Encruzilhada

Há uma criança sentada na poltrona marrom, com o olhar abstraído, arrebatada pelos sonhos que apenas começou a devanear. Ela tem sede, mas não pede água. Tem fome de palavras, mas não descobriu a melhor forma de dizê-las. Pensa e esquece. Sofre e adormece. A criança não finge, não volta atrás. É uma criança solevada na paisagem e espera que entendam que mal sabe chorar.

Há uma garota diante do livro, procurando por Continuar lendo

Verdades antigas que já não servem

“Para encontrar o que eu realmente podia esperar, primeiro teria que atravessar a minha verdade?”
(A paixão segundo G.H – Clarice Lispector)

Qual é o maior depósito de coisas inúteis?

Gavetas? Quartos de bagunça? Desktops? Velhos baús embaixo da cama?
À frente de tudo, o maior depósito de coisas inúteis é a mente.

Quanta energia parada e sem propósito fica ali, lamuriando em nossos pensamentos! Continuar lendo

O sorriso da lua

“Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?”
(Mário Quintana, em O eterno espanto)

Diz a lenda que, numa época de noite escura, quando o medo dominava as casas e encolhia as pessoas, a lua surgiu, provinda de uma bela índia que despertou inveja por ter tido coragem de enfrentar o desconhecido das trevas. E tornou-se lua, depois de subir tão alto e dormir dentro de uma nuvem, ansiando fugir do meio onde a achavam diferente de todos.

Essa estória me trouxe um ciúme bem de leve, a ponto de querer, só de vez em quando, também ser lua alta lá no céu.

Mas não queria ser descaradamente visível, redonda e pálida a arrancar suspiros e esgotar-me de serenatas de amor. Não, tampouco desejo ser lua velha, emergindo da escuridão, renascida de mistério.

O que eu quero mesmo é ser um sorriso de lua, como essa que está me olhando provocativa e simpática na amplidão. Lua branca em expansão, crescendo, nutrindo sonhos e rindo-me sem motivo nenhum, para quem quiser me ver.

Desço e volto correndo quando me cansar, ou até para me esconder do mau olhado, já que essa vida de lua deve causar uma cobiça imensa em quem cá embaixo está, como causou em mim. Mas, subo de novo quando a tristeza me abarrotar, para repousar a mente e o corpo (quem sabe em uma nuvenzinha) e olhar lá de cima para as sombras daqui de baixo e poder, é claro, entre altiva e atrevida, continuar a sorrir.

A promessa da primavera

Em cada vida, há uma primavera. Mas ela ainda está por vir.

Hoje a terra ainda é fria, o ar nos arrepia e faz buscar abrigo. Mas o Sol aumenta sua força a cada dia e logo mais seus raios morosos reinarão em plenitude.

As trevas que nimbam as noites se descortinarão para a luz até ontem inconquistável, fazendo com que a vida desperte desse sono de inverno.

Hoje é o primeiro dia em que a criança começa a crescer desenfreadamente dentro de cada um, com exalação do novo.

Hoje se carrega o poder de transformar esperança em veracidade, pensamentos mortiços em escombros do passado somente.

É tempo de ressurgir, renovar.

É tempo de varrer, lavar e purificar.

A partir de hoje estejamos atentos às inspirações, já com as gavetas internas limpas, após a reclusão que o inverno caucionou.

É o hoje de ocupar os espaços vazios com o que vem no seu tempo, no tempo que vier.

É tempo de dizer: te esperarei, Primavera, e quando chegar, fique o tempo que puder.