Recado

É com você que quero falar.

Você que se olhou no espelho e não vislumbrou a imagem desejada.

Você que abriu um livro ávido por informação, mas não conseguiu se concentrar na primeira linha.

Você que se conduziu por um caminho diferente do habitual, mas sequer conseguiu perder-se.

Você que calçou meias grossas e enluvou o coração, esperando por neve em uma manhã completamente ensolarada.

Você que ouviu um elogio e checou atrás de si, duvidando que o mesmo fosse direcionado para você.

Você que cantarolou sua canção favorita, mas esqueceu o refrão.

Você que leu diários e cartas do passado, mas não se lembrou exatamente de quem costumava ser.

Você que, ao acordar, fez uma longa lista mental de atitudes a tomar ao longo do dia e já são 16h e você nem saiu da cama.

Você que ouve o telefone tocar, sem atendê-lo, com medo de ter que contar meias verdades.

A você, querido amigo, tenho que dizer: espere. Sua hora não é ontem, esse já se foi. O hoje já está acabando, mas amanhã…ah, o futuro lhe trará a beleza que não sabe ver, o calor difícil de sentir, a firmeza de seus atos e a verdade sem compromisso para poder abrir os lábios, os olhos, o corpo. Apedreje as sombras, suavize seu sono e desperte mais tarde. Mas só amanhã.

O não sentir

Eu me depreciei e me iludi. Eu me apequenei e me feri. Eu me julguei e me escondi. Eu me senti incapaz e me puni. Eu me acovardei e fugi. Eu me despi e mesmo assim ardi de calor. E quando me vesti, morri de frio. Eu falei demais e não ouvi os gritos daqui de dentro. Eu abri bem os olhos, sem saber para onde mirar. Eu atirei com a certeza de que o crime compensaria. Eu me arremessei certa de que flutuaria. Eu quase sufoquei então corri a esmo. Eu escorreguei e no chão adormeci. Eu adiei e não vi as horas voarem. Eu me desmontei e perdi algumas peças. Após remontar-me, perdi o sentido e a função. Eu me boicotei em cada decisão e desapeguei. Eu arrumei meus planos, mas não fui a lugar algum. Eu me apavorei e diminuí o passo. Eu me entristeci e apartei os laços. Eu somente me suportei, com as pernas oscilantes. Eu parei de lamentar a dor e nada senti.

Nada mais senti.

Ele e ela

Ela se olha ao espelho. Admira os arcos de seu corpo, o cabelo loiro escovado caindo pela escápula, na ponta dos pés para se entrever melhor. Suas pernas: sustentação frágil e ferina. Coloca a camisola, negra, algo translúcida, acaricia  levemente a cintura e os seios, sabe ser cortante, incontestável. Parece queimar ao contato com o creme hidratante que percorre suas coxas. Embalsama-se de desejo.

Antes de abrir a porta, ouve o som do interruptor no quarto. É a luz que se apaga, ele a aguarda. Será toda para ele, mas precisa do clima, ele precisa da espera. Pára um instante, deixa ele adivinhar seu perfume, o que veste, o que traz nos olhos. Ouve o deitar na cama, suspira.

Alguns minutos depois, sai em passos vaporosos, quase flutua. Será submissa. Ouve um grito. Apreensão. Segue-se um palavrão. O quê? Ele está na cama, retesado, colérico, olhar fixo no aparelho de televisão, tendo em mãos um pequeno objeto capaz de amolecer a ambição dela, de conter sua febre: um joystick.

Não se trata de brincadeira íntima. Ele está mesmo absorto no videogame e nem a percebe deitar-se em seu lado da cama. Ela acende a luminária, agarra-se com o livro da cabeceira, coloca os óculos de leitura e prossegue. Ela também sabe se perder.

Assim avança o diálogo das duas almas, diariamente. Ele à esquerda, ela à direita. Ele, ao banho, ela com a pasta de dente. À mesa, ela café, ele leite. No carro, ele notícia, ela música. Ele dia, ela noite. Ele, berro. Ela, silêncio.

Um quer praia, outro quer sossego. Um quer folha, outro pizza. Um quer céu, outro quer terra. Um diz olá, outro adeus, como se fosse música. Sem ensaio.

Mas diversificar é preciso. Essa noite, ela não disse nada. Não quis acompanhar a emoção do joguinho, nem comentar sobre a história que lia. Nem deu boa noite ou beijinho. Adormeceu com o livro ao colo, sonhando com o personagem preferido.

Acordou, porém, na madrugada: sem livro, sem os óculos, porém coberta por edredon e um corpo quente a beijar o seu. Em seus ouvidos, foram segredadas uma ou outra palavra de amor. Suas mãos foram agarradas com sofreguidão. A TV estava desligada, dando lugar a outros sons, que somente ele e ela poderiam produzir.

Não quero enlouquecer

É até razoável controlar essa loucura que me habita, embora as obsessões, compulsões, mecanismos de fuga e, principalmente a sensação de ser uma fraude itinerante dominem os instantes. Mesmo assim, é manipulável, já que as testemunhas não adentram meu íntimo de enganos.

Já se sentiu dentro de uma sacola planando e recomeçando todos os dias? Já se sentiu tão instável quanto um brinquedo montado com peças de Lego nas mãos de uma criança de 3 anos?

Que medo de descarrilhar, que medo de me desfazer!

Enquanto reconheço que tamanho desconcerto pode se transformar em camadas variáveis de loucura, a vida passa por mim e finjo consertar uma coisinha ou outra.

Mas será que minha lucidez traria algum benefício ao mundo que me costeia? Não seriam necessários alguns golpes de maluquice para delinear destinos mais inteiros?

Não sou uma bola de canhão, não estou em chamas, minhas asas estão na oficina e não sei se reaprenderei a voar.

Então vou a pé, caminhando com bem pouca pressa, pois mesmo que demore um tanto, é certo que irei chegar.

Obrigado

A rajada esbofeteando seu rosto enquanto caminhava na rua, de volta para casa, tinha nome. Ela tinha certeza de que se chamava agora. Assim como o caminho prolongado, o panfleto esvoaçante, o barulho distante da sirene que seus ouvidos insistiam em captar, tudo isso era agora.

Enquanto se alastrava pelas calçadas, tinhas as mãos firmemente fechadas, numa tentativa de esmagar o que tivesse ali escondido em suas mãos. Não ousava revelar a si mesma que tinha, na verdade, as mãos vazias. Pois depois da despedida, sentiu que precisava carregar algo consigo.

Deixara-o parado, algo partido, após ambos sussurrarem em uníssono o mesmo som, sem ensaio prévio: obrigado.

– Obrigado…obrigado…obrigado…

Talvez retornasse, agora que conhecia o caminho. Por ora, comprou um sorvete e começou a devorá-lo com a fome de uma existência, saboreando com a língua morna cada pedaço, todo ele no seu hoje. Porque hoje ela sabia o que fazer.

A impostora

Queimou os olhos ao despertar. Foi quando tocou cada pálpebra com as mãos e elas se afastaram escaldantes. Já seu corpo não conseguiu se conter em si mesmo e suplicou abafado por separação: não queria mais conviver com o raciocínio febril que dominava cada manhã exaustivamente. Se nada fizesse para reformar essa rixa, seria fim, caminho em sentidos opostos, corpo e mente não mais poderiam coexistir no mesmo posto.

Sabemos nós que dentro dela reside uma impostora, uma farsa em si mesma. Não sabe sorrir, desaprendeu a chorar, que personagem desinteressante é esse que se tornou? Tanto faz se dorme ou se segue a vagar despertada, pois trata-se apenas de um corpo quente, não consumido por chamas por pouco não apagadas.

Qual foi o último pensamento que lhe surgiu ontem, às vésperas do torpor, não se lembra. Sabia que era oco, algum argumento bem vazio, que não fora capaz de concluir, pois agulhou sua pele sem trazer linha consigo, não houve remendo, veio só para cutucar. Ou para trazer a sensação de existência? Efeito avesso conseguiu, pois o sono veio e Olívia foi ficando cada vez mais longe; cada vez mais murcha, inerte, feito corpo moído e morto, pronto para o descanso final.

Com nada sonhou, disse a si mesma ao espelho, tamanha foi a impressão de falecimento. Mas ontem sim, sonhou que adorava uma estátua, uma estátua de cerca de dois metros, plúmbea, glacial e com o rosto desfigurado. Não reconheceu os traços, mas desejou atingir aquele rosto longínquo e sem alcunha, poderia estar ali para ser visto, mas também poderia ser dela. Poderia ter aparecido no sonho com o único propósito de pertencer a ela. E o que faria com a imagem, não sabia. Levaria para o quarto e deixaria ao pé da cama, para acordar todos os dias e fingir que estava sendo admirada? Mas nem olhos a figura possuía! Só queria poder tocá-la fora desse devaneio, queria mesmo senti-la viva, mesmo fria. Tinha o corpo nu. Se fosse dela, Olívia cobriria suas partes com um grande lenço, pois nem tudo necessita ser desvelado.

Seus cabelos caíam na altura dos seios, o suficiente para escondê-los caso esquecesse de colocar a blusa. Ora, por que esqueceria de se vestir!, pensou. Fez logo uma trança, seu jeito menos complicado e mais íntimo de se caracterizar e afastou a ideia de sair de casa desguarnecida. Antes de se afastar do espelho, quase teve certeza de ter divisado um clarão ao redor de si, que a fez parecer incontestável. Palpite vago foi esse, pois sem café mal podia se enxergar.

A sua casa era quase despovoada, com o essencial. As paredes brancas não pediam nenhum objeto que maculasse sua candura, como folhas em branco a serem desenhadas, mas sem pressa alguma.

O dia clamava para que ela se resfriasse aos poucos, desafogueasse os poros. Hoje ela precisava abrir a porta, passar a catraca e descer do trem com meta, sem titubeio. É hoje que ela talvez se engrene, porque o que quer é apagar as chamas e voltar ao mormaço dos dias.

Irá visitá-lo. Irá entregar-se à mesa, feito pacote rendido. Irá derramar tudo, de sombras a melindres e ele que lhe instrua, que lhe habilite a tornar-se proprietária da vida. Vou me buscar – esclareceu –, pois em algum lugar estive esquecida. Hoje seu plano era desvendar o que poderia fazer de si.

(Do conto Vim perguntar o que faço de mim – Francine S. C. Camargo e Flávio Luengo Gimenez)

Amiga

Ela é alguém que escuta seu silêncio sem monotonia no rosto, que enche de presença sua vasta solidão, que desarma seu grito com um sorriso quando seus vulcões internos resolvem bruscamente entrar em erupção.

Ela é alguém que tem liberdade para te dizer: vá! Pare! Pense! Chega! É alguém que se cala e segura sua mão quando não há mais o que dizer, que te telefona para pedir que pare de chorar, imaginando que sua cara esteja horrível, já que a voz revela o nariz entupido e, assim, não perde a oportunidade para ordenar que vá lavar o rosto, seguido de um “eu te amo”. Mais tarde, esse alguém vai assumir que também ficou com o nariz entupido, pois chorou junto, à distância. Continuar lendo

Eu enovelada de mim

O sono vem, mas a mente não desliga. Náusea, náusea. Tá faltando pão, passo na padaria pra buscar. Desde quando a sala está girando? Tá faltando queijo, vou ao mercado comprar. As mãos tremem, o corpo agita. Bocejo, bocejo. Tá faltando serotonina, passo na farmácia pra resolver, de algum jeito.

Viro a página, rolo a barra. Concentra aí. Alguém chama, alguém grita, serei eu? Não, aqui estou quieta, a casa sim está cheia, vida está solta, vida leve, vida minha que nem sei viver.

Rio agora, sem palavra, de um modo gelado, sem outro gesto. Frio, frio. O sol não quer entrar, então fique aí fora, que preciso fechar as portas, apagar as luzes, resetar…

Recomeço, junto as pontas, reúno as letras, faz sentido? Não, nada explica. Há quem durma apesar do barulho, há quem siga embora em solo infértil, há quem fique estagnado. E eu fico ali, bem no meio, entre um murmúrio e outro, enjaulada no inverno, ansiando a primavera, que é a única certeza a seguir.

Aquela moça

Sabe aquela moça sentada ao seu lado no metrô, com um livro em mãos, absorta em seu rumo? Parece a você que ela está seguindo para o trabalho ou colégio, e aproveita a ocasião para colocar em dia a leitura que não foi possível no final da noite, já que as suas pálpebras se esgotavam, pedindo encerramento. Deixe-me contar um segredo: os olhos dela atravessam as páginas, ela não está mais no metrô, pois ela não se entende em meio à multidão. Ela não queria ter que ir a lugar nenhum, ela não queria abrir os olhos hoje pela manhã e engoliu um café morno sentindo o amargor do dia.

Sabe aquela moça que cruzou algumas vezes com você no mercado, com o carrinho de compras vazio em todos as “quase colisões” e tinha em mãos um celular, do qual não tirava os olhos? Você imagina que é mais uma vítima de alguém detido em relações virtuais e talvez não consiga passar nem um minuto de seu dia sem imaginar se alguém irá curtir seu post. Uma confissão: ela olha para o aparelho em busca de uma palavra de conforto que não chega nunca, uma vez que todas as pessoas reais de seu convívio já foram embora e não se lembram mais de revê-la.

Sabe aquela moça que está a sua frente na fila do almoço e, pacientemente, escolhe o que servir em seu próprio prato e nada parece apetecê-la e, após tanta espera, chega à balança com quase nada, que o mesmo seria ter abandonado a fila e saído sem comer? Parece-lhe que é refém do peso, das dietas e constantemente lida com exercícios do qual odeia e o dramático confronto ao espelho. Tenho que lhe revelar: ela sabe que não adianta encher o prato, pois não irá conseguir deglutir nem mesmo aquele mínimo de comida que atirou nele. E tal feito tão simples não será logrado porque ela carrega na garganta o impacto de uma bola de perturbações que impedem que o novo seja engolido e, a todo momento, parece que irá ser expelida e deixá-la meio assim, completamente vazia.

Sabe aquela moça…? Ah, você não a viu no metrô, nem no mercado, muito menos no restaurante? Desculpe insistir, é que você a viu, sim, só não se afetou em olhá-la. Ela também nada viu, pois estava preocupada demais em manter-se em pé, e esse é o maior desafio com que ela afronta diariamente. Ela virou na esquina, trôpega em seus passos, enquanto você atravessou a rua e seguiu sua trilha, pois os deveres convocam e o metrô, logo mais, estará lotado. E o melhor a fazer é enevoar os olhos.