Muito

Há casas que ainda não foram habitadas. Há gente que não fala a mesma língua e nem língua alguma. Há línguas que não se soltam do céu da boca, e ficam ali amorfas e taciturnas, escondendo o não-dito.

Há nuvens de chuva que se concentram acima da janela. Há roupas no varal que nunca mais querem secar. Há presentes esperando pelo seu dono e encontros que jamais acontecerão.

Há paredes descascando no quintal e o sol queima o chão, esperando para aquecer os pés, mal o dia começou. Há corpos consumidos pelo cansaço, que teimam em não trazer o olhar para a rua, em casa estão com os pés gelados.

Há uma sede indomável coçando a garganta e, por mais que os dias passem, não passará. Há alicerces desmoronando e a sabedoria pode ficar, mas as dores invadem e não se pode mais seguir em frente. Continuar lendo

Bia

Bia me espiava lá do fundo da sala, nas últimas carteiras, postura algo arqueada e um olhar que arremessava intromissão e alguma demanda, que não soube dizer bem o que era. Mirava em frente, nunca acima de sua cabeça. Não se aproximou em sua totalidade, mas tornou confessas algumas palavras em um dos muitos cadernos de recordações, dos quais mal me recordo ainda hoje. Orgulhava-se da amizade, que nem existia formalmente.

Bia se chegou como tia. Dávamos apelidos/cargos para cada um. Uma era a mãezinha, outra a tia, outra a irmã, outra a psicóloga…uma sociedade monótona, em que os papéis eram especulativos, para justificar as afinidades.

Bia quis ser Continuar lendo

Bailarina ela não é

“Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem.”

(Chico Buarque)

De um sobressalto, levanta-se da cama, sem aviso prévio. Pensa se alguém lhe havia perguntado se é isso mesmo que deseja. Não, um sonho a mais, por favor. Mas não foi bem isso que se deu. Alguns choros, que juntos não somam mais do que seis anos, repercutem em seu quarto, mesmo que, propositadamente, os quartos sejam um pouco distantes do seu.

Tempo de trocar fralda, lembrar o xixi do grande, o seu mesmo fica para depois, limpar os mucos que douram a face do menor, escovar os dentes, tantos dentes, remédio de asma e o relógio, nesse meio tempo, andou avançando alguns minutos acelerado. Bailarina ela não poderia ser às seis da matina.

Olha-se ao espelho, enquanto os dois se estapeiam entre as pernas dela. Deuses da natureza! Que círculo lúgubre e cinzento é esse abaixo de seus olhos turvos? E essas erupções tomando formatos exacerbados? Procurou bem e tinha certeza de que ontem não havia essa imagem sentenciosa ao reflexo. Não procurou direito decerto, pois olheira, remela e pereba só a bailarina que não tem.

Serve o café a quem deve, por direito, tomá-lo e vai vestir algo passível de ser conferido às ruas, basta que a calcinha não marque, o sutiã não salte aos olhos e as meias, se notadas, sejam do mesmo par, ao menos semelhante. Mas faz uma paradinha obrigatória no banheiro antes, em raros segundos de sossego, visto que ela não é bailarina, e de vez em quando, tem piriri.

Apressa um pouco quem tende a devanear por sobre o copo de leite, pois a rotina bate à porta. Para sair, é preciso falar mais alto, até prometer penalidades a quem não obedecer, já que ela se descuidou um bocado do relógio; assim, perde um pouco os bons modos e, convenhamos, quem tem maneiras é a bailarina, o que ela tem são contas para pagar.

O dia vai se despachando sem atalhos e o que comeu ainda nem foi digerido, o esmalte das unhas a ser roído e as feridas do coração nem Continuar lendo

Escrever pode ser fácil?

Escrever é um empreendimento de paciência, equilíbrio e bravura. O que nos sai da caneta ou dos dedos ao teclado (ou à máquina, há quem ainda use) não é tema que surja do nada e sim, palavrinha, frase ou história recôndita, esperando sua hora de fluir e se infiltrar no mundo externo. E somos nós que permitimos que a escrita se realize.

Cada autor entende Continuar lendo