Quatro anos de uma alma antiga

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“Mãe é aquela que sofre pelos filhos e marido,
é aquela que morre com a alma em sorriso.
Mãe é tudo na vida porque ela é quem nos dá
todo o afeto de amiga e os ensinamentos para a vida.
Mãe é amor, é fogo e paixão,
ela é o calor de todo coração.
Mãe nos ensina a amar o próximo,
ela nos dedica todo o seu amor e tempo, óbvio…”

Essa parte do ‘óbvio’ foi somente uma tentativa desajeitada de alguém rimar às pressas o poema de dia das mães, mas o texto é antigo, fora usado numa apresentação em 1989, terceira série, ela bem se lembrava de enunciá-lo aos berros, com  a mãe na platéia, como se só a sua voz restrugisse no pátio, em dia de homenagem. Os versos triviais não foram desaprendidos por quase trinta anos e ali na garganta se alojaram, quando tornou-se mãe, prontos para denunciarem como também ela queria ser condecorada, daquele mesmo jeito, com tanta exclamação.

Não via a hora que ele proferisse suas primeiras palavras, mesmo que não fosse ‘mamãe’ ou algo semelhante, bem sabia que não seria, pessimista que se fazia. Não foi mesmo, estava certa, demorou pouco mais de dois anos para reconhecê-la pelo nome, aos olhos de terceiros. Mas ela, apesar de tanto desejar ouvir a palavrinha, não poderia conjecturar que o termo ‘mãe’ seria pequeno demais para a profusão de sentimentos que viria a seguir.

Então, depois de tantas descobertas, ‘porquês’, inventividades e colóquios pendentes, ele chegara aos seus quatro anos de idade e não soube mais parar de conversar. E não pôde mais. Tampouco ela deixou de se emocionar um dia sequer.

Uma pergunta na ponta da língua sempre acompanhava seus dias:

– Deixa eu te fazer uma pergunta. Porque a gente tem que ir para escola todo dia?

– Você quer casar comigo?

– Todas as direções que eu quero pular você não deixa. Como é que eu vou me divertir assim?

– Do que você tem medo?

Às vezes, calado por minutos, revelava, na sequência seus pensamentos e considerações do futuro. Nem sempre era o que sua mãe ansiava por ouvir. Outras, parecia que adivinhava os pensamentos dela.

– Tô pensando em quando eu for velhinho e for papai, e tiver os meus filhos e a mamãe deles.

– A gente precisa fazer uma lista das coisas que têm para fazer.

– Mamãe, eu tive um pensamento aqui dentro da minha cabeça. Eu pensei que queria te dar um presente.

E sempre era educado e garboso, com qualquer um que lhe aparecesse.

– Sai, por favor, borboleta – ao tentar pegar uma flor.

– Quer saber de uma coisa, mamãe? O mundo inteiro adora você.

– Sei tudo sobre a mamãe. Porque amo você.

– Tchau, escola, até amanha. Eu amo você.

E também esquivava-se das culpas, antes mesmo que alguém pudesse condená-lo:

– Mamãe, eu fiz um desenho nojento. Olha só: é um copo de plástico jogado no meio da natureza. Mas não fui eu que joguei.

– É que a minha cabeça tá maluca.

– Eu perdi um pouquinho de um cérebro.

E quando interrogado quantos cérebros ele possuía:

– Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez. Aí eu perdi um e fiquei com nove.

Ao longo desse ano de sua vida, gostava de descrever os seres, com toda a elegância e pormenores que somente um grande analista pudesse elaborar, para que ela, a mãe, pudesse se gabar posteriormente aos amigos:

– A mamãe tem o cabelo preto meio aloirado e é grande e média.

– Tem um bicho lá na sala. Ele é médio, mas um pouquinho grande.

E também era capaz de ser bastante incisivo:

– Isso não é uma competição!

– Deixa eu te explicar uma coisa.

– Olha que céu feio, filho.

– Não fala assim que o céu vai ficar triste!

Ou ainda:

– Fica calma, segura a peruca!

– Você não pode fazer igual a tia da escola, cada um tem seu jeito.

– O desenho que eu quero fazer é com a tesoura!

E quando resolvia esmiudar seus assuntos…intermináveis minutos se passavam.

– A bruxa é uma pessoa muito má, que encolhe as pessoas e mora num castelo bem feio.

– Mamãe, minha barriga está muito cheia. Acho que ela tem um engarrafamento.

– Vai ficar bonzinho hoje, filho?

– Ixe, mamãe, nem sei. Vou ter que ver.

Ou ainda:

– Eu viajo, mas eu viajo dentro de casa. Eu pouso em um lugar que eu durmo.

– Mamãe, quando você morrer, eu vou ser vizinho do meu irmão. E aí quando a gente morrer, a gente vai virar estrela e ficar perto de você e do papai.

Também sabia ser poeta e assim delirava em seu lado clariceano.

– O que você está fazendo?

– Estou fazendo um pedido para a estrela.

– E que pedido você fez?

– Eu pedi para ela pra você ser Lua.

Ou ainda:

– Tem dodói que não sara.

– Mamãe, você é o sol dessa casa. Faz tudo para aquecer a gente.

– Quando a Lua aparecer, vai nascer uma flor e a Lua vai virar uma bailarina sem boca e vai dançar em cima da flor.

E quando um simples diálogo despretensioso, em meio a uma fruta aqui, uma brincadeira ali, fazia a perna até tremer de tanto amor transbordando, a mãe questionava quem é que trazia os ensinamentos para a vida de quem mesmo…óbvio!

– Mamãe, você é a melhor mãe do mundo.

– Não sou a melhor, filho, mas sou o melhor que consigo ser.

– Você consegue ser o melhor para mim.

E honraria melhor não caberia em poema algum.

 

5 comentários sobre “Quatro anos de uma alma antiga

  1. Se fosse eu tentar plagiar um amigo fera em acrósticos faria assim:

    M…uito que devemos por existir
    A…cima de tudo ama
    E…spirito prudente, que transfere todo amor pra gente. ❤

    Como vê não sou lá bom com essa técnica, mas para falar da maternidade ou da Mãe tudo é válido. ❤

    Curtido por 1 pessoa

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