Duetos: Não me calo

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Criei esse espaço “Duetos” para deixar eclodir a vontade de conhecer o outro, de desafiar-me a novas formas de escrita e para me aproximar daqueles que cultivam as palavras como companhia predileta, sejam escritores, devaneadores ou parceiros na vida que gostem de traduzir em verbos suas sensações.

O resultado está me trazendo um contentamento místico e a certeza de que escrever é o que quero fazer para o resto da vida.

A parceria de hoje é com o querido Cláudio El-Jabel, ou Kambami,  do blog UNOBTAINIUM, uma pessoa absurdamente expressiva, que se define como um “observador nato desde minha aparição”.

A fra94d6b43371c004dc3ccad9484d797457se de sua vida é “Quode natura date, Nemo negare potere (O que a natureza nos dá, não podemos negar)”.

Bom, o Cláudio aceitou esse desafio junto comigo e passamos semanas a descobrir que ponto abordar. Queríamos criar um diálogo da mente consigo mesma, em suas contradições e contestações, como alguém que instiga a si mesmo e reflete sobre suas dicotomias. Eis que surge um texto dele chamado “Ego” que era tudo que precisávamos desenvolver. E o resultado segue abaixo, cuspido (foi escrito muito rápido) e acho que, mesmo distantes, conseguimos nos misturar e fazer parte, os dois, da mesma consciência.

Cláudio, agradeço a você a disponibilidade e a firmeza em entrar nessa comigo. Segue o texto abaixo, convido a todos a uma leitura com a alma, puxem suas cadeiras e sentem-se.

NÃO ME CALO

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Eu sei.
Não, eu não sei, pois o saber me era brisa fresca e hoje me condena e me congela os passos.
E, mesmo assim, teimo, queimo, confesso e refaço, eu sei.

Eu posso.
Não, eu não poderia nem que todas as trevas me desertassem, pois preciso me conter, não posso ser no agora, não posso ser agora.
E, mesmo sendo sabedor dessa fraqueza, me convenço e me afirmo, eu posso.

Eu faço.
Não, eu não faço porque meus braços tremem e se extenuam, não há mais pujança dentro de mim.
E, mesmo assim, revigoro-me do que me sobrou de lembrança, ainda da agilidade de criança e da potência jovial, eu faço.

Eu quero.
Não, esquivo-me de querer qualquer mudança, qualquer reparo, sou assim, preso ao que tenho ao que não posso ter.
Mas, na ânsia desse querer, e para que não me deixe morrer, repito a mim mesmo, eu quero.

Eu sou.
Não, falta-me ser, existo aos poucos e abissalmente.
Em verdade me coloco em dualidade, ora de um lado ora doutro, mergulho no encontro do eu sou.

Eu fui.
Não, não me lembro de quem costumava ser e nem para onde me vangloriei ter ido.
Mas algo sempre me sopra aos ouvidos, visões sempre me visitam em imagens, sentidos de memória me lembram de ser, eu fui.

Eu vou.
Não, tenho os pés grudados ao chão e me sujeitei a ser apenas uma interrupção.
E descubro que mesmo preso minha mente viaja, logo eu vou.

Eu digo.
Não, nada digo, só me calo, pois a palavra fere, ferve e incendeia meus instintos.
E já pelo vício da dor, a boca teima em dizer, eu digo.

Eu nego.
Não, sequer sou capaz de negar, pois o que é real, não o tenho.
Mas quando penso que o real é o oposto e que o que deveria ser pode estar contrário, eu nego.

Eu largo.
Não, não me distraio em largar, pois nunca o toquei, nunca o tive.
E pelo saber de não possuir e saber de nunca ter tido, eu largo.

Eu crio.
Não, minha mente negligencia a originalidade, pois me contento em ser trivial, sem começo.
E, mesmo arriscando muitas vezes pelo final, consigo passar ao meio e chegar ao início, eu crio.

Eu sinto.
Não, nada se apercebe em minha pele, como se eu tivesse perdido a constatação de mim.
E então descubro que, lá dentro de meu ser, uma corrente elétrica se agita e mesmo sem externar o sentir, eu sinto.

Eu lido.
Não, nem ao menos enfrento minha face, minha sombra, meu espelho.
Costumo mesmo usar de várias máscaras, algumas transparentes que não sombreiam e nem se refletem e, ainda assim,  tateio um rosto meu, eu lido.

Eu mexo.
Não, porque sou árvore centenária, que se posta onde foi designada; não, sou escultura inacabada, entalhada sem zelo.
Mas, pelo tempo de existência, minhas sementes espalham-se com tanta rapidez que eu mexo.

Eu viro.
Não, não viro para não desperdiçar os contornos, deixo-os assim sem serem vistos e consumidos.
Mas, na face de meu rosto, eu tenho a outra face, aquela que mantenho coberta, mas que ao ser agredida, eu viro.

Eu nado.
Não, falha-me o alento e não posso nadar, fico ali imerso e absorto sem perspectiva.
É quando me lembro que também sou aquático e me recrio no ambiente, adaptando-me, eu nado.

Eu pulo.
Não, as pernas se dobram em agonia, mal chego a saltar.
Mas lembro-me da necessidade e deixo-me desabar, eu pulo.

Eu desviro.
Não, a confusão se assenhora de mim e não discrimino em que lado estou.
E descubro então o poder que tenho de reconhecer e desviro-me.

Eu corro.
Não, porque não me interessa ter o vento improvisando um beijo desprevenido em meu rosto, portanto, não corro, fico onde estou.
Ali, como uma caixa postal, mantenho o que não pode me seguir e então descubro que tenho vários locais para onde ir e corro.

Eu mando.
Não, não faço decretos, pois jamais aprenderei a ser acatado.
E, pela teimosia do saber ,ainda sustento a teimosia só para entender, eu mando.

Eu desfruto.
Não, não há tempo, não guardo nenhum sorriso em gracejo para viver o momento.
E me apego às lembranças de passado e futuro e me regalo ao desfrute.

Eu socorro.
Não, não me aventuro ajudar, pois temo falhar como já falhei tantas vezes.
E então, sem me envolver fisicamente, penso que o efeito de agir em si já é o socorro.

Eu fecho.
Não, não há o que fechar, pois nada em mim está descerrado.
E então me lembro de que a parte mais vulnerável em mim é delicada e para protegê-la, eu fecho.

Eu abro.
Não, eu me nego, eu me nego, temo que saibam quem não sou.
E percebo que, por não ser nada, nada há para esconder, eu abro.

Eu vejo.
Não, não desejo ver, escondo os olhos e me finjo moderado, quando nada enxerguei.
E descubro que, não apenas os olhos me servem para ver, há outros sentidos que me fazem ver, eu vejo.

Eu ouço.
Não, abortei os sentidos em mim e os sons não me chegam.
E, por mais ensurdecido que esteja, a reverberação sentida por fora adentra em meu ser, e mesmo que me feche e não queira, eu ouço.

Eu desmando.
Não, só haveria ordem a descumprir se tivesse eu clamado qualquer lei, mas não há regulamentos nem em minha vereda.
E penso que, mesmo sem haver, por ter trilhado a todos em diversas vidas ,posso não dar impedimento, mas dou o desmando de se trilhar naquele momento.

Eu toco.
Não, tenho as mãos vazias, mas interditadas.
Então encosto meu rosto e por ele percebo, eu toco.

 Eu choro.
Não, porque a lágrima não cai, não desponta nem nos cantos dos olhos e quando vasculhei por dentro, os soluços se omitiram.
Mas minha alma se entristece e o vazio que lhe abate é o mesmo que se escorre aos olhos, eu choro.

Eu rio.
Não, não posso rir, tenho os lábios enrijecidos pela risada que me foi oferecida em coro, diante de minhas desventuras.
E, mesmo na guerra que travo, descubro a grande piada da vida, eu rio.

Eu sigo.
Não, minha marcha é em círculos, sem escolta, ando em volta com meu sigilo.
Ao descobrir que não ficaria dando voltas nesse mundo redondo, desisti de meus soldados, retirei da ponta de minha lança a bandeira e segui ao mundo sem fronteiras.

Eu volto.
Não, não volto e nem voltarei, pois escolhi ser habitante apartado.
E mesmo solitário, quando rugem meu nome, não me furto do combate e volto.

Eu falo.
Não, não falo, pois é minha maneira de não encher seus ouvidos de fantasias.
E descubro que meu nome iniciático foi exatamente retirado da ratio de Tomás de Aquino “Locutio est proprium opus rationis” “falar -diz Tomás- é operação própria da inteligência”, eu falo.

Eu grito.
Não, não há voz dentro de mim, o grito foi tolhido quando pensei ser redemoinho.
E, muitas vezes nos gestos e no olhar, eu grito mesmo sem pensar.

 Eu calo.
Sim, eu calo.
Deixo a poesia falar por mim.
Visto-me, fantasio  em expressões figurativas e nesse calar de boca pra fora, deixo a poesia que de dentro de mim vem e aflora. Eu calo!

 

Até o próximo encontro!

7 comentários sobre “Duetos: Não me calo

  1. Pingback: Duetos: Não me calo | UNOBTAINIUM

  2. Nossa que texto incrível parabéns, eu calo hehe..Acabo de encontrar seu blog no blog do Kambami e já deixei p ele o convite agora vou deixar aqui, gostaria de ter seu blog cadastrado na plataforma na qual trabalho, acho que blogs assim tem que ser compartilhados..Seria um prazer ter ele la com a gente e para nossos usuários e seguidores..Qualquer duvida só avisar
    http://www.feedhi.com

    Curtido por 1 pessoa

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