Duetos: Silêncio e grito em duelo

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Mais um encontro para a série “Duetos”, oportunidade criada para deixar eclodir a vontade de conhecer o outro, de desafiar-me a novas formas de escrita e para me aproximar daqueles que cultivam as palavras como companhia predileta, sejam escritores, devaneadores ou parceiros na vida que gostem de traduzir em verbos suas sensações.

E o “encontro” de hoje me trouxe satisfação e alegrias imensas, pois é com o Marcelo, do blog Patriamarga.  Tomei a liberdade de descrever o seu relato sobre a máxima de sua vida, acho que nada mais esclarecedor e uma forma de mostrar uma “pitada” de quem ele é (interpretação minha, obviamente, que o tenho conhecido um pouquinho mais a cada post):

2c5110f291e2bf3d313d768236362ebb“Minha frase de ordem, apesar do nordestino que persegue meu imaginário, é uma bem paulista: “NON DUCOR DUCO” (“Não sou conduzido, conduzo”). Que está no Brasão da cidade de São Paulo!
O que parece arrogância é, na minha verdade e que passo para meus filhos, um sinal de que somos totalmente responsáveis pelos nossos atos. Sigo adiante e liderando minha consciência, mas se algo der errado, que eu esteja sempre consciente.

Quando eu o convidei para escrevermos juntos, não fazia ideia do tema, já que ele já havia escrito sobre tantos assuntos que me despertaram interesse. Eis que li que era um profundo admirador do silêncio. Pois enfim, surgiu, algo que eu chamo não de diálogo, mas de contestação ou batalha suave entre o silêncio e o grito. Como bem disse o Marcelo, silenciar ou gritar? A consciência é desafiada a escolher, sendo que a resposta é apenas um detalhe. Quase um tanto faz!

 

SILÊNCIO E GRITO EM DUELO

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Tempos bons eram aqueles em que tudo era silêncio, foi aí que, do nada e sem que me consultassem: – Haja a Luz!

Neste momento em diante começou a minha encrenca!

Luz que cega e ensurdece onde nem é permitido sussurrar. Era uma vez um caminhar mudo. Alguns saudosistas ainda celebram os tempos idos, chamando-os bons, inigualáveis e põem-se a blasfemar-me no agora.

Ei! Espera lá! Quem disse que silêncio é sinal de ignorância e fraqueza?

Bom, oficialmente não é! Não mesmo! 

Se bem que tem uns cabras da peste que utilizam o silêncio como escudo, uma forma danada de não expor sua insignificância. E sabe de uma coisa? Fazem muito bem! Sabem usar o silêncio de forma correta.

Estou, sem que você saiba, no seu encalço, aguardando o inusitado momento para romper. Eclodo, não surjo apenas. Sua mudez não me estagna a trajetória. Onde houver sossego, eu me despejarei em bramido.

Silêncio de refletir, meditar e buscar as respostas.

Se quer meditar em busca de inexistentes respostas, venho ao seu alcance feito fogo sorvido a arder as entranhas: sou berro.

Silêncio para quem tem a resposta certa, mas prefere viver em paz.

Se quer paz em seu remanso, vou perturbar seu momento, em anarquia com seus pensamentos, pois não permito ordem, somente embaraço: feito rugido.

Os que precisam para absorver a beleza de onde estão.

Dos que se encontram apaixonados demais e apenas admiraram a pessoa amada.

Se apenas desejar contemplar a beleza que só sua alma é capaz de perceber, em tom de calmaria, então eu me visto de exclamações e ofusco seu olhar com o brado mais robusto que sair do meu peito.

 Silêncio de respeito ao mais forte.

Não lhe aprovo calar-se em respeito, meu protesto é de contestação.

Do mais forte ao Mestre conhecedor de tudo.

Se se auto-impuser discrição com quem o educa, lanço um uivo imediato, pois sou eu quem lhe doutrina.

 Silêncio dos que se despedem da vida e os que apenas respeitam aos que partem.

Não se atenha ao sigilo da despedida, deixe que partam todos em vasto alarido.

 Silêncio do descanso merecido

Da tocaia certeira

Do que se esconde em perigo

Da alma penada.

Troque a quietação do descanso pela exaustão de um grito rouco e desmedido. Um grito de quem não sabe esperar e sai de trás da moita ao encontro do perigo.

Silêncio dos cartazes de hospitais.

E onde as almas enfermas se alojam, posso ser a catarse em forma de brado.

Do cinema lotado

Para o ator em cena.

A gargalhada infame diante do artista no palco.munch-scream-247514_960_720

Silêncio aos que contemplam o infinito

Do esporte solitário e do treino desgastante

Silêncio para os que nada sabem

E aos que sabem demais.

O som latejando na mente de quem sabe demais e sofre com um segredo pedindo passagem para seguir em revoada.

Silêncio, cúmplice do erro a dois e dos que não testemunham

Silêncio do inocente e do perverso carrasco.

 Posso ralhar-me diante do seu crime e vociferar aos quatro cantos de quem é o pecado.

 Da mulher abusada e amedrontada com o canalha que ronda.

Em um instante, queixo-me do seu abuso, pois esse silêncio não me ingressa.

Dos que se concentram.

Na sua concentração, instalo o caos, os cacos, a dispersão.

 O silêncio do escritor rodeado de palavras.

Só sei ser a palavra que insiste em sair da boca do escritor de mãos endurecidas.

 Do Mestre Chaplin que nada diz, mas que muito se expressa.

 O quadro de Munch que explode em desespero. carlitos-1104655_960_720

Dos que apavoram antes do grito de horror.

O desassossego do perdido.

 Dos milésimos de segundos entre o soco e a queda do inimigo.

Sou a dor da queda na batalha perdida.

 Da paz que se sente aliviado

E se seu coração, ainda assim, preferir o silêncio, então levarei meu grito para longe.

Silêncio!

Onde não me possam ouvir. Pois só sei ser grito.

 Diga lá, o que mais poderia ser melhor para o momento?

 

Até a próxima semana!

6 comentários sobre “Duetos: Silêncio e grito em duelo

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