O quarto

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Escrevi isso em 05 de julho de 2001 e publico aqui para fechar esse ciclo de ritualizações antigas, pois perder-se é preciso, mas reencontrar-se é mais necessário ainda.

Não há grandes mudanças na paisagem vazia que é esse quarto. Ainda tento instalar nele alguns objetos que caracterizem um pouco de mim, mas me confronto com dois pensamentos. Primeiro: como torná-lo parecido comigo, se nele reina uma estabilidade inevitável, daquelas que mesmo removendo um livro ou mudando qualquer coisa de lugar, nada muda? Segundo: como torná-lo parecido comigo, se nem sei o que é ser como eu? Porque não sei o que sou.

Talvez eu tenha noção do que não sou (embora, por exclusão, eu ainda assim não consiga descobrir quem sou) e, definitivamente, esse quarto faz parte do que não sou. Porque há um guarda-roupas mais ou menos dividido, com itens mais ou menos ajeitados, que eu insisto em olhar, com vontade de absorvê-los, procurando identidade. Há calçados, que eu tento entrelaçar, roupas compartimentadas, livros, agendas, papéis e mais papéis, bichinhos de pelúcia que somente ocupam espaço, por fazerem parte de um passado apenas colecionável. É, eu colecionava fotos, presentes, mensagens, papéis, amigos e isso me preenchia, fazia com que pensasse menos em mim como ser em mim mesma, como ser absoluto. Eu era um ser para os outros.

De longe, uma foto que me recorda uma disfarçada alegria de um tempo menos remoto, em que viver e viver era a condição essencial, sem que eu me desse conta de que “viver e viver” era a condição dos outros e eu me segurava a ela, para me sentir como o outro, para não estar sozinha, diferente. Mas procurava. E reinventava. E me perdia mais de mim.

Há uma janela e não importa o que vejo através dela. Posso ver casas, pessoas, a lua, as estrelas, um telhado que me leva a um caminho de serenidade e a certeza da solidão. Mas, é como se tudo isso me tornasse prisioneira, como se a noite simplesmente passasse, as nuvens passassem, as pessoas e os sonhos passassem…

À mesa, livros que falam um pouco de mim, um pouco do que quero me tornar. Velas coloridas, pedras, imagens, bruxas e variações sobre o mesmo tema: tudo me leva a essa adoração, mas não consigo me construir ou me definir a partir desses objetos que, repentinamente, apareceram na minha vida. Porque eu não sei o quanto tudo isso é passado. Não sei o quanto eu quero deixar tudo no passado.

Nas gavetas, há um pouco de tudo, mas não consigo lembrar-me exatamente o quê. Prefiro deixá-las fechadas. Rasas, superficiais. E o que é superficial não só não me satisfaz, como me sufoca. Mas posso olhar para mim, para trás, sem dor. Mas olho perdida. E ainda não sei o que fazer com isso.

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