Bia

Bia me espiava lá do fundo da sala, nas últimas carteiras, postura algo arqueada e um olhar que arremessava intromissão e alguma demanda, que não soube dizer bem o que era. Mirava em frente, nunca acima de sua cabeça. Não se aproximou em sua totalidade, mas tornou confessas algumas palavras em um dos muitos cadernos de recordações, dos quais mal me recordo ainda hoje. Orgulhava-se da amizade, que nem existia formalmente.

Bia se chegou como tia. Dávamos apelidos/cargos para cada um. Uma era a mãezinha, outra a tia, outra a irmã, outra a psicóloga…uma sociedade monótona, em que os papéis eram especulativos, para justificar as afinidades.

Bia quis ser mais para mim. Esteve junto para falar sobre amor, sobre doar-se a um amor. Leu nos meus olhos o amor que eu carregava por alguém, sem que eu nunca lhe tivesse admitido. Também foi de sua boca que ouvi “é hora de esquecer”. E não saiu da minha frente, aguardando as lágrimas que não vieram tão logo.

Bia falou comigo sobre saudade. Chorou no meu ombro a distância e essa última, de tão comovida com nosso abraço, resolveu que podia ainda adiar a despedida.

Bia escreveu cartas. Palpitou, advertiu, afligiu-se com minhas histórias de príncipes, de desastres emocionais, de devoção a poesias. Também ela tinha seus dramas.

Porque Bia não sabia ser ela. Era o que parecesse bom aos outros. Mas quando esboçava um pouco de si, chamavam-na vilã. Rude. Tirânica.

Épocas surgiam em que não conduzia seu sorriso na minha trilha. E eu ficava assim, à espera, como quem anda com as próprias pernas, sem defeito, mas se tivesse aquele sorriso rasgado como guia, a rota seria mais resolvida.

Bia partia e, às vezes, demorava-se a reaparecer. Mas quando despontava na minha porta, era com seu jeito de achar que a vida podia ser maravilhosa.

Num dia quase comum, Bia encontrou as portas fechadas e não adiantou bater, nem telefonar, nem queixar. A casa não estava vazia, mas ela viu que eu não a deixaria entrar. Ficou um tempo no quintal, expectando alguma mudança de estação, mas as folhas continuaram presas nas árvores, nenhum vento inaudito passou por ela e, então, decidiu que tinha um pouco de pressa em viver. Estudou, trabalhou, aventurou-se. E, curiosamente, pouco amou. Porque autorização para tal ato ela mesma não se dava.

Bia olhou o tempo todo para fora. Aos poucos, abri frestas para que se insinuasse novamente em minha moradia. Mas já era senhora de si e de vida urgente embalou seus dias.

Bia foi e voltou tantas vezes, mas, mais do que dela, foi meu o ziguezague. Até que disse “Chega! ”. E ela ficou por ali, nem tão longe, nem tão abafada. Era antes a menina que morava perto de casa e, de repente, cidades distintas não nos separariam jamais.

Bia riu tantas vezes de mim. Riu na minha cara, sem piscar. Foi minha âncora para manter a sanidade, mas também a contraditora de minhas lamentações. Bia me encheu de encorajamento, e quando eu começava a me esvaziar, ela tapava os buracos do jeito que lhe cabia, sem esparadrapo, sem o intuito de curar os ferimentos, pois era tão feita de AGORA, que o amanhã não era personagem em sua novela.

Mas o que Bia não via era que nem sempre dava para sorrir e algumas lágrimas também eu esperava que derramasse. E ela se negava.

E um dia Bia ficou sozinha. Demorou alguns dias para o isolamento lhe corroer. E quando deu conta de si, estava defronte ao espelho e resolveu que seria ela mesma a se fazer companhia.

E Bia deixou de se enxergar como Bia e passou a se ver como a sombra de si, ubíqua, segunda pessoa ou terceira, se mais alguém estivesse presente. Bia saiu de dentro de si e passou a analisar cada ato, cada evento e cada pessoa de uma vista externa, privilegiada, porém meio fraude, meio farrapo.

Os anos passaram e Bia só ria. Sorria. Gabava-se de ser assim. Bia não via.

Então vi-o eu. Vi que naquele dia não teria mais jeito. E foi assim, numa manhã luminosa e desanuviada, seus olhos a traíram. Porque o amor surgiu com ansiedade, quase foi expelido pela boca, mas, em vez disso, foi vertido sob a forma de lágrimas. Bia chorou. E voltou para dentro de si, voltou a ser a primeira pessoa em sua vida.

Caminhei junto a Bia, pois o amor que a tantos aprisiona, acabava de libertá-la e também me era essencial essa redenção.

Bia chorou, Bia vomitou, Bia riu com certa histeria. Bia ruminou, analisou e rescindiu suas próprias definições. Bia se reconstruiu e desmoronou em seguida, para poder reerguer seu edifício com mais consistência.

E Bia não previra, mas a menina sentada na carteira bem no fundo da sala tinha um peso nas costas, que a curvava. Hoje reconhece. Bia cria asas toda vez que sonha e, dessa maneira, desvencilha os pés do chão e voa o mais alto que pode, permitindo, ao menos, que eu ainda possa vê-la, planando no céu…

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