Bóris

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– Não vou mentir para você, Bóris. Hoje não volto mais, mas amanhã voltarei.

E voltava todos os dias. Não que precisasse me desviar do caminho, pois ele estava lá sempre, ao final da rua, na penúltima casa antes de atravessar as margens cinzentas que davam para o colégio.

Se tinha origem inglesa, se caçava lebres, se preferia estar em uma matilha do que ali, do outro lado do portão, pululando por atenção, se era misteriosamente um arauto do amor, não tomei conhecimento. O que era escarrado, além da saliva abundante, era seu choro estridente, quase a implorar por carinho. Não que sofresse. Só era ridiculamente escandaloso e sôfrego por uma mão em sua cabeça e, para que seu intento se fizesse real, ousava dar até piruetas no ar.

Eu me rendi ao seu encanto, à agudeza de seu olhar, ao latido devasso. Bóris inquieto de lábio quadrado, pelo curto malhado e uma cauda que se abanava e batia doído na gente, era um beagle típico. Suas orelhas castanhas caídas convidavam todos os dias para um afago e todos os dias eu prometia:

– Volto já.

E de casa para a escola e da escola para casa, eu voltava mesmo. Era parada obrigatória. Reconhecia, da janela do meu quarto, seu ganido. E contava os instantes para nosso encontro diário.

Mas de tanto prometer que voltaria, de tanto achar que Bóris me pertencia, de tanto olhar nos seus olhos e sentir que me fazia entendida, esqueci de perguntar a ele o que queria.

E ele também não me mentiu. Não me fez promessa. Eu que não soube ler que todo esse tempo Bóris implorava por liberdade.

Então num dia desses chamados dias seguintes, ele não estava mais lá. Em busca de sua liberdade partiu, deixando-me sem pista e lidando, por mais um tempo, com muitas de minhas prisões.

3 comentários sobre “Bóris

  1. “Mas de tanto prometer que voltaria, de tanto achar que Bóris me pertencia, de tanto olhar nos seus olhos e sentir que me fazia entendida, esqueci de perguntar a ele o que queria.
    E ele também não me mentiu. Não me fez promessa. Eu que não soube ler que todo esse tempo Bóris implorava por liberdade” – amei essa parte! ❤ ❤

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