A criança de lá

Não sei bem de onde vem a melancolia. De algum lugar escuso, muito bem guardado, onde ela faz moradia, em comum acordo e com contrato assinado, de modo a não ser expulsa de lá quando eu me canso dela.

Ela fica nesse dormitório secreto desde a forma embrionária, como se sempre fosse assim; tal como são castanhos escuros os olhos, tal como foi determinada a mancha no joelho, assim como são as coisas simplesmente.

O embrião formou um ser, veio ao mundo, cresceu. Olho de cá para lá e lembro da menina, que tinha medo de tudo e pouco se aventurava. Achava que abrigava um tesouro adulterado que não poderia interessar a ninguém. Ela olhava o futuro com desesperança, indignação, relutância e uma boa dose de temor em ser ferida.

E se essa garota olhasse de lá para cá, o que veria?

As neuras são muito semelhantes. O fascínio pelo mundo é o mesmo, porém salpicado de mais sal e pimenta. A vontade de se doar aos outros é infinitamente maior.

Aquela menina teria orgulho.

Ela teria orgulho de ter se libertado, de ter ido atrás de seus sonhos, de ter tido coragem para longe ir. Orgulho de ter se entregue a si mesma, inclusive na tentativa de entender suas próprias dores.

 

2 comentários sobre “A criança de lá

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