Altas geleiras

Bem lá em cima do desfiladeiro, fez-se eco de suas palavras, atingindo penosamente meu universo: vontade de me crispar o mais que puder até desvanecer na paisagem e nada sobrar de mim, nada de meus erros, mentiras e brumas.

Estava tão ocupada em decidir quais partes de mim me fariam tão mais eu que não vi quando passou, escancarando suas verdades. Mas senti quando hesitou seu coração diante de mim, parou por instantes até compassar-se ao meu. Bateram juntos em inextricável segredo e já não soube a quem pertenciam. O gigante mundo, porém, não despertou de sua inocência e continuou a nos sorrir, imprudentemente.

Tinha tanta sede, tanta força, tanta náusea. Mas não morreria dessa sede e me enovelaria nas entranhas de dentro de mim; força se extinguiria. De amor não se morre. Do amor se perde. De amor se mata. Escapa.

Não quero te doer.

Não quero te partir.

Não quero te cuspir as frases nunca ditas.

Mas fiquemos de mãos dadas só mais um pouco, pois o dia urge e eu não quero sair. Fiquemos parados nesses lenitivos instantes que nos restam.

Antes que os corações ofendidos se poluam de fraudes e não se perdoem mais.

Antes que os ventos me soprem de volta às minhas altas geleiras.

Estou sozinha na noite e o silêncio é demais para mim.

Eu te amo

Conteve as palavras em dezenas de ocasiões. Frasezinha de ouro, difícil de sair. Requebrava dentro de si, fazendo troça de seu engasgo, subia, subia até ali, perto da boca, cavava espaços, tentava jogar-se para fora, mas na hora certa, hora mágica, não havia como, simplesmente, não a deixava desvencilhar-se de si.

Até que era natural cantá-la nas canções, ler nos livros, ouvir nos filmes, repetir em bom som ao espelho, mas quando apoderava-se dela, quando o “eu te amo” tornava-se responsabilidade sua, ah, daí não havia como proferi-lo.

E durante um bom período de tempo leu e escutou, direcionado a ela. Calava-se, desconversava, sorria tímida, nem conseguia mais olhar no fundo dos olhos. Que era isso que sentia? Esse incêndio dentro dela, as horas distraídas, as lágrimas silentes nos momentos inusitados, ar restrito, peito apertado, coração fugido tamanha a pressa. Mas, imediatamente, retomava a consciência e a terceira pessoa que participava de seus relacionamentos – ela mesma, vendo-se de fora e rindo da cafonice da situação – tornava frustra qualquer tentativa de soltar o verbo. E o tal do “eu te amo” não nascia.

E essa matéria de assumir o amor é complicada, com ou sem Super Ego na jogada, tinha que entender o seu significado, pesar todas as possibilidades, diagnósticos diferenciais, o que sentia poderia ser só uma dor de barriga, uma crise de ansiedade, um medo bem grande de sei lá o quê ou até mesmo um infarto agudo. E dizer “eu te amo” para alguém, comprometer-se tão intimamente, não seria uma forma de doar-se e, consequentemente, perder-se de si mesma?

Porque achava que nem sempre amor precisa ser coisa explosiva, de atropelar tudo e todos, de amarrar as ações. Aceitava que tivesse seu grau de excelência em descoordenar um pouco as posturas e até desgovernar as palavras. Mas sua sanidade intelectual precisava ser preservada, então esperou.

A espera amadurece, faz crescer, não é novidade. E o amadurecimento desbanca crenças e conceitos, cria outros mais sólidos ou, como nesse caso, derrete aquela infalível confiança de julgar ter o mundo sob seu controle.

Daí que na batida do relógio em que teve absoluta certeza do que sentia, ele não estava mais na expectativa de ouvir a frase. E se foi antes que ela ousasse emitir sua curta sentença. Mas, para evitar que os lamentos pela malfadada história de amor repercutam por aqui, esclareço: estamos falando de anos nessa delonga, logo, não há crueldade, nem imoralidade nenhuma na atitude do outro. O atraso cansa e tanto a alma quanto o corpo precisam de abrigo.

As três palavras detiveram-se nas letras de músicas. Chico, Vinícius, Ivan, Djavan, Tom…muitos dedicaram formas diferentes de se declarar para ela na sua imaginação. O romance ficou na ponta da caneta, no olhar distante. E o tempo curou a ausência das palavras, como ensinamento, trouxe a proposta de deixar o “eu te amo” sair, quando houvesse satisfação em dizê-lo, quando houvesse deleite em senti-lo. Assim sendo, as palavras fluem, sem obrigação, sem demanda, sempre que ela deseja, sendo pronunciado pelas entranhas, e nunca mais sendo deixado para amanhã.

 

Lista de costumes a atrair para a vida

Ali estava a vida, invocando seu direito de ser extraordinariamente vivida, mesmo com contrariedades e desvios extrínsecos às vontades. Ela só queria totalidade, só queria muitas brechas e fissuras, só queria passe livre para o que faz bem, para o que deve se aproximar; queria espaço de sobra para o que precisa estacionar por aqui.

Então, por favor, vida, traga a presença de tudo que for fundamental, nada menos do que isso.

 

E são necessários sorrisos aos montes: cheios, claros, quase a contornar o rosto todo. São necessários sorrisos de bom dia, que desmontem as tristezas, que reestruturem a alma, que façam valer as horas, que motivem outros sorrisos em retribuição e para dar continuidade, sem muito esforço, sem forçar nada, mas com toda a força.

Cortesias nos mais variados graus são absolutamente bem recebidas. A preocupação com a humanidade pode até envolver frases e fotos de efeito, compartilhadas em redes sociais, mas não se pode esquecer que logo ali ao lado, há um ser humano que merece simpatias, respeito e todo o cuidado no trato.

Abraços são mais do que requisitados sempre. Abraços são disputadíssimos e esfuziam os dias, principalmente quando duram segundos intermináveis e podem ser repetidos, sem justificativa alguma.

 

Eliminar pendências, dar “conferes” em listas de tarefas, solucionar velhos conflitos e dissolver mal-entendidos, tudo isso é prioridade na melhoria dos dias e a vida pede urgência nesse item. Porque ela exige leveza e é mais feliz quando dorme as noites com suavidade.

Relaxar a mente é exercício diário, permitindo que a inspiração surpreenda seu momento, eternize-o, a ponto de despertar tesouros antigos e desconhecidos.

 

Também ela, a vida, impõe coragem e faz andar mesmo com medo, faz criar com despudor e traz liberdade para a imperfeição. Cabe tremer de medo, desde que não pare, cabe deixar a imaginação fluir, desde que com verdade, cabe errar desde que não se desista.

 

Verdade! A vida inspira verdade. É no olhar, em uma frase, em um passo a passo pareado, na certeza do acolhimento, na verdade de cada gesto desses que o consequente estremecimento traz a catarse dos dias.

 

Há, em grande escala, a cobiça pela música, pela literatura: o que se lê, o que se escreve, o que se escuta, o que se canta faz a mente alçar um mergulho bem próximo ao infinito e retornar é incumbência dolorida, porém renovadora, pois quem foi já é outro quando volta.

 

 

Outra companhia imprescindível é a paixão pelo real e pelo irreal, a paixão por tudo que mova, que impeça de ficar estagnado na mesma poltrona, com a cabeça virada sempre na mesma posição. Que a paixão faça moradia onde quer que se esgueirem os pés, que toque sem sutileza, pois também ardor é bem-vindo.

 

E, por fim, o que tornaria todas as demais unidades possíveis, é premente acreditar. Acreditar muito, acreditar um tantinho, desacreditar até por instantes para acreditar em seguida com mais amplitude…não importa o nível, não importa o direcionamento, não importa a esfera, mas que se acredite como base, como ponto de partida. Que se acredite com sede, com o corpo, com o espírito; que se acredite no que há fora, que a crença esteja somente lá dentro; quer seja chama tímida de vela, quer seja fé incendiável; que se creia no todo, que se confie nas partes. E ao acreditar, sem sofrimento, a vida se estabelece em direito e, a partir daí, será indubitavelmente vivida no hoje, sem promessas para o depois.