Chão da nossa casa

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 “Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria? ”
(Caetano Veloso)

Livre não sou. O raciocínio reaviva a ideia de que sou livre sim, pois vou e volto sem amarras; eu me nutro de vida e pão, pão que eu mesma produzo. Mas, fisiologicamente, não posso ser livre, pois de alguém dependo, de algo dependo, só ainda não lhes dei nomes.

Se sou livre, gosto de me fechar no meu universo, entre quatro paredes, com as portas bem fechadas, para que o outro não entre e venha me ferir.

Mas hoje determinei que a janela seria aberta com circunspeção para divisar a paisagem lá fora. Minha miopia tantas vezes me confunde, atenuando certas imagens, ora desfocando, ora tirando um pouco de seu significado real. Será, então, essa cena distorcida diante de mim somente um reflexo de minha deficiência?

À esquerda, desastre natural: tantos morrem afogados ou com o grito atolado pela terra que os amortece, vinda de cima, feito despenhadeiro. À direita: desastre somático: há quem feneça de sede, da aridez dos dias.

À frente, a fumaça e o clarão na mata se avultam. Vejo luar, chão, fúria e pão se incendiarem junto. E meu peito arde um pouco porque só eu vi, ninguém viu, ouviu, sentiu os vestígios de destruição. Mas eu vi. E nada fiz, só calei.

E eu, no meio disso, será que sou adaptável à sobrevivência de minha espécie, eu que não enxergo quem está ao meu lado, que não vislumbrava nada além da minha casa? Sou também um revés natural, quase pronto a emergir.

Logo eu que pago os preços que as maquininhas me exibem; eu que nunca plantei nada; eu que me alimento com o que encontrar no prato; eu que vivo de palavras ao vento, palavras que são bonitas no papel, mas nada acrescentam de impacto para sociedade alguma, o que faço eu?

Eu, no centro disso vejo as árvores desabarem, a água ser dissipada e o chão conspurcado e não sinto sede, nem calor e nem me falta o ar; eu, que diante disso, fecho minhas portas e me firmo no chão de minha casa, não consigo ver que estou também sendo devastada?

Não se trata de miopia, era somente minha estupidez. Diante do verde tornando-se cinza e perdendo seu esplendor, vejo a vida inteira se esvair, enquanto eu me escondi da humanidade. Não, ninguém pode me ferir, e quem está ao meu lado, sem me defrontar, deve também carregar o medo de ser pisado, tornando-se ruína.

Pois decidi que sei muito pouco de quase nada, mas não quero ser também pó, com o passar dos dias. Da ruína, pode nascer o novo e é possível gotejar verde nas cinzas que restam. É hora de arrumar esse chão de fora e preciso de companhia.

2 comentários sobre “Chão da nossa casa

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