A cola da memória

O aroma da vela acesa sobre a mesa do jantar não é somente aprazível. O copo de alumínio não é só um meio de matar a sede. A música mais triste não entra simplesmente pelo ouvido e vai embora ao final do acorde. Vela, copo e canção fazem os olhos arderem de saudade, lembranças aguçadas ou disformes, memórias que nimbam a alma ou exorcizam determinadas dores, não importa.

As lembranças são implacáveis e trazem à tona muito mais do que história, muito mais do que momentos, pois surgem carregadas das emoções e afetos consolidados em algum lugar na mente. E isso arrepia a pele, faz chorar, domina o controle de que se dispunha até então.

Diante dessa súbita perturbação, o coração fica confuso, pois se é ido, de onde veio? Se é perdido, como se achou? A resposta vem melodiosa e aclarada: volta porque foi amado e, uma vez amado, fica eternizado na memória. Pois se foram lindas, as coisas findas ficarão, já dizia o maior poeta.

Mas as recordações são fecundas e também transportam feridas, logo podem doer quando aparecem, se vasta for a úlcera que se esconde. E o tempo acelera e faz aqueles acontecimentos parecerem próximos, com a força que tem de ondular.

Então, o pão caseiro faz lembrar a infância, mas também significa uma timidez fora do comum e disso quem quer se lembrar? Os cabelos loiros e esvoaçantes associados ao corpo perfeito da amiga reencontrada fazem lembrar a melancolia do amor que a gente nunca dedicou a si mesmo há tempos atrás. O sabor do doce que não se provava há tantos anos tem cheiro de sangue, quando se perdeu um dente e essa mistura sinestésica bagunça o raciocínio a tal ponto que pode conectar simplificadamente fatos não interligados: pão e vergonha, amizade e baixa autoestima, doce e perda.

O copo de alumínio era só um copo que se usa no interior para conservar a temperatura do líquido, mas veio atropelando as ideias, pois só fora usado na infância, em um lugar específico, com gosto de despreocupação.

A música foi esquecida dentro de algum mundo, mas apesar de não ouvi-la há mais de uma década e de a letra curiosamente repetir que “não vai haver nada pra recordar”, ela cortou feito athame, pois sua melodia ressurgia acompanhada da solidão que um dia se colecionou.

Não foi possível identificar que aroma era aquele que surgiu suave, mas tão presente, fazendo os olhos lacrimejarem por reconhecer que evocava um certo amparo do qual não se tem mais igual. Mesmo sem saber a resposta de onde, esse cheiro veio como um abraço e a alma somente agradeceu curvada a essa armadilha que se colou bravamente na memória.

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