar.

Eu ainda não sei qual é a minha urgência, mas corro ao som agudo emanado pelo fone de ouvido. Todos os passantes me fazem companhia e cada história é um pouco minha. Vou também de peito aberto, alternando curiosidade e descaso; também clamo meus ais ao vento e penso em desistir incontáveis vezes ao dia. Meu passo é menos firme que meus atos, mas sigo assim mesmo. São 08:00, a manhã não tarda a acabar e ainda pretendo sonhar um tanto mais.