Prece leiga

Hoje é o meu silêncio que suplica, consumido pelos gritos que não soube emitir. Embora laica, muito tenho a reivindicar, pretender e soluçar. Mas me curvo, novata, em prece de gratidão e é o meu coração a ecoar e falar por mim:

Agradeço pelos melhores dias, às grandes descobertas, aos momentos de iluminação e aos sopros ao ouvido que vêm me ser companhia, como faíscas de inspiração.

Agradeço pelas horas de desespero, por não encontrar saídas, soluções, por me ver sem recursos, pois quanto mais perdida estiver, mais intenso será o reencontro; quanto mais fundo me esconder, mais necessário será o abraço no regresso; quanto mais profunda for a dor, mais amor caberá no rasgo que ela deixar.

Agradeço a quem confiou a mim as suas incertezas ou resoluções; a quem me povoou de sorrisos e me fez sorrir junto; a quem me enfeitou de elogios ou sugeriu novos caminhos; a quem deu espaço para que eu caminhasse ao seu lado, concordando com meu discurso ou admitindo a minha quietude; a quem segurou minha mão e deixou um toque de amor, sem nada em troca.

Agradeço a todas as flores que se abriram, a todas as gotas de chuva que vieram irrigar, a todos os ventos que sussurraram em meus ouvidos, contornando a solidão, às folhas que caíram em realização, mostrando que todos os dias podem ser de primavera, desde que se saiba onde procurá-la.

Agradeço ao meu corpo que, independente das falhas que já ocorreram ou acontecerão, traz tudo de que preciso: prazer, liberdade e vida. E há vida em cada poro e paixão em cada lugar para onde ele me leve.

Agradeço aos sonhos que me norteiam, sem eles eu não saberia voar, sem eles eu não saberia pousar e tecer moradias em terra, sem eles vagaria a esmo, sem pressa de estar em nenhum canto, e por eles quero atingir o outro, o novo, o mais.

Agradeço pelas lembranças que carrego comigo, tudo que me faz rir e chorar por ser emoção colada na gente; agradeço ao passado que não volta, mas que cumpriu sua função de ter plantado suas sementes ontem e que continua cumprindo sua função de referência, ao me lembrar que, não importam as intempéries, só há um sentido para se andar e a seta é clara: para frente.

Agradeço aos erros desse mesmo passado, aos arrependimentos pelo feito e pelo não feito: não posso voltar e mudar a trajetória, mas nem por isso meu hoje deve ser de sombras, qualquer dia é tempo de fazer melhor, mesmo que demore para que certas mágoas se desvaneçam.

Agradeço por ter sido olhada, notada, e não somente vista feito um vulto na multidão; por ter podido desnudar a alma em palavras, lágrimas ou somente num olhar; agradeço por ter conseguido ser eu e, justamente aqui me entrego, aprendiz, nessa prece leiga.

 

2 comentários sobre “Prece leiga

  1. Pingback: Prece leiga — Papo de Fran - cantinhoamigo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s