Teresa não sabia

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Tinha as palmas das mãos lacrimejando de suor, mas não ousaria renunciar ao momento. Teresa sabia sim. Os olhos pálidos ao espelho denunciavam a destruição velada em seu corpo.

O médico retornou já sem a resposta na ponta da língua, pois alternativa não havia e Teresa também já sabia. Mirou sua expressão ruiva com a visão meio turva e anteviu: não havia o que receitar, nem recitar. Era apenas mais uma poesia de vida que se extinguia.

Pouco tempo quanto? Idealizo a formatura das crianças, a viagem de final de ano ou o breve café com as amigas, quis saber Teresa. Opção mais judiciosa seria a última, logo entendeu Teresa.

Desceu, então, as escadas com os pés quase tortos de pavor, não do final em si, mas sim da imprevisão, da inevitabilidade de um dia ensolarado transformar-se em inconsciência, em juventude aniquilada.

Espalhou esclarecimento, o tanto que pôde. Mas Teresa não mediu as palavras, não ajeitou antes o terreno para impor a má notícia. Estava ela tão doída que logo mais não teria clareza da dor alheia. E tristeza, teria? Teresa não sabia.

Beatriz, a melhor amiga, segurou as mãos já enxutas de Teresa:

– Vou ficar com você o quanto puder, todos os dias.

Com os olhos ardidos de lágrimas, não conseguiam prognosticar um dia sem conversa, sem filosofias.

– No final da semana, vamos nos reunir todos os amigos – insistiu Beatriz.

– No final de semana não estarei mais aqui.

Foi com convencimento que Teresa falou, logo Beatriz se afastou para não se aguar em covardia, pois Teresa não sabia, mas essa inexistência repentina não parecia tangível e decerto não caberia na semana seguinte.

Teresa fechou-se em seu quarto a fim de escrever cartas de despedida, enquanto ainda podia escrevê-las. Gastou tinta, letra bonita e lembranças, essas só ela as tinha e precisava compartilhar. No caso de contarem histórias a respeito dela, que fossem as mais genuínas.

Todos os dias dava adeus ao sol nos minutos finais antes de partir, acendia todas as luzes da casa e deitava-se com os olhos bem abertos até render-se ao sono. O que Teresa não sabia é que também o ocaso pode ser bem generoso, transformando-se em espetáculo em si mesmo.

E foi assim, como um anoitecer previsto. Não viu formatura, nem as árvores de Natal armadas. Mas tomou alguns cafés com quem, de fato, importava. Ao final, cada ser amado ocupava uma fração de seu regaço.

E ela conseguiu, por fim, fechar os olhos e apagar as luzes.

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