Re…(tomando, construindo, adaptando)

Não é trabalho imediato se atirar ao novo quando o velho já não funciona tão bem, ao que é diferente; mudar de margem para seguir um rumo mais aprazível, jogar-se pela janela sem saber o que vai encontrar lá embaixo, seguir uma nova linha, menos reta do que a anterior.

Não é fácil esvaziar os bolsos dos medos que a gente leva consigo por anos consecutivos. Nem cortar as mechas que não crescem bem, imaginando um recomeço. Renascer não é moleza, implica em ter morrido previamente, mesmo que metaforicamente, e soa doloroso, afinal, não se busca voluntariamente chegar ao fim dos trilhos.

Nem sempre se tem a chance de apagar o que estava escrito na lousa, no caderno, no coração. Algumas letras viram tatuagens na alma lembrando a gente, de tempos em tempos, dos desacertos, deslizes e arrependimentos passados e, mesmo que se escreva por cima uma nova história, a marca fica, fina e escondida, mas perene.

Enquanto isso, enquanto as negações e bloqueios diários tomam vida e reprimem a nossa vida, as oportunidades vêm e vão, nem sempre voltam.

Então a gente acha que nunca seria capaz de escrever um romance; que nunca seria capaz de publicar uma palavra sequer; que não conseguiria emagrecer, ser mãe, entregar-se a um amor, correr, ser livre. A gente acha que não seria capaz de doar-se a si mesmo, de respeitar a si mesmo e deixar fluir. A gente acha que jamais seria capaz de pedir ajuda e assumir as fraquezas. A gente acha que dormir no escuro e escutar todos os sons do planeta seria um problema, quando, na verdade, o problema é o silêncio, são as trevas que moram ali dentro, que gritam pedindo para ficar. Mas é possível deixá-los partir.

Estamos sempre começando. Continuaremos. E seremos interrompidos. Quem nos obstrui pode ser um desânimo, uma descrença, uma atitude impensada, uma palavra sem cuidado. Ao que parece, quem nos paralisa somos nós mesmos, pois é tão mais simples parar.

É hora de retomar. Há muito romance para escrever, muita sede para esgotar, muita paz para conquistar e muita vida para iluminar. As horas perdidas ficarão para trás, mas o relógio não parou e o tempo pode novamente ser um grande aliado.

Ninguém solta a mão…

“O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”
(Drummond)

Não sou nenhuma Clarice, mas peço permissão, por meio dessas linhas, para que me empreste sua mão.

Não peço muito, só que ampare a minha mão por alguns minutos, em algumas noites dilatadas e frias como essa, em que a gente não sabe muito bem o que dizer, e quando termina por se revelar, perde o freio para calar…

Venha comigo, mão sobre a minha, atreladas em concordância, que a gente nem precisa seguir o mesmo caminho se olharmos para o mesmo cume, o mesmo plano, o mesmo fim. Só que, à medida que sentir que não nos desprenderemos tão cedo (hora é cedo, hora é agora), olhe também os meus olhos e anseie junto a eles pela primavera.

De mãos escoradas, é muito mais viável erguer-se.

Venha e pule os muros que nos separam, encare o diferente junto a mim. É seu também esse medo que carrego, são suas essas chagas sem prazo para cicatrizar, sua vontade se une a minha e fica mais fácil acreditar.

Acreditar…não sei bem em quê. Pode me ensinar, se nossas mãos estiverem bem apoiadas uma na outra?

Sei que também perdeu, que também algo ficou esquecido dentro de si; que seu tempo ficou para trás, que suas crenças já não lhe servem mais e que seu corpo parou com receio de se desequilibrar novamente e sem rumo, sem controle do depois.

Então pegue a minha mão, vamos juntos. Só peço que não me detenha, se tiver a intenção de largá-la em breve, pois com urgência já vivi e agora quero calma, passo lento, mal sei onde chegar.

Se carrega o perdão, então segure firme minha mão.

Se a alma se guia de tolerância, por favor, não afrouxe sua mão.

Se seu abraço faz da tristeza um choro manso em partida, preciso que se mantenha.

Só o tempo não carregaremos conosco, esse escorre, mas também nos atiça; iremos atrás dele, não para recuperá-lo, mas para jamais perdê-lo de vista.

Segure a vida em nossas mãos, segure amor em cada mão; já que vida morre, eu sei, mas amor, juro por cada dedo, esse não.