De amores e monstros

“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

(Nietzsche)

 

Diante da cadeira à mesa do café, riso não havia. Era um homem com sua xícara. Enquanto o café esfriava ao passar apressado dos minutos, ele aceitava o que não conhecia. Aceitava mesmo sem confiar e fazia da copa um confessionário silencioso, onde segredos não se revelariam à hora serena do dia.

Teria ele sido mutilado nos Continuar lendo

Minha querida vizinha

“Diz-me quem é o teu vizinho que te direi a fria em que te enfiaste”
(Provérbio meu, criado ‘inda agorinha)

Gostar de morar em prédio não é unanimidade. Há quem seja indiferente e se mova em passos distraídos do portão da calçada até a entrada do apartamento, sem sofrer com as etapas de passagem pelo portão A, portão B, portão C, janelinha da portaria, hall de entrada, corredor de espera pelo elevador, saída dessa caixa móvel e, por fim, a penetração na morada em si, sob olhares curiosos e insolentes de vizinhos de acesso.

Há os que, entretanto, veem-se deleitados em poder, a cada movimento, parar sem pressa alguma e abordar, com qualquer passante, assuntos relativos ao tempo, aos preços exorbitantes dos produtos no mercado ou a respeito do atraso na chegada do elevador. Será que está com defeito, vou de escada ou espero um pouco mais? Na semana passada esperei mais de dez minutos, que absurdo! Vou falar sobre isso com o síndico na próxima reunião de condomínio. Você vai, não é?

E, indubitavelmente, há os reservados que, por mais que estabeleçam relações educadas e cumprimentem a todos, sem contar anedotas pré-programadas, ainda assim fazem promessas mentais diárias para não se deparar com determinados vizinhos e não terem que improvisar relatórios pessoais sobre seus últimos feitos, como resposta aos questionários a que são submetidos.

A historieta que se segue trata dessa Continuar lendo

Para sempre

Parece que a ouvi chamar. Então, logo obedeci. Você não podia me ver, nem eu sequer adivinharia seu rosto, tão similar ao meu. Porém sua voz dormente e seu toque ainda distante acalmavam-me os dias, despertando o desejo de surgir e nascer para apurar quem de fato  era você.

Logo cheguei, apesar dos rodeios. Há quem diga que me arremessei nos seus braços. Hoje penso que foi você quem me alcançou, refugiando-me nessa fusão até o fim dos meus dias.

Tanto chorei e a vi mortificada a policiar suas próprias lágrimas. Tanto me retive acordado, à procura de um conforto que eu nem bem entendia e a vi ali a tentar estabilizar as pálpebras combalidas.

Então, compreendi onde estava. Não sabia nomear, mas sabia que era minha, que tudo era para mim e que não estava a viver essa vida sozinho.

Dessa forma, foi mais fácil sorrir. E quase me dilacerar em gargalhadas, pois também você se abria em riso rasgado para refletir minhas conquistas.

Você me viu rolar, cair para o lado, tropeçar. Testemunhou os primeiros desconfortos, as grandes dúvidas dos limites da normalidade e contestou até que ponto garantiria a sua própria lucidez.

E sem qualquer abecedário, estávamos ali numa nova realidade por vezes assustadora, outras pulsátil, em que trocamos longos discursos mesmo sem dizer uma palavra e li nos seus olhos a hesitação do “e agora?”

E aquela hora você começou a me formar, deixando que eu me modelasse. Naquela hora você me influenciou, embora fosse eu quem decidisse ao fim. Naquela hora você criou um roteiro, mas deixou que eu entrasse em cena como estrela, sendo sempre coadjuvante. Naquela hora você me deixou seguir, desprendendo-se de minhas mãos, sem, no entanto, desconectar-se de mim.

Sei que travou uma luta contínua para se renovar, para melhor lapidar esse novo nome que ganhou. Mãe.

Então, agora sou eu que a chamo. Para sempre.