Duetos: Eu só vim te dar a minha mão

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Mais um encontro para a série “Duetos”, oportunidade criada para deixar eclodir a vontade de conhecer o outro, de desafiar-me a novas formas de escrita e para me aproximar daqueles que cultivam as palavras como companhia predileta, sejam escritores, devaneadores ou parceiros na vida que gostem de traduzir em verbos suas sensações.

Hoje estou muito honrada em dividir as palavras com a Sílvia Souza, do blog Reflexões e Angústias.

silviaRoubei do blog dela a sua descrição de si mesma:

Uma mulher com múltiplas almas. Sou mãe acima de tudo. Profissional apaixonada pelo que faz. Sou sensível, romântica, sonhadora, intensa, sincera. Busco explicações todos os dias. Explicações para a vida, para os acontecimentos, para as belezas do mundo. Reflito sobre tudo o tempo todo. Não busco certezas absolutas, que não existem. Apenas quero encontrar meu papel na sociedade, porque quero viver em paz. Sou apaixonada por livros, por filmes, por viagens.

A máxima de sua vida é:

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A Sílvia é formada pela mesma Faculdade de Medicina que eu, mas nos conhecemos aqui na rede e descobrimos algumas paixões e emoções em comum. Pedi a ela que visualizasse comigo essa cena descrita no texto que virá, colocando em palavras uma situação que tantas vezes aconteceu na nossa vida de estudantes ou médicas ao longo desses anos e que teria marcado a nós duas. Os personagens podem ser diversos, mas a sensação e a dor foram essas, tais como nossos textos definem, ousando porém parear os dois lados: o do médico e o do paciente.

 

EU SÓ VIM TE DAR A MINHA MÃO

“Talvez eu saiba como abordar as tuas lágrimas e possa tocar-te como quem se aproxima de uma resposta precisa, que me satisfaça e tanto será minha, mas saberei que mais do que minha, ela será tua?”

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O grupo se reuniu na nova enfermaria. Começamos o estágio de Clínica Médica. Nova adaptação. Conhecer a enfermagem. Dividir os leitos. Descobrir as doenças que teríamos que tratar. Eu tinha um interesse particular nesse estágio; precisava marcar presença, ter boas notas, demonstrar conhecimento.

Cada um de nós ficou responsável por três pacientes. Os meus eram um Lúpus, um Câncer de Pulmão e uma Tuberculose renal. O Lúpus e a Tuberculose já estavam em tratamento; só tinha que acompanhar. Mas o Câncer de Pulmão chegara do Pronto Socorro na véspera. Tinha que ir atrás dos exames e do tratamento.

Eu ainda não via as pessoas. Via apenas as doenças. Não me preocupava em acolher. Precisava aprender para ter boas notas e passar na prova de Residência. Era o quinto ano da Faculdade. E, talvez, tenha sido aquele “Câncer de Pulmão” que mudou tudo em mim. E acabou me tornando uma pessoa melhor.

Cheguei ao quarto onde cabiam quatro pacientes. Um dos leitos estava vazio. Carregava o estetoscópio no pescoço, como era o costume de todos nós naquela época. Procurei a paciente que eu deveria conhecer. Ela estava sentada na cama, muito magra, com seu olhar assustado de quem não sabe o que está acontecendo.

Coloquei-me à sua frente e apresentei-me. Disse que iria cuidar dela. Ela pegou minha mão entre as suas de forma inesperada, deixando-me completamente sem reação. Não estava acostumada a receber carinho dos pacientes e, normalmente, apenas os tocava para examinar. Enquanto eu falava, ela mantinha minha mão cativa.

Providenciava os exames aos quais ela tinha que se submeter. Alguns muito desagradáveis, mas importantes para o diagnóstico preciso.

E, a cada dia, eu entrava no quarto e já lhe dava minha mão, como se eu precisasse mais daquele afago, daquele gesto humano do que a própria doente. Eu a acompanhava aos exames, à tomografia, à biópsia de pulmão, à broncoscopia, e ela passava por tudo sem nunca se queixar. Ao final de cada etapa, agradecia-me como se eu estivesse lhe dando uma chance de vida.

Conforme os dias passavam, não era apenas a mão que eu lhe dava; eu chegava ao quarto e lhe dava um abraço e sentava-me em sua cama ao seu lado (embora não pudéssemos nos sentar nas camas dos pacientes). Além de escutar como ela estava passando, ouvia sobre sua família, sobre os filhos, os netos, sobre sua mudança sofrida para a capital.

Houve o dia em que os resultados ficaram prontos. A biópsia, a tomografia, tudo indicava um tumor muito agressivo e não responsivo à quimioterapia. E não dava mais para ser operado. Não havia necessidade de mantê-la internada.

Uma das filhas veio e fui conversar com ela, explicar o problema e a gravidade da doença. Peguei um papel, desenhei uns rabiscos na tentativa de falar o mínimo possível, porque havia uma angústia comprimindo minha garganta. Eu me sentia definindo o destino de alguém que fui aprendendo a amar ao longo daquelas semanas.

A filha começou a chorar assim que entendeu a gravidade do quadro. A mãe, minha paciente, minha amiga, olhava para mim com admiração e sorriso nos olhos, certa de que eu tinha lhe dado tudo o que havia disponível. E ainda mais do que era minha obrigação.

Saí do quarto contendo as lágrimas e fui ao quarto dos médicos para chorar. Fiquei muito tempo ali, soluçando como uma criança que se perdeu da mãe. Quando voltei ao leito, ela já tinha ido embora com a filha. Era mais uma pessoa que tinha passado pela minha vida, deixado sua marca e partido.

O estágio continuou. Mas eu não tratava mais doenças. Eu agora tratava de pessoas e dedicava-me a cada uma delas como se fosse alguém da minha família.

Da Clínica Médica, fomos para a UTI. Era um estágio cansativo, cheio de plantões e muitos pacientes graves.

Em um dos meus plantões, internei uma paciente que vinha em insuficiência respiratória do Pronto Socorro. Seria internada apenas para que recebesse conforto, porque seu quadro era muito grave e provavelmente morreria em poucos dias (ou horas). Ela chegou à UTI ainda consciente, respirando com dificuldade. Quando olhei para ela, eu a reconheci imediatamente. Era o “Câncer de Pulmão”, o anjo que me humanizou e me transformou em mais do que uma mera tratadora de doenças. Ela olhou para mim, sorriu e se lembrou da nossa última conversa, quando expliquei tudo para a filha e ainda contou que eu usava uma blusa vermelha e que ela não se esquecia daquela imagem minha.

Eu segurei sua mão entre as minhas, da mesma forma como ela fizera no primeiro dia em que a vi. E comecei a chorar por ela, por mim, por gratidão, por saudades, por medo da perda.

Disse que melhoraríamos o cansaço, que a ajudaríamos a respirar melhor, que não tivesse medo. Que eu estaria ao seu lado todo o tempo. Que, infelizmente, não foi longo.

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Procurei atendimento naquela manhã meio cinza e sem palavra. Já esperava a minha vez fazia meses na fila do ambulatório. Mas não teve jeito, precisei. Coff coff coff há tanto tempo e uma dorzinha incômoda no meio do peito, uma certa falta de fôlego ao andar. Mas aquele dia era diferente, havia um pouquinho de sangue no catarro expulso de mim, sinal estranho, era preciso ver, era preciso.

Mas fiquei tão confusa, gente que passava para lá, para cá, macas no pronto socorro, um médico de barba escura chamou meu nome, ouviu minhas costas com o aparelhinho de escutar as costas, viu se estava tudo bem com meu pulmão, mas nada disse.

Fila de raio x, volta para a sala de espera e espera e espera e eu ali naquela cadeira fria, sem apetite e sem pensamento. Outra moça de branco me chamou, pegou o exame, saiu da sala, foi conversar com alguém, voltou para me examinar de novo, estava acompanhada.

Falaram tanta coisa, explicaram, coisa séria. Sei que eu ficaria internada, para fazer mais exames. E assim fiquei.

Era no sexto andar. Junto comigo, mais outras três camas. Na frente, uma moça com a cara bem inchada, ao seu lado uma senhora magra, pele e osso quase, que não falava nada hora nenhuma, ao meu lado uma maca que me disseram ter ficado vaga havia pouco tempo. Já era tarde.

Então começaram a me revirar. Não sei bem quanto tempo levou, quantos dias se passaram. Quantas picadinhas e sangue me tiraram, quantas vezes desci e atravessei o corredor extenso para fazer exames, sentada na cadeira de rodas.

Só sei que ela vinha me ver todas as manhãs e tardes. Entrava sorrindo no quarto, falava bom dia para todos, até para a senhora que não conversava. Toda de branco, aparelho no pescoço, ouvia meu peito todo dia e segurava minha mão, olhava bem nos meus olhos e queria saber o que eu estava sentindo, até sentar ao meu lado ela sentava. Todo dia explicava alguma coisa, falava dos exames. Mas é que eu não entendia, eu não entendia. E sorria junto com ela.

Um dia minha filha veio lá de longe me visitar. E perguntou “mainha, o que você tem?”. E eu não soube bem dizer. Chamei ela, a minha médica, que veio, dessa vez, com um avental branco e uma blusa de lã vermelha por debaixo. “Dotorinha, explica para a minha filha o que eu tenho”.

Ela demorou um pouco, olhando para nós duas. Pegou uma cadeira, sentou de frente e puxou do bolso um bloquinho de notas, começou a desenhar, apoiando a folha na cama. Eu não sabia se olhava para o desenho ou para o rosto dela, falando, falando sem parar. Achei que ela clareou tudo. Era grave, era a doença ruim, dessa vez eu entendi. Minha filha chorou um pouco, mas eu não, eu quis mesmo sorrir, pois estava, enfim, entendendo tudo.

Tive alta alguns dias depois. Estava bem, nada a fazer. Aproveitei para cuidar de casa, arrumar tudo. Cuidei de me despedir.

Voltei quase um mês depois. Porque o ar faltava muito e no raio X o médico contou que não dava para ver nada, tudo branco, foi o que ele disse. Dessa vez, eles me colocaram num quarto muito grande, com várias camas e o dia inteiro apitava algum barulho. E muita gente entrava e saía.

Daí para frente eu me lembro de muito pouca coisa. Porque era tão difícil puxar o ar e eles disseram que iriam me ajudar a respirar. E fui ficando com sono, cansada, assim sem volta.

Mas antes disso, ela veio segurar a minha mão. Ficou um pouco ao meu lado, sofrida. E eu disse a ela que não precisava chorar e que nunca iria esquecer aquele dia que ela tinha desenhado a minha doença, o sorriso e a blusa vermelha que ela usava.

E era verdade. Tudo sumiu e eu não esqueci.

 

É isso aí. Até o próximo encontro.

9 comentários sobre “Duetos: Eu só vim te dar a minha mão

  1. Lindo essa descrição do dueto, a mesma situação descrita de formas tão lindas. Há sim um “quê” do querer talvez ser o que não somos na área médica. Perder um paciente é o mesmo ou pior que perder a guerra, pois não há como reunir os soldados para contra-atacar. A medicina é algo lindo, ser médico, médica é se colocar na posição de anjo, mas muitas vezes esse anjo Deus permite que faça e noutras não. Esse é o grande desafio da medicina, a incerteza de estar seguro no que faz, mais inseguro da reação de seu paciente. Quando entrei para cirurgia no dia 30 de abril ainda deitado quando o Dr.me disse que começaria a sedação eu lhe desejei boa sorte e ele disse a todos nós e eu retrucando disse não doutor, boa sorte a você pois a minha a partir de agora depende da sua. Vejam a responsabilidade que depositamos neles, chega a ser cruel não?
    Todo conto, toda história que envolve a prática médica é vista como uma homenagem, pois quantas noites em claro, quantos compromissos interrompidos no meio da madrugada ou mesmo de algum festejo em família ocorre para correr e ir de encontro ao seu paciente. É uma profissão intensa, linda, sensível e ao mesmo tempo feita apenas para os fortes.
    Parabéns a ambas pelo bela e linda apresentação e pela profissão que abraçaram.
    Que Deus permita sempre que ganhem mais nas partidas de xadrez, quando estiverem nesse jogo da vida.
    Beijão a Fran e a Silvia e a todos que tem na medicina sua forma de compartilhar o amor. ❤

    Curtido por 2 pessoas

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