A bruxa em mim

De ritual em ritual, quero viver meus dias: com velas, aromas, danças e canções; com amores, lágrimas, estudos e contemplações. Olho para frente, para alguém. Busco a mim no outro e o diferente em mim.

Minha insígnia é de sonho, porém meu sonho é agora e o meu agora insiste em reinventar. Seu produto é ação.

Navego com ou sem destino, pouco importa; não fui feita para me demorar no mesmo lugar.

Mas gosto mesmo é de voar, adejar o infinito, enlevada pelo luar, pelo vento, pelas nuvens, pela deusa que me habita. Tenho a vassoura como companhia, mas o que me impulsiona mais do que tudo é o desejo.

Minha alma nem sempre está em mim, gosta de passear por aí, de cultivar abraços e, às vezes, vai tão longe que custa a voltar, não quando quero, mas quando ela pode.

Não me interessa ser guiada, renuncio a comparações e desdenho de quem me rotula. Só não quero me perder no tempo…

A natureza acontece em mim,

Com verdades e esconderijos

De Bruxa que sou, por fim.

O encontro de almas errantes

“Os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace”
(Victor Hugo)

“Os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace”
(Victor Hugo, O corcunda de Notre Dame)

 Certa noite de neblina em que uivos de vento rasgavam o horizonte e espíritos esquecidos gemiam para corromper quem por ali passasse, duas almas se cruzaram e desenhou-se uma história de devoção. A primeira era um andarilho sem pressa que se rendeu à tristeza da segunda, poeta solitária, sem viço ou esperança, hesitando em pôr fim ao sofrimento enraizado.

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Fuga…fugaz…fullgas

“She’s just a girl and she’s on fire…”
(Alicia Keys, em Girl on fire)

 Entrou no ônibus com o coração acelerado, olhar fixo no chão, como de costume. Tinha medo de gente, medo de olhar no olho, medo de emitir ruídos e da sua voz em alto som. Ia acompanhada da família (pais e irmãos), de férias, em mais uma viagem à casa de parentes, mas gostava de fingir que seguia sozinha, mesmo com seus seis anos, indo passear em uma imensa cidade de luzes e cores, onde poderia ser quem quisesse e não dariam importância.

Já sentada, tratou de distrair-se diante das horas que se cumpririam. Pegou um gibi da bolsa, um pacote de ‘porcaritos’, descalçou as sapatilhas, recostou-se, à vontade, em seu banco e tentou renunciar, por instantes, ao clima que a rodeava.

Impossível. Logo à frente, um cidadão desatou a tossir em uníssono com sua companheira de viagem, tão em sintonia quanto se houvessem ensaiado a semana toda; uma senhora, no banco imediatamente atrás, entabulou uma conversa ferrenha com a vizinha a respeito do próximo capítulo da novela; choro eterno de criança, soluços de saudade, música no rádio e até uma resolução coletiva de palavras cruzadas, tudo contribuía para sua distração e, pior, sem nenhuma mescla de prazer.

Ao seu lado, sua irmã já não lhe era mais companhia, obstinada que estava em sua soneca. Fechou, então, os olhos, deixou brotar na mente a paisagem mais bonita de que se lembrava, mas todos aqueles sons se confundiam e gritavam na sua cabeça, como que chamando sua atenção.

Como sequer tinha alguma determinação para olhar para trás ou para frente ou, enfim, para qualquer lado, no ápice do processo de resignação que lhe era comum, e transcorrido já um tempo da viagem, a música veio até ela, retilínea na mente.

“Meu mundo você é quem faz, múuuuusica, letra e daaaaaança…”

Relaxou e se deliciou com o momento, enquanto a música percorria suas veias, desenhando sua forma, repleta de matizes, a entreter sua hora, seu pensamento. “Você me abre seus braços e a gente faz um paíiiiiiiiiis”

O ônibus parou e o que aconteceu foi arrasador: muitos aplausos e risinhos para o espetáculo particular que, até ali, parecia tão seu.

Corada, humilhada, com a sua timidez a bambear as pernas, ela só pôde esboçar um “ops” e levantou-se cabisbaixa rumo à rodoviária, com seus irmãos rindo atrás de si.

Fracasse melhor

“O fracasso quebra as almas pequenas e engrandece as grandes, assim como o vento apaga a vela e atiça o fogo a floresta”

(Benjamin Franklin)

 Pois bem, você fracassou. Logo, é hora de recomeçar. Parabéns a você que tentou, e que o medo de fracassar novamente não o atinja.

É imprescindível extirpar a velha cultura do fracasso, como se fosse imperdoável errar, tanto quanto acertar, segundo o grande Millor. A incerteza de um resultado é paralítica, trava as pernas, os olhos, as mãos, freia até os sentidos, porque faz parte da humanidade fugir do erro. E, por conta disso, pode-se ficar estagnado diariamente. “Se for para fazer algo, que seja perfeito”. Perfeccionismo pode ser um castigo quando vem acompanhado de sofrimento, cobrança e abandono.

Quando algo deixa de ser feito por medo da frustração de não obter êxito, a inspiração sai da casa em busca de outra mente, a criatividade fica tolhida e uma oportunidade de inovar, experimentar, partir para o novo deixa de ser plenamente vivida.

Fracassar é um prestígio, pois envolve um risco, calculado ou não, que serve de treinamento, aprendizado, por mais que a frase seja batida. É, no mínimo, um caminho a menos a escolher, pois o que frustrou já será velho conhecido e pode-se falhar, falhar, falhar, dali por diante até acertar, pois a dor é temporária, professora, não haverá de manter ninguém ao chão por longo tempo, nem enterrar expectativas e sonhos.  Fracassar é só um caminho com volta, desvio, uma prorrogação do jogo que terminou empatado.

De fracasso em fracasso, é possível ir bem longe, se o entusiasmo fizer parte da sua vida. Não há tombo ou zombaria alheia que desperdicem uma tentativa se os olhos estiverem brilhando, se houver paixão nessa busca, se as pernas trançarem de tanta emoção quando quase se atinge o alvo.

O sucesso é um processo que passa por naufragar. Ajustar a prática com os planos de primeira é evento raro e pouco frutífero. Viver de maneira imperfeita, comprando os riscos, trucando os desafios é tornar concreto nosso sonho, por mais subjetiva que seja a mentalidade que nos guie.

Esteja pronto para errar, pivotar se for necessário, mudando o rumo e vivendo cada fracasso por completo. Ele é seu e a responsabilidade de em que ele será catalisado é sua.

Seja louco para errar, no melhor método que conseguir.

Quando você almeja a lua, será atingido pela rejeição, bem antes de alcançar qualquer estrela”

(Lisa Curtis)

A dona do verbo

Era uma vez uma garotinha que não se fazia entender por palavras. Isso mesmo. Emitia o som em porte adequado, desfrutava de acertado vocabulário, pronunciava-se em relação a qualquer assunto, falava mesmo pelos cotovelos e discutia, muitas vezes, com a própria imagem ao espelho. Mas, curiosamente e ninguém sabia explicar o porquê, não se podia compreender o que ela dizia, por maior que fosse o seu entusiasmo ou a disposição e empenho do interlocutor.

Apesar desse detalhe quase irrelevante da falta de comunicação, ela continuava senhora de si e expressava-se da maneira como conseguia. Experimentava verdadeira paixão pelos vocábulos, enxergava letras no ar e tentava apanhá-las, em fantasia, para formar seu nome. É fato que preferia o A e o M, tinha certo medo do Z e do H e ria-se toda quando o I ensaiava sair de sua boca.

Complicado era decifrá-la quando seus olhinhos aflitos algo solicitavam, quando esperava por uma resposta. Chorava um pouquinho, mas em seguida, novamente um turbilhão de frases saía de si,  para talvez um dia fazer sentido.

Muitas vezes, solicitou à mãe, através de gestos, que lhe comprasse uma nova voz ou algum chá de entendimento no mercado, na loja da esquina, no centro da cidade, na loja online da China. Não era possível! – Em algum lugar deveria haver a sua solução em troca de algumas moedas! Mas sua mãe não achava em parte alguma.

Até que em um dia, a menininha se enfastiou e resolveu parar de falar, se é que de fala podemos chamar a sua constante tentativa frustrada de conversação. Cerrou os lábios, cruzou os braços e negou-se a ser a pseudo-tagarela de antes. Todos, obviamente, estranharam esse comportamento de resistência e aprisionamento de si mesma. Porque, ao não se importar mais em se fazer ouvir, ninguém mais sabia como acessá-la.

Os dias se tornaram mais silenciosos, solitários e menos inesperados. Perdeu-se o decifrar e até o humor encoberto que pairava ao redor daquelas palavras ininteligíveis. E eis que o mundo que a cercava calou-se junto com a garota.

Silêncio. Silêncio. Silêncio. Não, assim, já era demais! Tudo bem ela não falar, mas ninguém mais??? Não, isso não estava certo. Foi o que ela pensou ao olhar para cima, para os lados, para frente e para trás e enxergar todos tão aborrecidos, lastimando a transformação da criança, de barulhenta para taciturna.

– Ei, vocês! Parem com isso! Ninguém mais vai conversar comigo?

Silêncio. Silêncio. Silêncio.

– Ora bolas! Como se fizesse algum sentido o que estou dizendo!

Os rostos e expressões de  todos próximos a ela denunciavam: o que fluía dela tinha sentido sim. Naquela hora, a menininha sem palavras dava lugar à chefe interina das orações e não havia pessoa no mundo que não distinguisse cada letrinha de suas sentenças.

E eis que, desse dia em diante, qualquer um, vindo inclusive de terras distantes, vinha curvar-se diante dela e ouvir o que a voz mágica da pequena dona do verbo tinha a manifestar.

 

 

 

Estavam dispostos a morrer de paixão

“O amor mostra ao homem como é que ele deveria ser sempre. ”

(Tchekhov)

Era um modo de olhar que arruinava todas as crenças; um toque ao rosto que adejava os copos da mesa; as pernas se tocavam sutilmente, mas solapavam as estruturas e não se podia mais ficar em pé. O jeito arguto de retirar uma mecha de cabelo do rosto dela e recolocar em seu devido lugar congelava as horas.

Ambos se reuniam em prelúdio.

Rotineiramente pediam-se com algum desespero na voz, em gradações afinadas de reconhecimento. Esqueciam-se das palavras, mas se pediam sem se doar finalmente.

Porém tinham seus meios.

Estavam dispostos a morrer de paixão, caso não perecessem antes pelo dito maldito, pelo sentido mal-acabado, do encontro falido.

Dispostos a se condensar da tocante paixão, tocavam-se com as pontas dos dedos. E em pensamento, tudo ao redor cimentava, menos o amor que lhes era fuga e fluido e não era só deles.

Então esperavam, a fim de voltarem ao começo, por fim.