Obrigado

A rajada esbofeteando seu rosto enquanto caminhava na rua, de volta para casa, tinha nome. Ela tinha certeza de que se chamava agora. Assim como o caminho prolongado, o panfleto esvoaçante, o barulho distante da sirene que seus ouvidos insistiam em captar, tudo isso era agora.

Enquanto se alastrava pelas calçadas, tinhas as mãos firmemente fechadas, numa tentativa de esmagar o que tivesse ali escondido em suas mãos. Não ousava revelar a si mesma que tinha, na verdade, as mãos vazias. Pois depois da despedida, sentiu que precisava carregar algo consigo.

Deixara-o parado, algo partido, após ambos sussurrarem em uníssono o mesmo som, sem ensaio prévio: obrigado.

– Obrigado…obrigado…obrigado…

Talvez retornasse, agora que conhecia o caminho. Por ora, comprou um sorvete e começou a devorá-lo com a fome de uma existência, saboreando com a língua morna cada pedaço, todo ele no seu hoje. Porque hoje ela sabia o que fazer.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s