Noite além

No abismo da noite,
estamos entrando.lua-4

Estamos fugindo
do eco dos passos,
do sono que invade,
da vida que queima,
do céu que se abala.

E a vil metralhadora
cega nosso medo,
cantando à bandeira da paz.

Mas tudo é horizonte e luz
no meio dos escombros
da explosão dos sentidos.

E mata-se mais uma paixão,
que se existisse
não faria diferença.

 

Procura-se a verdade

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Procura-se o caminho da verdade, mas ninguém sabe dizer ao certo se ele representa uma curva ou uma linha reta. Muitos acreditam que é necessário atravessar uma ponte, passar por um túnel, descer a serra, seguir sempre na mesma direção. Mas, no meio do caminho, há sempre um falso informante que sugere um atalho para se chegar até ela de forma mais rápida e o resultado disso é que, ao findar a viagem, nada se encontra, a não ser uma extensa rua sem saída. Continuar lendo

Curtas

Nas alturas, o mundo fica um pouco maior aos meus olhos, um pouco menor ao meu alcance. Tenho tudo sob os pés. Mas o tudo é efêmero, o tudo deixa de ser quando se vai. Vai para não sei onde e talvez até continue sendo, mas não mais para mim. Olho para baixo e penso que tudo é meu, nada me satisfaz, mas me pertence nesses instantes fugidios. E sigo sem olhar para trás, deixando tudo para trás…

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Há dores que articulação nenhuma de palavras pode decifrar. Não falo somente de lágrimas ou de uma disfarçada desconversa. Nem de uma poesia declamada em clima de ponto final. Trata-se da música cantada com desembaraço, falando de um coração magoado, de pais distantes. É o amparo de uma colega, que ao mesmo tempo, queixa-se das suas saudades. É a tristeza de ser só. São palavras confusas e um vestido vermelho, que inspira juventude e sedução. É a esperança no amanhã ou na hora seguinte. Ou a desesperança. É saber-se estranho, sem proferir tal expressão. Saber-se humano, sentir se humano, ser humano. Com todas as suas pulsões de morte e instintos de vida alternados. Uma vida cheia de reticências em encontros constantemente adiados.


Pardo o teu rosto
envenena-me as horas,
feito o dia que acaba,
como o relógio que pára.

A porta

Ouço gritos atrás dessa porta. Num momento contidos, depois monótonos, às vezes incompreensíveis, quase sempre esmagadores. São tão deletérios, que acabo mal conseguindo distinguir se realmente há uma porta entre nós. Porque, ao meu redor, tudo parece tranquilo, e ainda assim, os gritos persistem. Ao mesmo tempo, essa tranquilidade externa me invade, e creio que em mim tudo se cala, sirvo somente de eco para os lamentos tristes que preenchem a sala contígua, cujos rostos não poso divisar.

Sei que posso escolher, criar possibilidades. Abrir a porta e reconhecer um novo ambiente, reconhecer-me em um novo ambiente; afastar-me dessa passagem até perdê-la de vista, até perder-me de vista; ou ficar onde estou, e esperar que as angústias se rendam ao silêncio.porta_aberta

O hino do antigo mundo

“Caminhando e cantando e seguindo a canção…”. É fácil escolher um caminho, mas a tarefa mais difícil é seguir a canção. Machado, por exemplo, poderia compará-la à existência humana. E, com certeza, diria que a música nunca esteve tão destoada, e o que deveria ser um hino, não passa hoje de um bombardeio de vozes heterogêneas, que provocam um total desconcerto.

Por trás desses acordes, encontra-se um coro formado por cidadãos com as mais distintas características e que, no entanto, não se misturam. Na tentativa de salientar a sua ideologia, o ser humano não admite contrapontos, opiniões opmãosostas, dubiedades ou uma simples hesitação. Assim, descarta as críticas ao seu modo de pensar com a mesma violência com que tenta livrar-se de um mosquito inoportuno.

E em todo lugar ouve-se falar em fé, em igualdade (religiosa, política, racial, ideológica…) e essa mesma atmosfera de respeito é desfeita se alguém banaliza ou somente ignora o seu conceito. Casos já antigos como a crença na salvação trazida por um cometa são tidos como inaceitáveis manifestações de fanatismo e o curioso é que, ao censurá-los, ninguém se identifica nas suas próprias atitudes.

A intolerância de uns é a cegueira de outros e ambos se revestem de moralismos e crenças para tornar absoluta a sua ‘verdade’. Verdade essa que, na minha humilde crença, não vai ser descoberta, dispensa apresentações por não existir. Mas caso exista, talvez com mais alguns séculos de guerra, o homem consiga atingi-la. Se não, resta a impressão de que se gastou tempo demais em busca de algo que poderia ser resumido em poucas palavras: os sonhos aparecem sob línguas, cores, deuses e amores diferentes, mas ao traduzi-los, chega-se a um mesmo hino: “somos todos iguais, braços dados ou não”. O difícil é abrir as mãos.