Coisa errada

O dia não tem cor, não tem cinza nem azul. A tinta não saiu em letras, somente manchou a folha amassada. O café perdeu o sabor, ficou com cheiro de coisa antiga, ida, finda. As páginas do livro se colaram e ele, preso à estante. A música persistiu no pause. Corpo nu sem prazer; marcha longa sem destino; rosnado constante a amedrontar; o pinga pinga intermitente do chuveiro e o jasmim que não cresceu, murchou. O perfume pairou no ar, em promessa de quando for. O ponteiro parou, a hora morreu, a casa esvaziou. Alguém chamou, ninguém foi; dos lábios uma oração surgiu mas o céu se aquietou e o gemido foi soprado para longe, bem longe. A bolsa fechou, os poros se abriram, as úlceras se esconderam. De sangue, só o vermelho da língua muda. A chave não girou, a porta não bateu, o coração se espatifou no chão do banheiro. Nada se resolveu e ninguém escutou.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s