Na trilha

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“Levante-se e vá ver o sol, tomar um banho de mar ou cachoeira, buscar um amanhã melhor. O amanhã se busca hoje, agora!”

Vanessa da Mata

Imagine o seguinte cenário: você está de férias, olhos flamejando de tanto prazer em passear na companhia de um filho pós-desfralde e outro aos 5 anos, em plena pré-adolescência. Imagine ainda que você está em um dia especial de obstipação crônica, cólica menstrual e banhada por um mar vermelho impetuoso e ávido por transbordar pelo biquíni a qualquer hora.

Qual seria o melhor programa para um dia tônico como esse?

Engana-se quem respondeu algo análogo a ficar no hotel, deitar-se na cama ou dar aquela insistida no vaso sanitário. O programa do dia é fazer trilha!

Nem vou citar a discussão sobre o pavor injustificável de altura, de andar por sobre pontes morredouras e muito menos o conceito de que depois de subir, subir e subir, é preciso igualmente descer, descer e descer em algum momento do trajeto, caso o objetivo seja retornar ao local de origem. E escorregadelas e derrapadas são uma constante em minha vida. Mas não entrarei nesse mérito.

O fato é que fomos, família feliz, tênis e boné e muita paciência e tolerância para acompanhar passinhos curtos.

Não havia sanitários pela vereda, como bem supunha. O sol estava abrasivo, mas menos abusivo que as picadas de insetos. As pernas ficaram vacilantes e frouxas em boa parte da peregrinação e, com o passar do tempo, o estômago meio vazio foi requerendo atenção e manifestou-se lentamente com a alteração de humor já prevista.

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No entanto, após secar um pouco do suor, estava ali a imagem palpável; aquele véu de noiva inacabável. Não sei se a repercussão tem relação com mudanças internas que me fazem olhar tudo como se fosse uma estreia, mas eu que sou pouco adepta a trilhas, pude entender melhor o porquê do martírio ser imediatamente desmemoriado. A natureza estava trazendo de graça um espetáculo, semeado no vento, na água, na terra. Invadindo a vista de paixão, vinham as águas no cio, fonte de reminiscências do que ainda se pode vir a ser.

Com a licença do poeta, todo mundo, de repente, ficou lindo, ficou lindo.

E, parada ali, meu sangue e meus contornos se renovaram depois que me perdi e me reencontrei naquele mundo de águas.

Não vou dar continuidade à narração, pois é dispensável esclarecer que meu fluxo permaneceu onde devia ficar, que a obstipação rapidamente se resolveu com a escolha errada do restaurante e que o pequeno curtiu tanto o passeio que trouxe o inconveniente de relaxar os esfíncteres em locais inoportunos e mal percebeu o desconforto.

Porque, com exceção desses míseros detalhes, tudo mesmo ficou lindo. E continua.

 

2 comentários sobre “Na trilha

  1. Ok! Vou te confessar algo… e isto é sério! Não sou muito fã de cachoeira, já que o mar me completa a alma muito mais! Mas, creia, ri da sua aventura, porque já me vi em cenas muito parecidas, para não dizer idênticas ( obviamente que as partes femininas, lembrei de minha esposa) rsrsrs!!! Curti demais este seu relato…. muito verdadeiro! 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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