O sorriso da lua

“Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?”
(Mário Quintana, em O eterno espanto)

Diz a lenda que, numa época de noite escura, quando o medo dominava as casas e encolhia as pessoas, a lua surgiu, provinda de uma bela índia que despertou inveja por ter tido coragem de enfrentar o desconhecido das trevas. E tornou-se lua, depois de subir tão alto e dormir dentro de uma nuvem, ansiando fugir do meio onde a achavam diferente de todos.

Essa estória me trouxe um ciúme bem de leve, a ponto de querer, só de vez em quando, também ser lua alta lá no céu.

Mas não queria ser descaradamente visível, redonda e pálida a arrancar suspiros e esgotar-me de serenatas de amor. Não, tampouco desejo ser lua velha, emergindo da escuridão, renascida de mistério.

O que eu quero mesmo é ser um sorriso de lua, como essa que está me olhando provocativa e simpática na amplidão. Lua branca em expansão, crescendo, nutrindo sonhos e rindo-me sem motivo nenhum, para quem quiser me ver.

Desço e volto correndo quando me cansar, ou até para me esconder do mau olhado, já que essa vida de lua deve causar uma cobiça imensa em quem cá embaixo está, como causou em mim. Mas, subo de novo quando a tristeza me abarrotar, para repousar a mente e o corpo (quem sabe em uma nuvenzinha) e olhar lá de cima para as sombras daqui de baixo e poder, é claro, entre altiva e atrevida, continuar a sorrir.

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