A terceira perna

Quase sempre, à escuridão, acordava chorando. Tentava, por todas as maneiras, recordar-se o que havia abandonado na casa vazia, mas a memória negava-se a informar seu equívoco. De uma certeza não se furtava: não lhe era imprescindível, mas algo dentro dela gritava “eu exijo, eu exijo”.

Passados dez meses da despedida, resolveu que as noites estavam extensas demais e que era preciso voltar a dormir. Era uma manhã de quinta-feira, deixara as crianças na escola, e foi o carro que a guiou, sem que fizesse nenhum esforço; em pouco tempo de rodovia, encontrava-se em frente à casa. Os portões dilapidados ainda protegiam aquela que tinha sido sua fortaleza durante anos, mas o verde do gramado se agrisalhava como quem se farta de sol e se escasseia de água e convívio.

Após o rangido da porta vermelha coroar sua entrada, foi subitamente tomada pelo cheiro de poeira a adentrar as narinas e quase pôde sentir na língua o amargor da melancolia que aquela imensidão de sujeira anunciava.

O que intencionava mesmo era achar aquilo que havia negligenciado, mas não sabia nem de onde partir e seu embaraço se avivava pelo fato de não saber que terceira perna era essa de que sentia a ausência, sem reconhecer.

E sem ponto de partida deu início a sua busca.

Nada encontrou na lareira, em meio a cinzas de restos de madeira, mas sentiu os olhos arderem frente ao gosto das chamas, que se estabeleceu no paladar, já que, tantas vezes, aqueceram-se de vinho e silêncio nas noites mais frias do ano.

Também nada havia na cozinha e a sede que percorreu sua carne não se apaziguou com a memória da água do filtro de barro, que não só curava a sequidão da boca, como energizava sua alma, pois quase sempre era ele que a servia, quando ela simplesmente se esquecia da importância de um copo d’água! Mudou de cômodo quando, à beira do fogão, nada pôde sentir além do aroma do omelete virado na frigideira, que uma vez, somente uma vez, despedaçou-se na pia. Mal soube ele que fora esse o seu prato mais genuíno.

Passou rapidamente pela horta, pois não arriscaria que tivesse lá esquecido de algo. E, de fato, nem uma folha havia, muito menos algum objeto que tivesse pertencido ao seu caro. Virou-se, deixando para trás qualquer vestígio da sensação quente de orégano mastigado enquanto plantavam juntos cada muda.

Não foi diferente no banheiro do casal e pensou em correr para longe quando, sem que lhe pedisse licença, o perfume do desodorante que ele usava usurpou seus sentidos, fazendo com que a ardência pendesse pela saliva em domínio e arrefecimento.

Já se curvava para partir quando o divisou, bem ali no quarto, preterido na penteadeira, coberto de traças e falecimento: o livro.

Fora seu presente de dia das mães, anos atrás, “A paixão segundo G.H.”, de Clarice Lispector, edição em língua inglesa, e sentiu na boca as lágrimas de euforia do dia em que a teve nas mãos pela primeira vez. Agora, porém, as lágrimas eram de epílogo, salgadas e arredias, mas eram suas lágrimas, não dividiria mais com ele.

Antes que lhe surgisse o gosto do beijo molhado a cada encontro, que calava as queixas da saudade, divergiu do quarto, livro em mão e sensação na pele de que alcançara o essencial. Isso não mudaria, no entanto, quem ela era ou quem teria que se tornar dali por diante, mas era algo que, assim como na obra abandonada, faria com que se encontrasse.

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s