Das pessoas perfeitas que nos despertam

Sem o intuito de esbarrar nas concepções sociais ou morais de excelência e primor, esse texto é sobre um ser perfeito. Não perfeito sob a designação comumente usada de perfeição, mas perfeito pelo conceito de capacidade, suficiência e necessidade. É sobre alguém que não impõe rótulos nos sentimentos e pode causar estranhamento, paixão, encantamento, tudo ao mesmo tempo e nem sempre se trata de amor.

É sobre uma pessoa capaz, suficiente e necessária, dessas que representam a primavera em qualquer época do ano: expulsam os medos, conseguem ficar com você por inteiro e conquistam aquilo que couber, entregando-se por uma hora, um dia, um mês, um ano ou uma vida, desde que seja com sabor de fruta mordida degustada ora sem pressa, ora com urgência.

Então ela é aquela pessoa perfeita, que te decifra pelo olhar e te assegura que as portas podem ser abertas, que as paredes devem ser derrubadas e não é vantajoso reconstruí-las, para que o sol entre; e que você pode simplesmente deixar fluir e ir.

É a criatura que aparece sem ser anunciada, com a boca escancarada em sorriso ao te avistar, e paralisa ao seu lado, fazendo daquele momento, eternidade.

E quando te abraça, traz a sensação de lar, de que é naqueles braços que você deveria ficar para sempre aninhado, de que dali você nunca deveria ter partido.

É para essa figura que você pode contar seus sonhos, delirar despreocupadamente, viver o melhor do futuro no presente, o melhor de si, na versão mais fiel de si mesmo.

Com esse personagem você vai conversar sobre tudo o que se encaixar ou vai ficar em silêncio, porque na mudez haverá tanta voz, tanto o que revelar e ele saberá ouvi-lo com a mesma intensidade que você.

É nos seus lábios – quando beijos existirem – que as horas se perdem e o chão recua, num hiato de espaço-tempo. Porém mesmo que não haja toque e envolvimento físico, há o consolo da entrega da alma, que é insubstituível, trazendo tanta dor e prazer quanto corpos unidos o fariam.

Essa é a pessoa que você carregará consigo, em alguma camada de si que já foi revelada no seu convívio ou que ainda se anunciará no porvir. Assim como a primavera, ela também talvez vá embora, porque precisa alçar voo. Vazio, contudo, não sobra, pois ficam as recordações definitivas em alguma gaveta da mente, provando que, nesse tempo em que esteve por perto, fez com que a vida se iluminasse e você se enchesse de si.

Bora correr

Ele passa de peito aberto, apesar do porte miúdo, com o par de tênis violeta, o calção preto meio justo e a pressa do atleta que tem as horas correndo atrás de si. O bom dia é tão afoito quanto sua pernada, e na mente o dia inteiro já se desenvolveu, tudo cuidadosamente planejado, mesmo que o relógio ainda aponte 07:30.

Ela corre despercebida dos arredores, blusa branca, tornozelo encorpado, o cabelo esvoaçando num rabo de cavalo a acompanhar seu movimento. Não é nada fácil, ela pensa, vou conseguir, não aguento mais. Só mais um pouquinho. Sabe que depois de tanto esforço não poderá se conter ao encarar o pão fresquinho com cheiro de convocação, a fatia de queijo, o pedaço de bolo, o café com açúcar. São 07:35 e ela já cogita se render.

Já a outra caminha curiosa, olhar para tudo, olhar para nada. Chama a atenção de quem por ela passa para o pato que contempla a lagoa, para a flor vermelha, cujo nome não sabe definir. O que ela queria mesmo era vestir-se de verde, ter asas e nadar em água calma. Mas os minutos não podem se exceder e ela já pensa no almoço, na organização da casa, pois já são 07:40.

Ele, com seu corpo delgado, os cabelos em neve, a postura linear, sabe que não está só, mas não se deixa alcançar. Sua voz é levada com o vento, mesmo que as palavras não se voltem para ninguém em específico. A marcha é veloz pois a linha imaginária de chegada está fora de alcance. São 07:45 e ele não vai parar.

Eu ainda não sei qual é a minha urgência, mas corro ao som agudo emanado pelo fone de ouvido. Todos os passantes me fazem companhia e cada história é um pouco minha. Vou também de peito aberto, alternando curiosidade e descaso; também clamo meus ais ao vento e penso em desistir incontáveis vezes ao dia. Meu passo é menos firme que meus atos, mas sigo assim mesmo. São 08:00, a manhã não tarda a acabar e ainda pretendo sonhar um tanto mais.