Vó Véia

Não seria inusitado que a casa estivesse cheia de tempos em tempos, pois visitas sempre havia e, em grandes comemorações, era inelutável ter que lidar com multidão de parentes, principalmente crianças. Vinha ela, então, do fundo do terreno de mil metros quadrados, onde sua casa de dois dormitórios era acessória, depositava seu corpo afilado pardo e alto logo à entrada, preparando a profética interrogação, assim que qualquer um acabasse de chegar:

– Mas que dia vocês vão embora? De manhã ou à tarde?

Era doce e independente, contudo. Permanecia no seu canto ao longo dos dias, limpando, cosendo e cozinhando e, vez ou outra, aparecia arrastando suas chinelas pela casa da avó, dona do terreno. Também ela era avó, só que bisa, e todos a chamavam Vó Véia.

A menina Clarice olhava recuada a entrada da casinha, não se aventurava a pisotear aquele terreno porque a panela ao fogo, a colcha de retalhos imensa toda colorida e o mistério que aqueles dois pedacinhos de terra emanavam só poderiam significar uma coisa: bruxaria. Ambas as casas, a principal e a anexa, tinham comunicação e Clarice certificava-se todas as noites de que a porta que as ligava estivesse trancada.

O que a Bisavó gostava mesmo era das seis da tarde. Hora de novela. Sentava-se à poltrona pregada à televisão de tubo e sua existência debutava. Ralhava com José Wilker, vilão nessa temporada, suspirava por Tarcísio Meira e se voltava aos bisnetos para comentar quem não valia nada. Clarice fingia entender, sorria, nada dizia, até porque de novela nada sabia e a Vó Véia, sem a dentadura, não facilitava muito a cognição de suas palavras.

Aliás, mesmo sem dente e dentadura, a Vó se deliciava com as árvores frutíferas do quintal e não se importava em comer goiaba com bicho. Só não subia no pé porque aí era exigir demais da velhinha.

– Acha que só porque não tenho dente não consigo chupar cana? A Vó consegue sim – surpreendeu a menina, que a observava quase magnetizada, enquanto aquela boca vazia pavoneava-se com o sumo.

Só que o tempo é rigoroso, dizem por aí, e não se esqueceu da Vó Véia. Anos depois desses encontros, Clarice foi encontrá-la acamada, em casa de outra parente, em evolução de demência e não conseguiu sentir saudade, porque ela era ainda a mesma figura, um pouco mais árida talvez, falando sem parar, só que com pouco grau de bom senso.

– Sabe onde fui ontem? Fui ali encontrar os meus namoradinhos.

E Clarice reagiu tal como se a Vó Véia estivesse falando do mocinho da novela: somente sorriu. Mas a piscadinha da Bisa, cheia de descaramento, deixou a menina cismada; ela que não entendia nem de novela e nem de namoro duvidou, obviamente, que a nonagenária tivesse saído da cama, mas bem ao fundo de suas concepções, questionou será que não tinha passeado mesmo? Não era bruxa?

Já a próxima visita foi bem inaudita, em termos de local, emoções e interação. Só a posição era a mesma, Vó Véia estava deitada, da mesma forma. No entanto, não era mais a casa, era a funerária da cidade pequena. Bem que Clarice quis ludibriar a mãe, perder-se de vista e retardou ao máximo que pode a derradeira inspeção. Mas mamãe lhe falou com carinho e a carregou consigo, em proteção.

E estava silenciosa e inerte dessa vez a anosa avó. Mas vazia não estava. Cada orifício fora preenchido por algo branco que Clarice só captou depois que se tratava de algodão, mas cujo significado só quis entender alguns anos mais tarde, em sua formação na área de Saúde.

Como não ocorreu diálogo, não houve muito o que pensar. Clarice saiu de lá quase tão imobilizada quanto a Vó Véia. Mas à porta de entrada, parou, demorou-se um pouco a contemplar o espaço lá fora, sorveu a ânsia que lhe dominava e fez aquilo que achava que jamais faria em público: chorou.

Muitas tias vieram ao seu encontro a acalentá-la.

– Coitadinha, ficou sentida de ver a Bisa.

Clarice bem queria esclarecer que aquela pilha de algodão tinha sido a gota d’água, mas apenas consentiu com a cabeça e esperou que a atenção de todos se voltasse para outros parentes mais distantes que acabavam de chegar.

Ainda hoje, Clarice tem certeza de que esse não foi o último encontro. Em sua mente de doze anos, ficou muito clara a ideia de que ainda ouviu a Vó Véia falar, em ocasiões futuras, dos namoradinhos e sobre os passeios que fazia. Mas talvez seja porque tudo o que pertencia à Bisa fora dividido e coube a ela herdar a colcha de retalhos. E, apesar de nunca ter se encorajado a usá-la, Clarice assumiu que, fosse aquilo verdade ou fantasia, também ela se sentia um pouco Bruxa e a colcha seria o meio de conexão entre elas dali em diante.

4 comentários sobre “Vó Véia

  1. Essa maravilhosa crônica é um verdadeiro presente para nós, netos e bisnetos da Vó Véia! Não a esqueceremos jamais! Você, Francine, conseguiu eternizar nosso sentimento de ligação mágica e admiração ímpar por ela! Conseguiu colocar tudo o que queremos dizer! Eu era uma fã incondicional de Vó Véia e adorava conversar com ela e ouvir suas histórias. Sempre a defendi com unhas e dentes. Morro de saudades dela! Obrigada, querida, por mais essa pérola!

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  2. Linda lembrança. Tenho em minha memória o “PITO” da Vó Véia. Gastava um bom tempo para preparar o fumo e depois acender. Pitava com vontade de dar gosto,
    Obrigado Fran.
    Tio Milton

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