Encruzilhada

Há uma criança sentada na poltrona marrom, com o olhar abstraído, arrebatada pelos sonhos que apenas começou a devanear. Ela tem sede, mas não pede água. Tem fome de palavras, mas não descobriu a melhor forma de dizê-las. Pensa e esquece. Sofre e adormece. A criança não finge, não volta atrás. É uma criança solevada na paisagem e espera que entendam que mal sabe chorar.

Há uma garota diante do livro, procurando por claridade. Ela é tomada de intromissões e imprevistos, bisbilhotando outras vidas, já que ainda não ousou viver a sua própria. Tem cobiça e faz da volúpia o seu segredo. Tem propósito, mas, com receio, impede que analisem sua face. As estradas não foram preenchidas pela sua presença porque ela decidiu ficar parada. A garota escondida não tira os olhos do livro e fantasia que as letras saltem das páginas e dancem diante de si, fecundando a própria história que ela não sabe contar.

Há uma mulher que caminha, passeia sem destino e que não se aproxima de ninguém, seu corpo nada pode tocar. Ela é simétrica em seu movimento, dita os passos com a maestria de quem está anos a voejar. Tem firmeza, mas o passo é ponderado. Tem tristeza, mas com os olhos secos. É uma mulher em seu destino, sem acompanhante, pois ela não sabe se doar.

Há uma sombra nômade que, às vezes pára diante de encruzilhadas, deixando cair todo o peso das dúvidas sobre sua matéria diáfana, tornando diluído o depois. Tem fluidez sem permissão. Não tem nome e nem cor e sua conversa é sussurro, quase não se pode ouvir. Mas a sombra é sentida, eriçando os pelos de quem perto dela passa. Não vive entre parênteses, ao contrário, tem a sapiência de adentrar outros mundos. É uma sombra onipresente, mas que ainda não sabe esperar.

Quando não podiam chorar, dedicavam a alma à leitura. Para não revelarem sobre suas vidas, tornavam-se errantes. Para não se perderem, cuidavam de alguém. E quando não mais podiam se dar, a lentidão dos dias passando feria-lhes os poros. Uma criança errava; uma garota errava; uma mulher errava. Eram todas sombras que erravam, com seus livros, seus caminhos, suas paradas.

E a criança começava a ler, a garota a deambular, a mulher estava em todos os cantos, mas era a sombra que se sentava à poltrona e tinha diante de si todo o tempo do mundo para chorar as inéditas lágrimas, calar as malditas palavras e trazer, para dentro de si, o sono infinito, por fim.

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