Ele e ela

Ela se olha ao espelho. Admira os arcos de seu corpo, o cabelo loiro escovado caindo pela escápula, na ponta dos pés para se entrever melhor. Suas pernas: sustentação frágil e ferina. Coloca a camisola, negra, algo translúcida, acaricia  levemente a cintura e os seios, sabe ser cortante, incontestável. Parece queimar ao contato com o creme hidratante que percorre suas coxas. Embalsama-se de desejo.

Antes de abrir a porta, ouve o som do interruptor no quarto. É a luz que se apaga, ele a aguarda. Será toda para ele, mas precisa do clima, ele precisa da espera. Pára um instante, deixa ele adivinhar seu perfume, o que veste, o que traz nos olhos. Ouve o deitar na cama, suspira.

Alguns minutos depois, sai em passos vaporosos, quase flutua. Será submissa. Ouve um grito. Apreensão. Segue-se um palavrão. O quê? Ele está na cama, retesado, colérico, olhar fixo no aparelho de televisão, tendo em mãos um pequeno objeto capaz de amolecer a ambição dela, de conter sua febre: um joystick.

Não se trata de brincadeira íntima. Ele está mesmo absorto no videogame e nem a percebe deitar-se em seu lado da cama. Ela acende a luminária, agarra-se com o livro da cabeceira, coloca os óculos de leitura e prossegue. Ela também sabe se perder.

Assim avança o diálogo das duas almas, diariamente. Ele à esquerda, ela à direita. Ele, ao banho, ela com a pasta de dente. À mesa, ela café, ele leite. No carro, ele notícia, ela música. Ele dia, ela noite. Ele, berro. Ela, silêncio.

Um quer praia, outro quer sossego. Um quer folha, outro pizza. Um quer céu, outro quer terra. Um diz olá, outro adeus, como se fosse música. Sem ensaio.

Mas diversificar é preciso. Essa noite, ela não disse nada. Não quis acompanhar a emoção do joguinho, nem comentar sobre a história que lia. Nem deu boa noite ou beijinho. Adormeceu com o livro ao colo, sonhando com o personagem preferido.

Acordou, porém, na madrugada: sem livro, sem os óculos, porém coberta por edredon e um corpo quente a beijar o seu. Em seus ouvidos, foram segredadas uma ou outra palavra de amor. Suas mãos foram agarradas com sofreguidão. A TV estava desligada, dando lugar a outros sons, que somente ele e ela poderiam produzir.

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