Duetos: Jogue seu corpo ao mar

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Criei esse espaço “Duetos” para deixar eclodir a vontade de conhecer o outro, de desafiar-me a novas formas de escrita e para me aproximar daqueles que cultivam as palavras como companhia predileta, sejam escritores, devaneadores ou parceiros na vida que gostem de traduzir em verbos suas sensações.

O resultado está me trazendo um contentamento místico e a certeza de que escrever é o que quero fazer para o resto da vida.

E esse encontro de hoje só posso definir de uma forma: foi lindo. Quem me deu a honra de fazer parte desse espaço foi a Juliana Lima, do blog Fabulônica.  Conheci a Ju há quase um ano aqui na blogosfera e ela é  acolhedora, motivadora, desafiadora, meiga e adotou um verbo para si: compartilhar. Ou seja, o tipo de pessoa necessária.

Ela tem uma palavra, mas também uma frase, que a acompanha desde sempre:

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“Tenho em mim todos os sonhos do mundo”
(Fernando Pessoa)

Quanto ao nosso dueto, essa história foi escrita para ela, para que por meio das palavras fizéssemos parte do mesmo cenário, mesmo que isso durasse alguns instantes. De maneira que posso dizer que esse conto que prega o amor irrealizado não foi escrito simplesmente, e sim pressentido.

Feitas as apresentações, que seja uma boa leitura.

JOGUE SEU CORPO AO MAR

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Costumava a noite surgir, naquela época, cheia de euforia e arquejo, tão grande era o conforto que havia quando a porta da casa amarela na colina se abria: então as negruras se encaravam, em vigília, e reconheciam-se donas de si.

E era impossível que as trevas não se deleitassem diante da figura orvalhada e festiva daqueles olhos graves, cabelos longos quase gris e a voz cravejada a engrandecer em doces versos sua própria solidão.

Oh mãe!
Que com tanto zelo me criou
Deu terra, sabedoria e guiou
Meus passos para além da existência humana.

 Chamam-te natureza
Passou-me o bastão da beleza
Hoje sou sol, mar e vastidão.
Poderia eu, ser tão cheio de amor,
Estar fadada ao vazio e a solidão?

Era bela, encantadora. Trabalhava a terra, papeava com as plantas e esculpia-se no lago, corpo nu e olhar ao céu. Essa era a sua magia.

Dos dias idos, pouco se sabia. Mas nos lares ao seu redor, como Bruxa era conhecida.

Bruxa dominava sua arte e experimentava exercitar-se durante a colheita: corpo, mente e espírito. Honrava Deuses que habitavam sua alma, celebrava a vida diariamente e buscava dentro de si somente palavras verdadeiras.

Mas…

Diziam que usava vestidos tecidos com vestígios da abóboda celeste. Sussurravam, por detrás das árvores, que ela era inquieta e cultuava diferentes deuses por ser assim tão frívola. Suspeitavam até que ela dançasse desnuda ao redor de uma fogueira, clamando para junto de si todos os pecados do universo. E ousavam até dizer terem visto seu aspecto em pedaços.

E quem se aproximaria de um ser fragmentado?

Talvez aquele que tivesse olhos para enxergar além e ouvidos capazes de escutar a voz do coração.
Havia uma canção.
Aquela cuja melodia despertava além dos sentidos primários, criando laços.

Inteira ou aos pedaços, a Bruxa somente almejava uma ação: ela queria se apaixonar!

 Como o sol e sua energia
Como a voz que era só sua
Tão certo como o raiar do dia
Tão natural como a luz da lua
Eis que corpo e mente necessitavam de algo que o coração já sabia
Amar…
Amor…
Como respirar poesia.

Mas não sabia como tocar outro chão que não seu solo fértil; outra casa não visitava e tamanho medo a dominava ao considerar as mais diversas armadilhas que a findassem, tal como folhas de outono são carregadas pelo vento.

Então ficava só. Não tão só que as suas ervas, pássaros e abrigos permitissem. Mas portava exílio dentro de seu peito e não sabia como amputá-lo.

Até que um dia …

Bruxa resolveu nadar no lago. Era verão e não podia mais ocupar-se com o suor gotejando pelos poros. Nadou assim com seus braços vigorosos de modo a não conseguir parar.

 “Jogue seu corpo ao mar…”

Com voz a falhar, começou a canção.

“Jogue seu corpo ao mar
E deixe que a água leve tudo o que pesar
Anseios…segredos…Bloqueios e medos
 
E que cada onda que voltar
Possa transformar…
Dores em proezas … Dissabores em certezas
Fazendo do espírito morada da água
E fazendo da água para a alma o lar…
 
Jogue seu corpo ao mar… “
 

Quando novamente entendeu-se humana (se é que tanta doçura poderia ostentar componentes mundanos), saiu da água e não reconheceu onde chegara. Não havia mais floresta e nem cabanas e um aglomerado de pequeninos seres reluzia com brilho de estrelas em volta de alguém que resolveu enfrentar o olhar de Bruxa.

Não houve hesitação. Aquele instante de ocaso corou uma certeza imortal: Bruxa encontrara o que lhe pertencia. Era seu aquele príncipe das luzes, com asas de gigante que o impediam de caminhar.

Sob a proteção de sua asa
A luz se expandiu clara e impassível
Provando que o amor ultrapassa
As barreiras do impossível.
 

E ficaram ali doando um ao outro seu mais afetuoso olhar, enquanto os seres de luz os envolviam no rito de entrega. Quando, enfim, aproximaram-se os corpos, Bruxa conseguiu dizer:

– Oh, melhor Homem, diga-me seu nome que, em troca, dedicarei a você todos os próximos dias de minha vida.

Mas ele nada disse ao ter sua chance. Nem naquele momento e nem nos minutos que se seguiram. E inevitavelmente o silêncio trouxe com ele escuridão, pois cada ponto luminoso foi se apagando e tudo que sobrou foi aquele olhar contido do príncipe que desejara para si.

Ouviu um bater de asas e soube que eles jamais caminhariam juntos, pois era de sua natureza pertencer ao Céu. Era isso que a canção lhe contava:

Certa vez, disse a lenda
Que mundos paralelos não podem se conectar
Mas há algo que vale a pena ressaltar
A única chave capaz de abrir a fenda
Dos mundos
Humanos e imortais
É o amor, que transcende
Muros e portais
 

Bruxa despencou o corpo ali mesmo onde estava e adormeceu, desgastada sob as trevas, ansiando por um porvir mais claro. Quando acordou, retornou à Colina, em seu nado retraído.

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Naquela noite, a fogueira que acendeu foi a mais abrasadora de todas e diante dela, Bruxa enunciou:

“Sob a luz da Lua Cheia, clame meu nome que responderei.
Conheço os segredos de sua alma cujo amor, chave mestra, abriu para um simples mortal.
Enquanto estas chamas distintas puderem arder, por ti esperarei
Torcendo para que o destino mude nosso final. ”
 

Pouco depois, percebeu-se um leve bater de asas e Bruxa entendeu, desse modo, que seu chamado havia sido escutado.

Pois ele, o Príncipe das Luzes, já existia em tudo que era vivo.

Merry meet, merry part and merry meet again.

 

11 comentários sobre “Duetos: Jogue seu corpo ao mar

  1. Fran e Ju dizer que foi lindo é pouco, mas posso afirmar em meus estudos que querendo ou não, por impulso interno, algo do subconsciente descreveram em quase sua totalidade um segredo que é guardado a sete chaves pelos Ògbóni.
    Trata-se em minha leitura do Culto de mais de 6 mil anos a Ìyàmí Òssòròngá ou todos os outros nomes pelos quais elas são conhecidas, ISTHAR, NEITH, ÍSIS, ASTARTE, REA, GEA, DEMETER, LAMIA, ANNIS, INANNA, TELLUS, CERES, MAIA, HANNYA, LA-LORONA, RAKSHASI, ÒSÒRÓNGÀ – ANANANGEL – CIVATATEO, SWAWMX – IYEMONJA – IYEMONJA-ODUA – TALAMAUR – UPYR – ÒDU – EGAEPONA – DIANNA – NÃNÃ – IYAORI –NANBUKU – CIBELLE – IYANILÈ – ONILÉ – IYALAIYE – AZERI – IYABUKU – NANKUABA – IYANLÀ – IYELALA – IYAMASE – IYAMI-AJÉ – ELEYE – ALAYÉ – IYAALÉ – IYEMOWO – MAWÙ – ÒDUWA e milhares de outros nomes descritos pela história da humanidade. E seu “Príncipe” como foi descrito nas entrelinhas seria, segundo os ìtón (lendas de Ifá) descritas em 4096 afirmações básicas já que se desdobram cada uma em mais 16 o tão aclamado Ògún que nesse caso recebe o nome de Alájògún (aquele que acalma todas as guerras).
    Olha é apenas uma releitura que percebi ao ler seu trabalho já que grande parte do descrito se encaixa quase que perfeitamente nas lendas ancestrais.

    “Decifra-me ou te devoro”, vai que estou diante da grande mãe ancestral?
    E em homenagem a sua busca e coragem lhe dou minha reverência assim como nos versos descritos no tesouro de Ifá quando nos descreve: ” A kì í dá ọwọ́ lé ohun tí a ò lè gbé”. Tradução literal – Nós não entregamos o que não podemos viver. Tradução ocidental por Kambami – Não podemos descrever e passar adiante as experiências que nunca vivemos.

    Em seus trabalhos Fran de parceria tenho visto uma profundidade de entendimento que ao mesmo tempo que me alegra, diria que assusta no bom sentido, já que é tão difícil entendermos a nós mesmo, quem dirá de parcerias.

    Parabenizar seria pouco, agradecer por nos propiciar tal leitura é um presente bem aceito pelo coração, independente de nossas interpretações, assim como a que tive de me remeter a ensinamentos ancestrais, outros podem observar outros pontos pela riqueza de detalhes nas entre linhas.
    Um beijo carinhoso a vocês Fran e Juliana e minhas desculpas se desviei por qualquer motivo a intenção. ❤ 🙂

    PS: Não me ensinaram ainda a fazer flores, logo só mesmo o coração, mas que reflete meu carinho.

    Curtido por 2 pessoas

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