Subterrâneo

Quando o carro adentra o túnel, eu me sinto só.

A pouca luz que me afronta os olhos se torna uma sombra de incertezas e não há passageiro a me fazer companhia.

Não sei que medo será esse que eriça os pelos do braço e me faz ponderar sobre minha finitude.

O percurso é retilíneo, plano, mas estremece em meu corpo a ideia nauseante de que precipitei em queda livre. Fico ali aguardando o momento em que meu corpo irá se dilacerar ao contato com o chão.

Tudo é negro e os sons distantes não ajudam, pois não chegam até mim. Sigo inconquistável e sem controle.

E quando a mente esvazia, os segundos voam, eis que o Sol retorna aos olhos, trazendo de volta o ritual de existir.

Saio do anonimato do subterrâneo e a solidão,  apartada, acena para mim, como quem aguarda o próximo encontro.

Vó Véia

Não seria inusitado que a casa estivesse cheia de tempos em tempos, pois visitas sempre havia e, em grandes comemorações, era inelutável ter que lidar com multidão de parentes, principalmente crianças. Vinha ela, então, do fundo do terreno de mil metros quadrados, onde sua casa de dois dormitórios era acessória, depositava seu corpo afilado pardo e alto logo à entrada, preparando a profética interrogação, assim que qualquer um acabasse de chegar:

– Mas que dia vocês vão embora? De manhã ou à tarde?

Era doce e independente, contudo. Permanecia no seu canto ao longo dos dias, limpando, cosendo e cozinhando e, vez ou outra, aparecia arrastando suas chinelas pela casa da avó, dona do terreno. Também ela era avó, só que bisa, e todos a chamavam Vó Véia.

A menina Clarice olhava recuada a entrada da casinha, não se aventurava a pisotear aquele terreno porque a panela ao fogo, a colcha de retalhos imensa toda colorida e o mistério que aqueles dois pedacinhos de terra emanavam só poderiam significar uma coisa: bruxaria. Ambas as casas, a principal e a anexa, tinham comunicação e Clarice certificava-se todas as noites de que a porta que as ligava estivesse trancada. Continuar lendo

O meu mundo interior interessa a poucos

“Só não tente me dizer o que é melhor para mim
Quem pode saber?”
(Humberto Gessinger)

Dali de fora, é mais fácil não sentir dor. Cada passante caminha fustigado pelas suas próprias tempestades (chuva e eterno vento?), com medo de não chegar, com pavor do toque e absorto em seus lamentos.

O meu mundo interior interessa a poucos, de fato. Esse rico nada interior ou pobre tudo, de acordo com o desvairamento dos dias, é todo meu e, para quem nele não habita, é somente uma miragem.

Então, mesmo turva confesso: esqueci como se grita. Não me alegro, nem me comovo.

Esqueci como é o velho sentir. Sim, socorro, pois não sinto nada.

E nem consigo demolir os próprios enigmas que criei.

Abri o livro, mas ninguém há de me ler sem perigo.

O meu vizinho não conheço. Mas dali de fora o mundo parece perfeito