Bailarina ela não é

“Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem.”

(Chico Buarque)

De um sobressalto, levanta-se da cama, sem aviso prévio. Pensa se alguém lhe havia perguntado se é isso mesmo que deseja. Não, um sonho a mais, por favor. Mas não foi bem isso que se deu. Alguns choros, que juntos não somam mais do que seis anos, repercutem em seu quarto, mesmo que, propositadamente, os quartos sejam um pouco distantes do seu.

Tempo de trocar fralda, lembrar o xixi do grande, o seu mesmo fica para depois, limpar os mucos que douram a face do menor, escovar os dentes, tantos dentes, remédio de asma e o relógio, nesse meio tempo, andou avançando alguns minutos acelerado. Bailarina ela não poderia ser às seis da matina.

Olha-se ao espelho, enquanto os dois se estapeiam entre as pernas dela. Deuses da natureza! Que círculo lúgubre e cinzento é esse abaixo de seus olhos turvos? E essas erupções tomando formatos exacerbados? Procurou bem e tinha certeza de que ontem não havia essa imagem sentenciosa ao reflexo. Não procurou direito decerto, pois olheira, remela e pereba só a bailarina que não tem.

Serve o café a quem deve, por direito, tomá-lo e vai vestir algo passível de ser conferido às ruas, basta que a calcinha não marque, o sutiã não salte aos olhos e as meias, se notadas, sejam do mesmo par, ao menos semelhante. Mas faz uma paradinha obrigatória no banheiro antes, em raros segundos de sossego, visto que ela não é bailarina, e de vez em quando, tem piriri.

Apressa um pouco quem tende a devanear por sobre o copo de leite, pois a rotina bate à porta. Para sair, é preciso falar mais alto, até prometer penalidades a quem não obedecer, já que ela se descuidou um bocado do relógio; assim, perde um pouco os bons modos e, convenhamos, quem tem maneiras é a bailarina, o que ela tem são contas para pagar.

O dia vai se despachando sem atalhos e o que comeu ainda nem foi digerido, o esmalte das unhas a ser roído e as feridas do coração nem Continuar lendo