Carta ao livro

“Um livro é a prova de que os homens são capazes de fazer magia.”
(Carl Sagan)

Querido amigo

Estou esgotada ultimamente, mal tenho forças para fazer-lhe companhia e dói-me o coração tê-lo tão contíguo todos os dias, tão desimpedido e destinar a você conversas tão curtas. Acredite, embora nem sempre eu o carregue, você me acompanha ao longo do dia, nem que seja em minhas aventuras mentais.

Pois você, prezado amigo, enriquece meus dias  desde os primórdios, tornando-se ora platéia, ora espetáculo, ora conselheiro, ora ouvinte. Fiel, invasivo, permissivo, indulgente e, às vezes, lancinante. Você me leva dessa esfera, se fugir for meu intento, traz-me de volta quando o susto me corrói. Pavor, pranto, desconsolo, ambiguidade: em mim você já viu de tudo.

Você estava lá quando eu o namorava à distância na estante, e dedicou-se a mim, sem recato, quando me prometeu desvendar as palavras que eu ainda nem discernia. Abriu-se a mim no conto adolescente, no conhecimento da língua portuguesa, inglesa, nas histórias do meu país, nas ciências exatas e nas inexatas, impregnando-me de amor pelo que faço, a qualquer hora do dia.

Desejos de ser…a esses você assistiu e até colaborou um pouco! Quis ser bruxa, ganhar um netsuquês, conhecer o deserto dos tártaros, criar um emplastro e até devorar uma barata. Reconheci-me meio gauche, e constantemente uma Miguilim; julguei ter lábios de mel, e entendi um pouco mais sobre a solidão humana. Estudei as revoluções, a mitologia grega, céltica, a traição ou não daqueles olhos de ressaca.

Houve épocas em que vivi na Terra Média, que larguei a escola comum para estudar em Hogwarts e não me conformava, de forma alguma, em voltar para a minha rotineira realidade.

Gargalhei dias seguidos com a história bíblica contada às avessas, com todo respeito, e não queria desvencilhar-me de você quando terminamos. E, questiono, as vezes, a célebre pergunta: tudo é permitido?

Em você, tive a maior lição da vida: de tentar ser quem eu sou e ter a liberdade de não adquirir modos nem formas, vivendo apesar de, e pensando quase sem palavras. Foi quando você me viu expulsar de minha bagagem um grande amor e eu diria hoje que “o resto é silêncio”.

Ah, caro amigo, ventos uivaram e suspiraram, crimes se alastraram pela consciência, corvos aterrissaram em minha janela e até hoje me pergunto porque aquele pé de laranja foi arrancado, por que aquele rosto foi desfigurado, porque Nietzsche nunca chora e por que a vida tem que ser assim, tão severina.

Mas você não tem todas as réplicas. Algumas delas estão nas próximas páginas, capítulos ou sequências. E outras tantas suspeitas terminam em reticências. E você, meu amigo, estará comigo, em todas as entrelinhas, interrogações e até nas folhas em branco, quando nada puder ser dito. E sempre que nos permitirem, você portará meu berro, meu desabafo, enquanto o sonho puder ser meu.

Durante o tempo em que puder te tocar, os meus olhos puderem te ler e o seu cheiro se fizer presente nos meus sentidos, não te abandonarei. O que preciso é do prazer dessa solidão acompanhada, meu amigo, meu mestre, ainda tenho tanto a aprender…

3 comentários sobre “Carta ao livro

  1. Meus livros. Companheiros da solidão. Que hoje me fazem ter que voltar algumas de suas páginas, distraída, por ter perdido o que vocês queriam mesmo me dizer. Que, às vezes, me fazem rir, com suas histórias engraçadas, caricatas, sobre os homens. Outras me fazem chorar, quando eu me identifico ou sinto suas dores ou me deixam triste, quando não tenho tempo ou ânimo para tomá-los nas mãos. Que prazer é vê-los na estante, esperando serem abertos, conhecidos. Meus amigos quase inseparáveis.

    Lindo o seu texto. Espero que volte logo a seus livros.

    Curtido por 1 pessoa

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