Muito

Há casas que ainda não foram habitadas. Há gente que não fala a mesma língua e nem língua alguma. Há línguas que não se soltam do céu da boca, e ficam ali amorfas e taciturnas, escondendo o não-dito.

Há nuvens de chuva que se concentram acima da janela. Há roupas no varal que nunca mais querem secar. Há presentes esperando pelo seu dono e encontros que jamais acontecerão.

Há paredes descascando no quintal e o sol queima o chão, esperando para aquecer os pés, mal o dia começou. Há corpos consumidos pelo cansaço, que teimam em não trazer o olhar para a rua, em casa estão com os pés gelados.

Há uma sede indomável coçando a garganta e, por mais que os dias passem, não passará. Há alicerces desmoronando e a sabedoria pode ficar, mas as dores invadem e não se pode mais seguir em frente.

Há muita verdade inventada e muita mentira farejada, muito corpo irresponsivo, muita morte desconhecida e muita vida embrutecida.

Há muita melodia cantarolada e muita dança desconjuntada, muita gente atacando e pouca defesa, apesar de muitas barreiras. Há muitos prontos para chorar, poucos são os que podem rir.

Há muita crença e pouca filosofia, muito diz-que-não em quem pouco aprendeu sobre o sim, muito susto e pouca surpresa, muito dedo apontado para pouco abraço.

Há muito em demasia: leituras recortadas, amores descompostos, pensamentos descoloridos, sonhos inconquistados.

Há muita porta fechada, rede desocupada, armário embolorado. Há muito ar fora do pulmão, dentro do carro, enchendo balões, queimando florestas. Mas com pouca paixão, não há ar que nos falte.

Há muita dor de cabeça, na perna, nas costas, mas pouco se sabe sobre o câncer na alma, que envinagra o convívio e corrói em silêncio.

Há muito não gosto, não quero, não posso. Pouco pois não, pouco sempre, pouco estou aqui, de fato estando. Há pouca lixeira para tanta palavra jogada fora. Muito tem que, muita ideia de tudo e pouco vamos não entender nada juntos.

Há muita unha para pintar, cabelo a transformar e sinapses a conquistar. Há muito relógio tiquetaquendo, ponteiro correndo que nem coelho maluco e o tempo vai afortunadamente passando sem ser percebido.

Há sangue fora das veias e buracos que não fecham, nem com concreto, nem com band-aid. Há muito que decifrar antes de ser devorado. Há tanto o que fazer e mais ainda a não fazer. Há tanto que não saber antes de se realmente saber. E, entre uma náusea e outra, ainda a vida implora para ser celebrada.

4 comentários sobre “Muito

  1. Olá Fran! Tudo bem?!
    Resolvi fazer uma pequena homenagem aos queridos blogueiros de quem tenho grande alegria em acompanhar. Alguns mais antigos e outros mais recentes, por isso, fiz uma rápida menção sobre você em meu Blog, Patriamarga (https://patriamarga.wordpress.com/2017/06/04/os-melhores-blogs-de-maio/) e espero que goste!
    Parabéns pelos textos, pelas leituras e conversas em meu Blog, por sempre lembrar de mim e transmitir este bem-querer, que é recíproco!:)
    Um grande abraço e muito obrigado!
    M.

    Curtido por 1 pessoa

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