Bora correr

Ele passa de peito aberto, apesar do porte miúdo, com o par de tênis violeta, o calção preto meio justo e a pressa do atleta que tem as horas correndo atrás de si. O bom dia é tão afoito quanto sua pernada, e na mente o dia inteiro já se desenvolveu, tudo cuidadosamente planejado, mesmo que o relógio ainda aponte 07:30.

Ela corre despercebida dos arredores, blusa branca, tornozelo encorpado, o cabelo esvoaçando num rabo de cavalo a acompanhar seu movimento. Não é nada fácil, ela pensa, vou conseguir, não aguento mais. Só mais um pouquinho. Sabe que depois de tanto esforço não poderá se conter ao encarar o pão fresquinho com cheiro de convocação, a fatia de queijo, o pedaço de bolo, o café com açúcar. São 07:35 e ela já cogita se render.

Já a outra caminha curiosa, olhar para tudo, olhar para nada. Chama a atenção de quem por ela passa para o pato que contempla a lagoa, para a flor vermelha, cujo nome não sabe definir. O que ela queria mesmo era vestir-se de verde, ter asas e nadar em água calma. Mas os minutos não podem se exceder e ela já pensa no almoço, na organização da casa, pois já são 07:40.

Ele, com seu corpo delgado, os cabelos em neve, a postura linear, sabe que não está só, mas não se deixa alcançar. Sua voz é levada com o vento, mesmo que as palavras não se voltem para ninguém em específico. A marcha é veloz pois a linha imaginária de chegada está fora de alcance. São 07:45 e ele não vai parar.

Eu ainda não sei qual é a minha urgência, mas corro ao som agudo emanado pelo fone de ouvido. Todos os passantes me fazem companhia e cada história é um pouco minha. Vou também de peito aberto, alternando curiosidade e descaso; também clamo meus ais ao vento e penso em desistir incontáveis vezes ao dia. Meu passo é menos firme que meus atos, mas sigo assim mesmo. São 08:00, a manhã não tarda a acabar e ainda pretendo sonhar um tanto mais.

Um comentário sobre “Bora correr

  1. Moça, tive e tenho medo do contexto da postagem. Acho que penso, tenho a esperança, o desejo de me tornar só uma pessoinha besta, desorada, inapressada na singeleza e atrasada, atrasada, atrasada sempre…um abraço vagabundo, sem pressa, dado a desoras, calmo e impontual. A você.

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