A poça de lágrimas

Nem se lembrava mais porque estava tão bravo. Correu, correu, correu, sem parar nem para tomar fôlego, com medo de explodir de tanta ira. Quando, enfim, quis descansar, Dado estava com o rosto queimando, mas não sabia dizer se era de raiva ou de exaustão.

Então aquela coisa pesada dentro dele ficou diferente. Ficou triste. E deixou de ser peso para tornar-se vazio. Sim, Dado tinha agora um vazio no lugar em que antes guardava uma bola de fogo: dentro do peito.

Mas não teve tempo de entender o porquê. Antes disso, algo quente começou a rolar em seu rosto, fazendo cócegas pelo nariz e escorrendo pelo queixo. Dado estava chorando.

Como já não sabia se era a tristeza, a raiva, o vazio ou o cansaço que o faziam choramingar, resolveu somente prestar atenção no trajeto que aquelas gotinhas percorriam. Deixou que saíssem da face e escoassem pelo braço, pelas palmas das mãos, para caírem, então, logo ali no chão. Uma, duas, três…todas elas.

Mal olhou novamente e já havia uma poça diante de si. Uma poça de lágrimas.

Achou aquilo diferente, mas, de repente, ouviu os gritos da mãe a chamá-lo para o almoço e notou, só nesse momento, que não estava tão longe. Enxugou o rosto e partiu.

No dia seguinte, já sem pressa, Dado voltou ao mesmo lugar. E comprovou sua suspeita: a poça de lágrimas continuava ali.

O que faria com ela?

– Faria um pum em cima dela – falou gargalhando o menino de blusa verde, interferindo na história.

– Tomaria toda a água dela, pois ele estava com sede – a pequena menina de laço vermelho no cabelo resolveu opinar.

– Sua boba! – Interrompeu o loirinho de boné – Não sabe que a lágrima é salgada igual a água do mar?

– Eu acho que ele deveria pular nela e pular e pular até passar toda a raiva que sentia – afirmou a garota chamada Sofia.

– Pois é melhor ele se olhar na poça feito espelho e ver quem ele é – não se soube de onde veio a voz.

Mas foi o que Dado fez.

Olhou, franziu a testa, mostrou a língua, fez cara de dúvida, de desdém e até de vilão.

Mas não se reconheceu.

Quem era aquele menino? Por que não se parecia com ele mesmo? O que faltava?

– Um nariz mais bem feito?

– Bochechas mais rosadas?

– Olhos mais escuros?

– Ajeitar a franja do cabelo?

Nada disso. O que faltava era um sorriso.

Pois, de tanto ficar bravo com todo o mundo, de tanto fugir de todos, de tanto reclamar de tudo, Dado nunca se lembrava de sorrir.

Mirou a poça de lágrimas mais uma vez e ensaiou um sorriso de canto de boca, um sorriso tímido, até sem graça, mas o reflexo ficou tão esquisito que ele começou a rir de olhos fechados. E depois de abri-los, ficou mesmo contente de se ver daquele jeito tão…tão Dado.

Então voltou para casa; o bolo que a mamãe tinha feito cheirava delicioso à distância e ele pensou em trocar um abraço por um pedaço.

Não olhou para trás para reparar que, enfim, a poça de lágrimas havia secado. Pois o sol brilhava bem amarelo lá no céu e hoje ninguém iria chorar mais.

 

Coisa errada

O dia não tem cor, não tem cinza nem azul. A tinta não saiu em letras, somente manchou a folha amassada. O café perdeu o sabor, ficou com cheiro de coisa antiga, ida, finda. As páginas do livro se colaram e ele, preso à estante. A música persistiu no pause. Corpo nu sem prazer; marcha longa sem destino; rosnado constante a amedrontar; o pinga pinga intermitente do chuveiro e o jasmim que não cresceu, murchou. O perfume pairou no ar, em promessa de quando for. O ponteiro parou, a hora morreu, a casa esvaziou. Alguém chamou, ninguém foi; dos lábios uma oração surgiu mas o céu se aquietou e o gemido foi soprado para longe, bem longe. A bolsa fechou, os poros se abriram, as úlceras se esconderam. De sangue, só o vermelho da língua muda. A chave não girou, a porta não bateu, o coração se espatifou no chão do banheiro. Nada se resolveu e ninguém escutou.

Prece leiga

Hoje é o meu silêncio que suplica, consumido pelos gritos que não soube emitir. Embora laica, muito tenho a reivindicar, pretender e soluçar. Mas me curvo, novata, em prece de gratidão e é o meu coração a ecoar e falar por mim:

Agradeço pelos melhores dias, às grandes descobertas, aos momentos de iluminação e aos sopros ao ouvido que vêm me ser companhia, como faíscas de inspiração.

Agradeço pelas horas de desespero, por não encontrar saídas, soluções, por me ver sem recursos, pois quanto mais perdida estiver, mais intenso será o reencontro; quanto mais Continuar lendo