Alguém que eu amo irá partir

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Alguém que eu amo irá partir. Morrer. Desencarnar. Arrefecer. Abotoar o paletó. Expirar. A palavra diverge de boca a boca, mas o significado não destoa, a relevância é a mesma: alguém que eu amo chegará ao fim.

Quantos deles, não saberei, pois também haverá a ocasião de eu me findar dessa esfera e tanto menos saberia a sequência dessa fila, velha ordem mundial. Mas, como improvisos sempre são comuns na história de cada um, finjo que vou além, que carregarei esses infortúnios e tantas lágrimas despejarei.

Então esse alguém se irá e o que fazer do amor remanescente? Esse tipo de amor que não encurta na ausência, não se abrevia pela falta do abraço, pela omissão do olhar; esse tipo de amor que dispensa comentários ou curtidas em redes sociais e que tampouco se nutre de mensagens de celular. Esse tipo de amor que sobrevive porque está impregnado no peito e não vai sair, já que seu lugar é mesmo lá. O que fazer desse amor que não pode ser deportado?

A perda de quem foi tem prazo para acabar, só o amor é imortal. Guardo comigo, em grito escancarado ou num silêncio que concilia os dias, todo o amor com seus laivos de pesar.

Pois se alguém que eu amo demasiadamente – que fez do amor morada em minha alma – não puder mais estar ao alcance de minha existência, como fico eu, eu que aqui fiquei, sem direito de escolha?

Feijãozinho

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(Encontrei esse palavreado em meio a revistas de medicina, escrito para o meu primeiro pequenino há uns três anos e achei justo compartilhar nesse espaço, de que ele inspiradoramente faz parte)

Era uma vez um feijãozinho com quem eu nunca sonhei, mas a quem enchi de apelidinhos antes mesmo de conhecer. Não sonhei e nem esbocei características para seu rosto ou sua personalidade. Jamais pude imaginar que esse Feijão teria o sorriso mais iluminado do universo, o olhar mais sedutor e que poderia existir alguém como ele.

Nunca mais houve “meio sim” ou “meio não”, pois ele tornou tudo absoluto. Nunca mais houve quedas, pois estou sempre a flutuar. Nunca mais houve silêncio, pois o amor segue a gritar. Nunca mais houve simples pensamentos e sim grandes sonhos. Nunca mais houve solidão, nem gota qualquer.

Chão da nossa casa

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 “Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria? ”
(Caetano Veloso)

Livre não sou. O raciocínio reaviva a ideia de que sou livre sim, pois vou e volto sem amarras; eu me nutro de vida e pão, pão que eu mesma produzo. Mas, fisiologicamente, não posso ser livre, pois de alguém dependo, de algo dependo, só ainda não lhes dei nomes.

Se sou livre, gosto de me fechar no meu universo, entre quatro paredes, com as portas bem fechadas, para que o outro não entre e venha me ferir. Continuar lendo

Tempestade cerebral

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“Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela.”

(Clarice Lispector, em Tanta Mansidão)

Não venha regar minhas begônias, pois eu as quero íntegras, mesmo ressequidas. De dia sou Luiza e à noite, Carla, orgiástica, mas tanto faz, já que tenho medo de ser óbvia.

Tenho medo de cantar mal e não me fazer ouvir. Não me refiro à melodia, mas quando canto gosto de saber que meu corpo vibra e é vista uma luz emanada de dentro de mim, mesmo que a voz não ecoe.

Tenho medo de tropeçar e tombar. Insanamente acabo soltando um gritinho abafado, para que quem não assistiu à queda, possa notar-me estatelada ao chão.

E nada disso quer dizer eu mesma.

Sou aprendiz, mas se não souber o meu valor, nem você, principalmente eu, não adianta desgrudar os pés do solo, melhor criar raízes.

Talvez digam que não sou eu mesma, ou que não convém ser eu mesma. Porque política, futebol e religião não se discutem. Então me abstenho. Ora, mas como não falar se ainda estou me procurando por aí.

“Se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar quando eu me encontrar.”

E corro o risco de nunca mais ser vista.