Amor de todo jeito

“A medida do amor é amar sem medida”

(Santo Agostinho)

Ama-se com abraços, com ‘euteamos’ sem aviso prévio, vindos de alguma profundeza não acessível. Ama-se com ‘euteamos’ gritados e também com ‘euteamos’ calados.

Ama-se limpo, sujo, sangrando, molhado, enterrado e entrevado; depenando-se ou se desfiando a cada dia, desenovelando-se pela sala, meio sem rumo.

Ama-se de mãos dadas e de mãos atadas; com mãos distantes, separadas por uma tela, conectados por um dispositivo. Ama-se também de mãos livres, sem reprimendas ou pudores.

Ama-se aqui dentro e lá fora, com luz apagada ou com um Sol eclodindo, com porta fechada, ou escancarado em banho de lua; ama-se enquanto outros dormem, ama-se com o mundo desperto, mesmo que em cegueira.

Ama-se com cautela, com carinho no rosto e com cheiro no pescoço; mas também ama-se com unha afiada cravada no peito, arrancando os pêlos e as cascas das feridas; ama-se arrancando pedaços com os dentes, que é para ver se rouba um pouco da carne amada para si.

Ama-se com tempo, saboreando o melhor vinho, mas o mesmo amor surge com pressa, como se fosse não pudesse adiar, como se a vida se extinguisse e o amor sobrasse sozinho, vagando sem dono por aí.

Ama-se em qualquer estação: debaixo das cobertas no inverno; de braços abertos à sombra das árvores na primavera; com os raios de sol incidindo na pele úmida durante o verão; no cair das folhas e na transitória desesperança do outono, sabendo que os dias difíceis precisam acontecer para que outros surjam melhores e com mais poder.

Ama-se usando de todos os sentidos, de todas as partes do corpo, com boca, ouvidos, toque, olhos, dedos e orifícios. Ama-se com a mente explicando, ama-se com o coração negando, ama-se conectando-se com seus desejos  e ultrapassando limites, desatrelando-se do mundo ao redor, quando se transcende num encontro de almas.

Ama-se com todos os verbos no gerúndio: odiando, querendo, suspirando, afastando, desentendendo, subentendendo, chorando e rindo com diferença de instantes, berrando, perdendo-se, não raciocinando, explicitando, pintando, escondendo, cantando, cuidando, nascendo, adotando, namorando, admirando, perscrutando, torcendo, viajando, escrevendo, lendo, criando, produzindo, poetizando, enlouquecendo, exagerando, esticando, encolhendo, salvando, salivando, correndo, brincando, plantando, cozinhando, contemplando, permitindo, experimentando, encorajando, ensinando e aprendendo, ouvindo, devorando, doando, dialogando, perdoando, condiando, ama-se até mesmo partindo, esquecendo, deixando ir…

Ama-se evitando, ama-se quando não se quer amar, alvo errado, tente impedir o quanto puder, nada funciona, o amor simplesmente vem e como fazer ir embora?

Se o amor estiver sobrando, dá pra usar hora ou outra, guarde na gaveta e vá usando os estoques, sem economia. Se estiver perdendo, reconstrua-se e ame de novo, do novo, olhando para frente. Se estiver doendo, dá para curar se amando mais. É possível amar de todo jeito, sem fórmula ou cálculo matemático e não há nada melhor para a saúde, em tempos de insegurança, do que um amor inteiro, sem forma e sem tamanho, do jeito que couber…

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