Algo do seu abraço

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Dê-me um pedaço do seu abraço, só um pedaço, meio braço, meio afago, que é para eu voltar a ser inteira, pois ando partida, meio aos meados.

Dê-me um bocado do calor do seu abraço, fervoroso ou morno, não me importa, que é para eu deixar de sentir esse frio, estou prestes a congelar.

Dê-me um segundo do seu abraço, em ponteiro trêmulo ou digital sem digitais, que é para eu voltar a perceber-me no agora, pois minhas horas estão em fuga, não são minhas, nunca irão me pertencer.

Dê-me um gole do seu abraço, seco ou doce, lúgubre ou preciso, não faço exigência, que é para remediar as feridas na garganta seca e em brasa.

Dê-me um nome em seu abraço, próprio ou bestial, que é para eu deixar de ser algo sem rumo e ser convocada pelos lábios de alguém.

Dê-me uma direção em seu abraço, com seta e pista, que é para eu ter alguma informação de para onde deverei ir, mesmo que o regresso seja em breve.

Dê-me um toque mesmo que golpe, um suspiro mesmo que gemido, uma sentença mesmo derradeira, que é para eu deixar de ter medo, eu que me vi assim derramada e sem superfície.

Dê-me um abraço lá fora, antes que as trevas dominem.

Bem por dentro de mim, antes que as chamas fervilhem.

Mas dê-me um abraço agora, antes que o dia termine.