Colo de mãe

Hoje Mãos Livres completa um ano do lançamento oficial, um dia muito muito especial para mim. Nada melhor do que comemorar com um texto do livro, não?

 

Colo de mãe

Ela já era muito grave, desde o nascimento. Por volta de 2 meses de vida, nunca havia saído da UTI. A mãe, ali do lado, quase não desgrudava dela, quase nunca a deixava sem um afago, e em nenhuma circunstância deixou de enxergá-la como o doce bebê com quem sonhara por tanto tempo, apesar do aspecto inchado, muito inchado, de quem já passou por tantas infecções, cirurgia cardíaca e procedimentos variados.

Já fazia tempo que não via os olhos da filha abertos, tampouco o fechar das mãos nas suas, o choro invocando sua presença. Um dia, ela revelou que não tivera a oportunidade de pegá-la no colo. Jamais. Ficava lá, em vigília ao lado do berço, quando muito, sentava em uma poltrona um tanto desaconchegada, ausentava-se nas situações de procedimentos para um café ou hidratar a boca pálida, permitindo que seus olhos esgotados espiassem também outros cenários, sem alarmes, monitores, números e gasometrias.

No entanto, a pequenina não melhorava. Seu aspecto e o quadro se agravavam ao longo dos dias, em verdade. Nenhuma medida surtia qualquer efeito. E face a face com a mãe, não havia como mentir, disfarçar, enganar. Não havia nem muito o que dizer, pois ela sabia.

Sabia da nossa tensão, das intermináveis discussões, do quanto estudamos procurando uma terapêutica diferente, de todos os especialistas que opinaram, do quanto a vida de cada um de nós também estava afetada por aquela história, já que é impossível passar imune numa UTI. Mas ela, a mãe, vistoriava diariamente sua própria força, reconhecia seus limites e diante desse impasse, executava a tarefa de esperar da maneira que suas pernas e seu amor aguentassem: trêmulos, ziguezagueando, às vezes, mas sem ruir.

Não se permite que um filho vá, ponto final. Mas eles partem. Aquele alvorecer foi implacável. Quatro perdas, ou seriam rendições? Quatro famílias sem alento. E a pequena e sua mãe, esgotada de lágrimas, estavam nessa sequência. Não se descreve dor, não se diz “eu sei” porque não há como entender, e a frase surrada de “ela descansou” é dispensável. Tudo é agudo demais para ser pronunciado, até mesmo o nome, quanto mais o indesejado verbo conjugado. Só dá para abraçar, chorar e ficar junto, fazer o que dá pra fazer: esperar.

Todo esse sofrimento, apesar de continuar intitulado dor, trouxe um momento mágico, sem lágrimas, e com uma devoção sem troca, mas mesmo assim um instante de entrega inacabável: após negar e negar, achar que não podia, não seria capaz, a mãe resolveu sentar naquela conhecida poltrona e pegou sua filha no colo, pela primeira vez. E ali ficou um tempo, transbordando-se de amor, sem pressa, num discurso silencioso, em despedida.

 

 

 

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