Duetos: A-DOR-AR

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Criei esse espaço “Duetos” para deixar eclodir a vontade de conhecer o outro, de desafiar-me a novas formas de escrita e para me aproximar daqueles que cultivam as palavras como companhia predileta, sejam escritores, devaneadores ou parceiros na vida que gostem de traduzir em verbos suas sensações.

O resultado está me trazendo um contentamento místico e a certeza de que escrever é o que quero fazer para o resto da vida.

Começaremos com ele, o escritor Hang Ferrero, autor do blog O Ponto Afinal, cujos poemas tem feito a diferença nos meus dias. Roubo da sua página essa sublime descrição:

Nascido em Laguna ,hang aos 13/04/72 , berço da República Juliana , de Anita Garibaldi , dos casarios antigos , das águas por todos os lados e toda monta de seres do imaginário nativo; acredita que por conta dessa atmosfera providencial , tenha alimentado a verve poética , como a um sacerdócio . Sem sofismas , é Hang Ferrero !

Convidei-o para escrever esse conto junto comigo, para unirmos prosa e poesia, da forma que as sílabas nos gritassem. Partimos os dois da interpretação de uma cena, a tentativa de um poeta retomar o contato com a escrita, por estar com mãos e alma engessados. E o resultado, que me deixou sem ar por alguns instantes, não poderia ser mais verdadeiro, não poderíamos estar mais presentes na vida do poeta do texto.

Obrigada, poeta, por conceder-me a honra dessa parceria com você.

 

A-DOR-AR

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Manhã ensolarada surge, mas as sombras ainda encurralam qualquer beira de entusiasmo por dentro de mim. O dia assoma e a cama sequer foi desembrulhada, pois não sabe mais se aquecer. Na mão direita, a xícara de café amorna meus pensamentos, mas os surpreende ocos, privados de não sei quê. À mão esquerda, a caneta vacila, tinta fresca, monótona pelo desuso, confiante ainda do destino de tracejar o papel nevado.

e assim privado de tudo
o que sobra é zombaria
e tudo é tentativa vã
e da janela, outdoor
lusco fusco neon
carpe diem, carpe diem

Essa vigília tem dominado as horas e o sono não aponta, nem de dia, nem de noite. O olhar derreado trava as lágrimas há tempos, carregando a impressão de aridez em todos os cantos de mim, tudo seco, seco, seco…

cadê as brumas e toda
felicidade que se preza?
cadê terra firme?
e chão sob os pés?
que pena! apenas papel
e a leveza do nanquim

Quando foi que me inundei de gozo? Já não me recordo, estação distante, não me atormento mais em olhar no calendário as semanas passarem, os dias passam meio sem repertório. Mas a lembrança é distante, assim como o riso que estava aqui ‘inda agora, em qualquer cômodo, sobre qualquer  móvel e sobra o eco da sua voz pela janela, decrescente, fugindo, escapulindo de mim.

a que me presto nisto aqui?
senão a-dor-ar?
a fresta, a pressa
a dor do ar rarefeito
e o riso de soslaio
e o soluço que não cessa

A caneta protesta impositiva borrando a letra, manchando a folha em toda sua extensão, pois minhas mãos a espremem dolorosamente, sem piedade pela falta de prática. Se quiser o poder de me chefiar, amacie seus dedos ou então, de mim continuará tendo silêncio, quase posso ouvi-la argumentar. Calma, minha fiel amiga, ainda estou enrijecido, mal retirei o gesso que me curava e escudava de novos choques e você já me pede sutileza!

e se divertem de mim
e se riem da loucura
que me espreita e arrisco
um, dois gritos no ar
mas sou temeroso e temerário
sou, estou, “verbo” dor

Não avance em mim, assim não prosseguirei! Dessa vez é o papel que contesta, sem dar-me alternativa. Comece de novo, parta do novo, faça-me polido, sem rasura. E logo estou eu a limpar a marca na ponta da caneta, trocando o papel, após esse diálogo entre amigos que se pedem companhia, que não ousarão despedir-se.

assim, recomeço do alívio
que me resgata do caos
e sê rapport e me serve
insights breves, de leveza
e se apropria e se cria
da última lágrima salina

Ora, por que foi que deixou na porta aquele adeus? Por que o piso de madeira não reclama mais ser asseado das marcas de seus pés suados? Como foi que deixou de esparramar os lençóis e deitar-se à minha espera? Em que hora seus lábios desgrudaram dos meus e meus abraços se desprenderam de suas costas, sem promessa de regresso?

e cada traço, bem digo
outros processos arrisco
e sofro a perda do razoável
mas gosto do gosto disso
e sorvo, e lambo cada espaço
mal-dito, sou maldito

O ponto de partida é o zero, reinício, o ponto afinal. Caneta e papel se completam, um tanto unissonantes. Não sabia ser possível recriar um ponto de partida, achei que só poderia me prorrogar, bem no meio, como expediente que segue, já pela metade.

bem sei que bem sabes
oh alter ego parasita
que me vês fora daqui
fora de ti, fora de mim
escovarei os sapatos
cai fora! parti!

É possível, é possível! E partirei do quê, de onde, se as noites não se encerram e a xícara de café ainda se agarra às minhas mãos?

e ocorre que acovardo
oh bardo! meu flagelo
tudo isso ainda é frio
e bem servido desta xícara
percebo ainda dois terços
de tudo o que não queria

É permitido?

quem sabe nunca soube
ao certo se assertivo fui
permita-me se for de valia
avalio que não traguei
da tua garganta o verso
e ignorei se permitias

É essa a combinação quase perfeita: destruição e essência. Porque para que a vida retorne, é preciso algum final e logo mais um prelúdio urgente.

quer saber de fato?
dependo das tuas preces
e cada agulhada no meu voodoo
cada gota deste vermelho arterial
me envolve às tuas bruxarias
que preciso tanto e tanto

E depressa a palavra grita. O verso eclode. A poesia não mais emudece.

então prescrevo à dor:
o que sobra é zombaria
felicidade que se preza?
a fresta, a pressa
e se riem da loucura
e sê rapport e me serve
e sofro a perda do razoável
oh, alter ego parasita
oh, bardo! meu flagelo
permita-me se for de valia
que preciso tanto e tanto “de”
cada gota deste vermelho arterial

Transbordo novamente a xícara com o líquido quente, quase pulsante, abro as janelas e vislumbro o espetáculo luminoso que convida a um passeio. Sem demora, estarei pronto, assim que o café acabar.

mas gosto do gosto disso
e sorvo, e lambo cada espaço
mal-dito, sou maldito

Em breve, mais parcerias!

 

 

16 comentários sobre “Duetos: A-DOR-AR

  1. Lindo Fran e querido amigo hangferrero, babar é pouco, babando é termo certo. Me perco nesse mundo ainda até que descobri o porque de não aparecer em meu feed, por ser um espaço pessoal e não um ( .wordpress.com) acertado agora em meu perfil de buscas.
    Vivendo e aprendendo mesmo que seja devagar, rsss. 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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