A dona do verbo

Era uma vez uma garotinha que não se fazia entender por palavras. Isso mesmo. Emitia o som em porte adequado, desfrutava de acertado vocabulário, pronunciava-se em relação a qualquer assunto, falava mesmo pelos cotovelos e discutia, muitas vezes, com a própria imagem ao espelho. Mas, curiosamente e ninguém sabia explicar o porquê, não se podia compreender o que ela dizia, por maior que fosse o seu entusiasmo ou a disposição e empenho do interlocutor.

Apesar desse detalhe quase irrelevante da falta de comunicação, ela continuava senhora de si e expressava-se da maneira como conseguia. Experimentava verdadeira paixão pelos vocábulos, enxergava letras no ar e tentava apanhá-las, em fantasia, para formar seu nome. É fato que preferia o A e o M, tinha certo medo do Z e do H e ria-se toda quando o I ensaiava sair de sua boca.

Complicado era decifrá-la quando seus olhinhos aflitos algo solicitavam, quando esperava por uma resposta. Chorava um pouquinho, mas em seguida, novamente um turbilhão de frases saía de si,  para talvez um dia fazer sentido.

Muitas vezes, solicitou à mãe, através de gestos, que lhe comprasse uma nova voz ou algum chá de entendimento no mercado, na loja da esquina, no centro da cidade, na loja online da China. Não era possível! – Em algum lugar deveria haver a sua solução em troca de algumas moedas! Mas sua mãe não achava em parte alguma.

Até que em um dia, a menininha se enfastiou e resolveu parar de falar, se é que de fala podemos chamar a sua constante tentativa frustrada de conversação. Cerrou os lábios, cruzou os braços e negou-se a ser a pseudo-tagarela de antes. Todos, obviamente, estranharam esse comportamento de resistência e aprisionamento de si mesma. Porque, ao não se importar mais em se fazer ouvir, ninguém mais sabia como acessá-la.

Os dias se tornaram mais silenciosos, solitários e menos inesperados. Perdeu-se o decifrar e até o humor encoberto que pairava ao redor daquelas palavras ininteligíveis. E eis que o mundo que a cercava calou-se junto com a garota.

Silêncio. Silêncio. Silêncio. Não, assim, já era demais! Tudo bem ela não falar, mas ninguém mais??? Não, isso não estava certo. Foi o que ela pensou ao olhar para cima, para os lados, para frente e para trás e enxergar todos tão aborrecidos, lastimando a transformação da criança, de barulhenta para taciturna.

– Ei, vocês! Parem com isso! Ninguém mais vai conversar comigo?

Silêncio. Silêncio. Silêncio.

– Ora bolas! Como se fizesse algum sentido o que estou dizendo!

Os rostos e expressões de  todos próximos a ela denunciavam: o que fluía dela tinha sentido sim. Naquela hora, a menininha sem palavras dava lugar à chefe interina das orações e não havia pessoa no mundo que não distinguisse cada letrinha de suas sentenças.

E eis que, desse dia em diante, qualquer um, vindo inclusive de terras distantes, vinha curvar-se diante dela e ouvir o que a voz mágica da pequena dona do verbo tinha a manifestar.

 

 

 

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