Duetos: A boneca esquecida

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Mais um encontro para a série “Duetos”, oportunidade criada para deixar eclodir a vontade de conhecer o outro, de desafiar-me a novas formas de escrita e para me aproximar daqueles que cultivam as palavras como companhia predileta, sejam escritores, devaneadores ou parceiros na vida que gostem de traduzir em verbos suas sensações.

Fer e eu (2)Hoje a parceria é com Fernanda Camargo, que além de ser minha irmã, é Doutora em Matemática, leitora voraz e cúmplice na tarefa de viver. A máxima de sua vida é:

“A maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é que se é infeliz” (Dostoiévski)

 

O texto que escrevemos juntas parte do lamento de uma boneca abandonada e, com três narradores diferentes, e possível entender um pouco os motivos desse descuido. Vamos a ele:

 

A boneca esquecida

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(Parte 1)

“Foi ao canto
a boneca velha
que, de tão usada,
já não apresentava
a rosa vermelha
que antes enfeitava
o seu vestido branco.

Ela permaneceu quieta,
a mirar o distante,
ou a focar o nada?
Deixou romper uma lágrima,
um tanto hesitante
molhando a face calma
num rompante de tristeza secreta.

Tão solitária deve se sentir
uma pequena boneca
que, por tantos anos,
foi companheira de sonhos,
parceira de encrencas,
ser vítima de tamanho
abandono, sem ter para onde ir.

A porta se fecha numa batida
E a boneca procura para onde olhar,
pois não pode do canto se deslocar
nesse estado que a paralisa.
Tenta erguer-se, mas falta-lhe ar
Suas tentativas são tão imprecisas.
Fortemente, de angústia, ela é acometida…”

 

 (Parte 2)

Já são três horas e é quase tempo de ir. Dizem que é hora de revelar o adeus silente, a última lágrima, os abraços finais. Como se, de um instante para outro, ao jogar-se terra por sobre a caixa lacrada, não houvesse mais alguém de quem se despedir. Como se em algum momento alguém tivesse permitido que ela partisse.

Não houve autorização nenhuma. Mas também não roguei que ficasse. Fiquei ao seu lado, esperando algum clarão iluminar o quarto, algum tremor desequilibrar-me as pernas ou alguma voz polida reclamar por ela. Mas nada aconteceu e, distraída nesses rodeios, não a vi seguir. Divisei, de repente, seus olhos recolhidos e perdeu-se o porvir. E nada mais foi feito, a não ser a confirmação do horário, deixando-me em seguida com ela, sem conversa, sem presença.

Mas ainda não posso sair e deixar o armário abandonado, pois seus objetos não se discriminam sem proprietária, não podem simplesmente permanecer ali, no escuro, sem ao menos a lembrança do bom dia que ela sempre soube desejar.

Vou retirando cada item e somente guardo novamente em outro canto, pois não sei qual destino oferecer a uma caixa de música, um baú de cartas, um echarpe antiquado e inusitado…ou a velha boneca com seu pálido vestido.

Fora ela sua amiga de longa data. E quando contemplei, ainda menina, a sua clássica boneca de pano, eu a ambicionei com todo o esforço de meus dedos minúsculos, sacudindo-me em rancor quando ela, sem argumento, não aceitou que eu me apoderasse de seu bem mais estimado.

E agora, Maria, Joana, Laura, seja qual for o nome que um dia ela lhe batizou, não irá mais ouvir pronunciar. Você que não soube ser minha, fique aí, à beira dos dias, sem sua rosa vermelha.

Por que esse ar de angústia? Por ela não ter lhe arrastado nos braços, a fim de ver escoar junto a ela seus últimos dias? Por ela não ter lhe doado antes de deixá-la assim, sem motivo? Ora, guarde seus lamentos. Também eu não tive treino. Não fui instruída de como seria ontem ter minha mãe comigo e hoje não mais. Como é que se capacita alguém a não ter mais quem a gerou?

Pois continue aí, sem par, sem sonho, em abandono. Eu me retiro para o que é de praxe, nada mais tenho a fazer por aqui…

 

(Parte 3)

“Não mais de cantos me basto. Não sei viver guardada. Nunca soube dizer adeus. Portanto não o disse. E nem ouvi. E a porta se abriu novamente, tornando breve a tristeza. Esse novo lar me preenche, tal como a mãe, a filha me cerca. E eu me visto de rosas, porque não sou nem Maria, nem Joana, nem Laura. Mesmo usada, sou Rosa. Boneca de pano sem dono, senhora de mim.”

 

Até o próximo encontro!

5 comentários sobre “Duetos: A boneca esquecida

  1. Tu não tens ideia da gratidão que tenho por teres aceitado o desafio, convite, de completar o anteriormente denominado “A boneca” e teres me entregado um texto incrível, superando a expectativa que já era muito grande. O “A boneca” tem um significado muito especial para mim; depois de uns 15 anos sem escrever nada, ele me surgiu, assim, como em um sonho. E carregava tantos sentimentos meus que precisava transbordar. Mas eu não dei conta dele, pois me trazia muita tristeza. Então, o convite a ti foi como “Ajude-me, eu queria vê-lo terminado, e preenchido da maneira que a boneca merece”. Muito obrigada.

    Curtido por 1 pessoa

    • Sinto não saber fazer poesia…mas acho que a tarefa de sentir nos cabe bem…e foi o que aconteceu. Quebrei a cabeça procurando uma forma de salvar a boneca do abandono. Mas só foi possível prosseguir quando me dei de conta de que somos nós que precisamos ser resgatados. Obrigada a você pela oportunidade.

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