Asas

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Queria viver em minha toca, a tal da Aboborolândia, casinha espremida, alaranjada de criatividade, porém sem calidez.

Queria mesmo ser um vestígio na noite, bem escondida, ilhada, mas de uma melancolia infinda, para que não sobrasse espaço para demorar-me em lugar nenhum, em pensamento nenhum.

A sede do entendimento me guiava, restaurava a sanidade, mesmo sem nada entender. E nada entendia, nada cabia, nada alegria.

Costumava chorar baixinho, sendo pequenina e encolhida o mais que me restasse para não ser ouvida.

Os amores não me preenchiam, pois hora asfixiavam e deles morria e outra hora se dissipavam e eu sequer me disparava a persegui-los, pois sentia as asas tolhidas.

E então você veio, meio clichê, recitando seu refrão.

Mal me abasteci e já tinha pintado a toca e escancarado as janelas, com a casa esquecida.

Mal me percebi e o pensamento parou de vagar e ficou ali revoando em descanso.

Mal me alcancei e já estava ali de alegria coberta.

Mal me sustentei e a lágrima caiu alta, gritante, infinita, até sem pressa de ser enxuta.

Quando reparei, você me sorria lá embaixo, assistindo ao vento bater espalmado em meu rosto, já que eu voava exultante, quase a tocar as nuvens.

E as minhas asas não deixariam mais de abrir.

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