O encontro de almas errantes

“Os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace”
(Victor Hugo)

“Os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace”
(Victor Hugo, O corcunda de Notre Dame)

 Certa noite de neblina em que uivos de vento rasgavam o horizonte e espíritos esquecidos gemiam para corromper quem por ali passasse, duas almas se cruzaram e desenhou-se uma história de devoção. A primeira era um andarilho sem pressa que se rendeu à tristeza da segunda, poeta solitária, sem viço ou esperança, hesitando em pôr fim ao sofrimento enraizado.

Venha cá. Fazer o quê? Vamos olhar as estrelas. Mas estou diante de um abismo. Pule para trás. Estou congelada. Confie em mim. Mas carrego um véu da minha solidão. Deixe que eu me antecipe aos seus sentidos. Queria mesmo é ser sombra. Não, não se esconda. Não sei se consigo ir ao seu encontro. Venha como chama. Nem mesmo tenho asas. Eu te enxergo tão plena. Sou lava, finda a erupção. Na mudez da noite, você pode brilhar. Como, em meio à discórdia? Se eu sustentá-la em meus braços…Não pode equilibrar-se com uma dor tão profunda. Sei que posso, pois também tenho sangue em brasa. Mas o que faria com as ruínas de minhas lembranças? Eu as transformaria em novos sonhos. É tudo tão incômodo. Só saberá se tentar. Não sei dizer mais nada. Por favor, não minta. Apenas não sei ser sincera. Seja um sim. Aprendi a ser nunca. Para mim, você é uma certeza. Sem destino? São só alguns passos. Não me apercebo do chão sob meus pés. Não, fuja do abismo, transponha esse véu. Temo que não exista nada mais de mim. Instaure a vida, não a perca, não se perca, não me perca de si. Finja que estou sorrindo. Sorriso molhado de descrença. Não, sorriso de saudade. Pelo que lamenta? Por não conseguir sonhar. Isso é porque você se contém. Só promessas sem fim. Não, há também uma canção adocicada. Essa se confunde em meu sono febril. Não é possível encontrar paz sem antes errar por alamedas de medo. Não sei. Vire-se e dê-me sua mão. E se eu cair? Posso cuidar disso. É um fardo. Confio no amanhã. Sinto que o cansaço me tomba. Durma um pouco, esperemos juntos o porvir.

Do que me chamaria agora? Se antes era lava, agora é bonança. Não encontro mais tumulto, vejo um poema em harmonia. Já é dia claro e azul. Sem ilusões, alastra-se em mim um acanhado contentamento. É vida pedindo passagem, vida pedindo para ser vivida. Eu só sabia viver com extremos. Agora, terá que aprender a viver com o talvez. Mas ainda choro. Sempre haverá lágrimas e pesar. E, ainda assim, vale a pena? Vale a pena? Vale a pena…

E a pergunta ecoou por horas e horas, após ambos se doarem eternamente um ao outro, com a urgência de quem encontrou o que procurou toda a vida. E anos e anos mais tarde, ainda repercute em tardes frias e cinzentas como esta, tornando inadiável e atemporal a questão: vale a pena?

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