O leão comeu minha cabeça

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“Não sou eu que estou confuso, você nem sabe quem você é.”
(O Rei Leão)

Era o primeiro encontro dos dois e ele engoliu sua cabeça.

– Pai! Tive um pesadelo…

A madrugada de verão chamava a atenção dos corpos transpirados a roçar os lençóis em busca da posição ideal para que o sono se cumprisse.

– Sonhou com o quê, filha?

Não tinha dez anos completos, mas a vergonha do absurdo ainda não havia tomado sua língua, logo, poderia assumir:
– O Leão comeu minha cabeça.

Não era bem o momento para interpretações. É sabido que na Antiguidade Clássica, os sonhos significavam revelações de deuses ou demônios, podendo manifestar, inclusive, predições do futuro. Ou bem caberia o dito popular de que os sonhos decorrem da indigestão e, nesse caso, os problemas digestivos ficariam por conta do rei da selva, ao contrair um crânio que, literalmente, seria osso duro de roer.

– Vá dormir que o pesadelo não volta.

Na tradução da obra freudiana “A interpretação dos sonhos”, não há nenhuma citação do termo ‘pesadelo’. Entretanto, a ideia que melhor se assemelha a esse conceito é a designação dos sonhos aflitivos. Esse definitivamente era um deles.

Ele, o Leão, aparecia soberano, autêntico e altivo, sem permissão para adentrar o sonho. Caminhava com foco, sem rodeios, diretamente até ela, a menina devaneadora, e em uma única bocada, deglutia sua cabeça por inteiro.
Veio, então, o segundo encontro, sonho dramatizando uma abstração.

– Pai!!!!

– O quê?

– Eu tive um pesadelo.

Quem já não havia conseguido dormir na noite anterior pelo calor intenso e interrupções da alvorada, não receberia bem a repetição a experiência.

– É só um sonho.

Eis a frase típica de quem minimiza a importância do psiquismo ativo contido na experiência onírica.

– Mas eu nunca mais vou dormir.

Ficou acordada mais uma noite, espreitando a porta a fim de adiantar-se caso o animal indomável assomasse no interior do quarto. Não tinha certeza do que faria, talvez a garota chamasse o pai para resolver a situação. No seu íntimo, temia, porém, que ele não tivesse a menor chance contra o bicho e seria melhor que a querela não se dispersasse dali.

No terceiro encontro, as sensações eram diferentes, apesar da cena monótona. É que ela se entendeu como observadora do ato, teve a clareza da visão do camarote, em que o conhecido Leão devorava a ela mesma, duplicada, sem pestanejar. A terceira personagem onisciente fora elevada acima da distância e do tempo, era a única que poderia trazer o sonho para a realidade.

Ora, e se o sonho frequente tivesse um caráter moral persistente, demonstrando as impressões que haviam sido mal trabalhadas durante o dia? E se o sonho fosse somente um escudo a protegê-la do enfado das horas? E se o sonho somente tivesse a função de impedi-la de não envelhecer tão cedo?

Ela tinha nove anos e três encontros com o Leão. Quem pode dizer que tantas vezes perdeu a cabeça na vida, assim tão vividamente? Viria tal encontro como a realização distorcida de um desejo mal pronunciado? Teria sua peculiaridade recôndita de erotização no consumo pelo mais forte a subjugar a menina, que já o aguardava resignada?

“O sonho é uma realização disfarçada de um desejo suprimido ou recalcado”, disse o pai da Psicanálise.

Mesmo que o pai, real na história, não tenha dado merecimento à repetição do sonho naquelas noites seguidas, a aflição perdurou, embora tenha sido aquele terceiro encontro o último da série. A cabeça continuou conectada ao restante do corpo e o ego conservou a sua presença fortemente em outros sonhos, provando talvez o quanto aquela mente aspirava por ser ouvida, percebida, quiçá comida por quem quer que fosse. E por que não, por quem mais ela temia?

3 comentários sobre “O leão comeu minha cabeça

  1. Sonhos, em várias culturas que passeei a leitura davam atenção e tentavam de alguma forma formatar o descrito ou sonhado a algo realmente acontecido ou por acontecer.
    Eu me coloco como suspeito em dar certezas, por um lado já sonhei coisas absurdas sem nenhum significado como do tipo de um dia frio acabarmos descobrindo os pés que estavam sem meias e ai o cérebro reage criando um cenário supostamente fictício de andar na neve ou coisa do gênero.
    Mas o que dizer de sonhos que temos e são tão marcantes que tempos depois quando acontece algo e nos vem a lembrança de que aquilo foi exatamente como ocorreu naquele determinado sonho?
    E o que dizer dos chamados “sonhos de premonição”, que pelo menos no meu caso posso dar certeza de pelo menos uns 30, confesso que alguns não pude mesmo interferir, mas pelo menos 4 deles eu intervim. Será que mudei algo no tempo?
    Quando leio algo sobre a psicanalise sempre fico atento, não gosto de rotular nem de ser seguidor dos psicanalistas. Acredito que um louco reconhece o outro…brincadeirinha. Beijão Fran, adorei esse conto da menina e do Leão. =)

    Curtido por 1 pessoa

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