Para onde vão os avós?

– Onde você tá, menina?

Parada à porta, sem afoiteza em dar o próximo passo e adentrar a casa, ela ainda ensaiava subir o único degrau que a conduziria primeiro à cozinha e depois à sala, onde seu dia se transformaria. O cheiro de feijão cozinhando se misturava com a voz da Ofélia ensinando alguma receita; a frieza do piso e a espera prevista anunciavam que hoje, ainda hoje, ela sentiria a mesma dor.

Com o caderno na mão, a avó anotava displicentemente os ingredientes. Já sabia, já conhecia, era só para confirmar aquele prato também. Nem levantava os olhos, tinha função, tinha horário e aquela menina carregava alguma coisa que ela nem desconfiava o que seria, mas despertava uma certa saudade de algo fugido.

– Espera um pouco, menina.

Era menina perdida; similarmente, mal erguia seus olhos, por ausência de ousadia. Em mãos, carregava o pente de cabelo e os elásticos para prendê-lo. O corpo miúdo se posicionava no sofá, com rigidez suficiente para não ser imediatamente notada, mas o medo a tomava em tal gravidade que quase a fazia tremer, logo não passaria despercebida. Hoje ela teria seus cabelos desembaraçados.

– Senta mais pra cá, menina.

Quando era chegada a hora, a televisão perdia a honra de ser personagem principal na sala, cada som se desfazia, os olhos da menina atravessavam a imagem sem reconhecê-la, pois interesse não existia, olhos marejados, esses sim, havia em demasia. Puxa, puxa, estica, estica, enrosca, enrosca, solta, retoma, desfrisa, desfrisa, o couro fica, mas parece que vai…

Não se ouvia o gemido, mas era um semblante penoso que a pequena esboçava. E se pudesse fugir…correr sem ser perseguida…gritar ou gemer baixinho, será que seria acolhida? Será que alguém a salvaria?

– Tem que cuidar desse cabelo, menina.

Mas nada fazia e a cabeça seguia os movimentos do pente, puxando cada fio com a potência dos braços da senhora, interrompida em suas horas de entretenimento. Estabelecia-se, assim, um pacto jamais compartilhado com a família: o silêncio das madeixas desemaranhadas era coroado por uma prece silenciosa para ambas: de que aquilo acabasse logo, para que cada uma seguisse seus caprichos, seu rumo, seu dia.

Quando a menina saía, continuava sem lágrimas, sem vínculo, mas com os fios negros lisos e ordenados, às vezes presos em marias chiquinhas. Tanto a viver, por que se preocupar com o abraço que não veio, com a palavra que não foi dita, com a risada que nunca foi dividida?

Alguns anos se passaram e aquelas manhãs se modificaram. Nada de pente, nem puxadas de cabelo, embora Ofélia ainda ensinasse receitas em sua Cozinha Maravilhosa. Nada de força nas mãos, de fala inteligível por um tempo, nada de marcha firme, e nem pela responsabilidade da avó o feijão cantava mais na panela de pressão. Não era fim, mas um silêncio já sem o pacto.

Eram avó e neta vivendo cada uma sua própria mutilação.

A menina, que tanto medo tinha, cresceu e já pouco teme, embora nem sempre se lembre de alinhar os cabelos. Mas hoje a dúvida é dela e quando as lembranças surgem, ela ainda se pergunta, sem esperar muito tempo por resposta:

– E você, , onde está?

2 comentários sobre “Para onde vão os avós?

  1. Lendo essa história viagei nela… lembrei muito da minha infância…Feliz é aquele que compartilha seus momentos ao lado dos seus avós…Super curto seus livros

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s