Paciência, meu amor, paciência, por favor

“Não se afobe, não, que nada é pra já”

(Chico Buarque)

Tenha calma, a próxima notícia já vem, o próximo post pode esperar, ninguém vai a lugar nenhum tão rapidamente, o mundo não irá, de fato, mudar. Fique comigo um momento, temos muito para conversar.

Fico até embaralhada com a enxurrada de informações de que constituem os dias, com tudo pronto e já digerido se apresentando à vista, aos ouvidos; palavras fáceis, notícia pronta, zero trabalho para buscar, pesquisar; as respostas simplesmente pulam pela tela do computador/celular, basta que se digite a frase exata de “como eu faço para conseguir qualquer coisa?” ou “o que fazer quando isso acontece comigo?”.

Estamos todos amplamente conectados no trabalho e na vida pessoal. Vivemos o agora, a vida no hoje, envolvidos pela cultura do presentismo, do supérfluo e fugaz, das relações superficiais. E a urgência do universo ao nosso redor não nos permite esperar, solicitando rapidez para responder a toda e qualquer novidade, automaticamente nos cobrando a dar conta de tudo que surge.

E o imediatismo é isso, por definição: tudo aquilo que se faz na busca do agora, sem pensar nas consequências. Mas, se tudo muda de forma tão veloz, como fazer planos? Se é preciso viver o momento atual, como se lembrar do que já foi? Passado e futuro perdem a importância, e a dificuldade em esperar traz junto um pacote completo que os profissionais da área de Saúde Mental já conhecem bem: impaciência, ansiedade e falta de ponderação.

E daí que novas tecnologias apareçam diariamente de maneira sedutora a ponto de parecer essenciais? Sim, o novo atrai, não vou relutar. Mas quero o novo que transforme, que traga evolução e melhoria. Não acho que modismos entrem nessa categoria. Não sei se a notícia pontual e informal em cinco linhas me enriquece com tudo que preciso saber; não sei se o texto em prosa sem cuidado com a linguagem satisfaz minha sede literária; não sei se a música mais reproduzida nas paradas de sucesso acalenta meus ouvidos quando me sento para divagar…

Possa o tempo acelerar e exigir pressa, mas vamos com Lenine, na bossa, na valsa, fugindo do funk, do heavy, do hard. Ainda prefiro as minudências dos atos sutis. Para entender, conhecer, não é preciso ter afoiteza. Afinal…não dá pra engolir um bom café queimando as entranhas; um livro precisa ser sentido, página por página, com as palavras sendo ruminadas, não importa o estilo; uma grande amizade não se forma ou se mantém com mensagens prontamente visualizadas e respondidas no whatsapp; um abraço só é abraço de verdade se for longo; as melhores conversas começam com papo-aranha, papo-furado; a melhor transa demanda um bom tempo investido nas preliminares e um bom vinho…ah, esse é clichê, tempo e espera, essa é a fórmula.

As melhores coisas são curtidas, feitas bem devagar. Então, fique aqui mais um pouquinho e depois role a página, sem piscar. Enquanto isso, deixe a hora correr…deixe a vela apagar…deixe o amor acontecer…deixe a canção terminar…deixe o amanhã chegar.

 “Uma das grandes desvantagens de termos pressa é o tempo que nos faz perder”

(G.K. Chesterton)

 

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