Querida ontem

Não sei ainda se sentia a sua falta ou se não poderia seguir adiante enquanto seus passos acompanhassem os meus, e é certo que fui perseguida todo o tempo. Chamava a você de ontem, minha forma original, meu corpo em cicatrizes, mostrando-me ao hoje que fui mais real do que supunha.

E nessa hora, no silêncio intrigante em que me encontrava, a vida atual clamava por mim, mas a vida já vivida veio fremir a minha paz com os equívocos que adormeciam em algum quarto dentro de mim: os deslizes cometidos, as palavras não ditas, as ações tolhidas pelo zelo em excesso.

O passado me implorava por Continuar lendo

Subterrâneo

Quando o carro adentra o túnel, eu me sinto só.

A pouca luz que me afronta os olhos se torna uma sombra de incertezas e não há passageiro a me fazer companhia.

Não sei que medo será esse que eriça os pelos do braço e me faz ponderar sobre minha finitude.

O percurso é retilíneo, plano, mas estremece em meu corpo a ideia nauseante de que precipitei em queda livre. Fico ali aguardando o momento em que meu corpo irá se dilacerar ao contato com o chão.

Tudo é negro e os sons distantes não ajudam, pois não chegam até mim. Sigo inconquistável e sem controle.

E quando a mente esvazia, os segundos voam, eis que o Sol retorna aos olhos, trazendo de volta o ritual de existir.

Saio do anonimato do subterrâneo e a solidão,  apartada, acena para mim, como quem aguarda o próximo encontro.

Muito

Há casas que ainda não foram habitadas. Há gente que não fala a mesma língua e nem língua alguma. Há línguas que não se soltam do céu da boca, e ficam ali amorfas e taciturnas, escondendo o não-dito.

Há nuvens de chuva que se concentram acima da janela. Há roupas no varal que nunca mais querem secar. Há presentes esperando pelo seu dono e encontros que jamais acontecerão.

Há paredes descascando no quintal e o sol queima o chão, esperando para aquecer os pés, mal o dia começou. Há corpos consumidos pelo cansaço, que teimam em não trazer o olhar para a rua, em casa estão com os pés gelados.

Há uma sede indomável coçando a garganta e, por mais que os dias passem, não passará. Há alicerces desmoronando e a sabedoria pode ficar, mas as dores invadem e não se pode mais seguir em frente. Continuar lendo

Aprendi que nada me impede de fazer do meu jeito. Fui ensinada a ser uma garota padrão. Sei agradecer com os olhos, sei negar com o silêncio, sei pedir com as mãos e me aquietar com um suspiro, mas se eu não disser, ninguém saberá. Ninguém vai saber, por exemplo, que sou um ser de mim mesma. Por isso disfarço, finjo-me pequena, para não amedrontar. Finjo-me acuada, mas porque quero fazer tudo ao meu modo. Só para não parecer eu.

Deserto em mim

Eu queria saber quem foi que inventou que a minha rua é deserta durante a madrugada. Tenho certeza de que quem disse essa calúnia ainda não sabe sonhar. Porque a verdade é que nessa hora não há paz. E as calçadas se povoam de lutas e conquistas, muitas festas e gritos, alguns felizes, outros perdidos; muitos heróis se despem e saem vociferando seus próximos intentos; muitas donzelas festejam com seus mais belos vestidos, enquanto fogem de suas prisões.

E eu, Menina Desejo, não posso sair. Digo, não quero sair. Porque eu prefiro sonhar.

Se não for agora, então quando?

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“E agora, José?
A festa acabou,
A luz apagou,
O povo sumiu,
A noite esfriou”
(Carlos Drummond de Andrade)

Vale despertar no agora, tempo esse fundamental. O presente é o momento da escolha e da ação, dizem os especialistas. Antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.

Pois enquanto criam-se castelos no ar, seus alicerces podem muito bem ser fundados no chão, em concreto puro.

Minas não há mais! E não me venham com lições de teogonia que a luz já se apagou.

Mas e se não der, não puder, não vier, não couber nesse tal de agora?

Agora já foi. Vale reiniciar sem compromisso, pois o depois já  assomou.

Pare e observe. As mãos se ocupam do futuro e o texto se recolhe. Mas a história, essa sim, continua.

Chão da nossa casa

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 “Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria? ”
(Caetano Veloso)

Livre não sou. O raciocínio reaviva a ideia de que sou livre sim, pois vou e volto sem amarras; eu me nutro de vida e pão, pão que eu mesma produzo. Mas, fisiologicamente, não posso ser livre, pois de alguém dependo, de algo dependo, só ainda não lhes dei nomes.

Se sou livre, gosto de me fechar no meu universo, entre quatro paredes, com as portas bem fechadas, para que o outro não entre e venha me ferir. Continuar lendo

Tempestade cerebral

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“Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela.”

(Clarice Lispector, em Tanta Mansidão)

Não venha regar minhas begônias, pois eu as quero íntegras, mesmo ressequidas. De dia sou Luiza e à noite, Carla, orgiástica, mas tanto faz, já que tenho medo de ser óbvia.

Tenho medo de cantar mal e não me fazer ouvir. Não me refiro à melodia, mas quando canto gosto de saber que meu corpo vibra e é vista uma luz emanada de dentro de mim, mesmo que a voz não ecoe.

Tenho medo de tropeçar e tombar. Insanamente acabo soltando um gritinho abafado, para que quem não assistiu à queda, possa notar-me estatelada ao chão.

E nada disso quer dizer eu mesma.

Sou aprendiz, mas se não souber o meu valor, nem você, principalmente eu, não adianta desgrudar os pés do solo, melhor criar raízes.

Talvez digam que não sou eu mesma, ou que não convém ser eu mesma. Porque política, futebol e religião não se discutem. Então me abstenho. Ora, mas como não falar se ainda estou me procurando por aí.

“Se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar quando eu me encontrar.”

E corro o risco de nunca mais ser vista.