Meu nome é Bruxa

Faça de mim uma Bruxa, meu Deus! – Pedia a menina em seu íntimo, em espera, olhando a Lua à janela, sem saber que uma Bruxa já habitava aquele espírito desde sempre.

Meu nome é Bruxa. Não fico nem de longe perfeita em um traje de princesa, pois há roupas que não conseguem ocultar minhas cicatrizes, espinhos, queimaduras e máculas. Mas é quando estou nua que a Lua reflete melhor em meu corpo, mostrando que sei ser plena, sei crescer, sei minguar e sei me esconder.

Chamem-me Bruxa somente, sem sobrenome, assim posso responder sem rodeios, já que minha mente não estaciona nem por instantes, já que não paro, já que me é difícil até estabilizar, pois vivo em ondas, em saltos, em tropeços, equilibro como posso, uma vez que o corpo me permite ousar.

Tenho imperfeições entranhadas: não posso ver com exatidão com meus olhos desfocados, alguns odores desertaram, minhas pernas, muitas vezes, falham e a altura me desperta algum pânico genuíno, mesmo assim, ainda sou Bruxa, já que vou, ainda que com medo; caminho, ainda que com dor; busco os sabores e perfumes, ainda que insegura do que possa encontrar. E fecho os olhos sempre, para melhor enxergar o que há dentro de você.

Sim, posso te ver, além das aparências. Seus sonhos e sombras são meu combustível, neles me embrenho para criar, ler, entender. Bruxa é meu nome, sou guardiã da escuridão, mas não me tema, sei curar feridas tanto quanto consigo confrontar seus terrores.

Apesar de Bruxa, não fujo das fogueiras, pois há uma Deusa a arder dentro de mim, que faz com que cante vigorosamente e sem margem e que procure as respostas bem fundo, onde quase não se alcança, onde mal consigo chegar.

“Faça o que desejar, sem a ninguém prejudicar”

Mas, mesmo Bruxa, também me esqueço e me perco de mim. E se demorar para voltar, se não fizer ideia de onde piso, se me isolar, mesmo assim carrego um altar dentro de mim, minha Essência, com uma lua a guiar. E mesmo que chore quieta, que grite, que me esfacele, de ritual em ritual hei de me abrir, hei de brilhar, porque Bruxa me fiz e sempre serei e nada haverá de me parar.

Romance para a vida

“Amar a si mesmo é o começo de um romance para toda a vida.”

(Oscar Wilde)

 Então eu a avistei com seus limites imprecisos.

De vez em quando, dou uma espiada aqui dentro, a fim de não me esquecer de mim e avaliar a quantas anda a minha baderna interna. Mentira. Olho o tempo todo. É que, em grande parte do tempo, não gosto do que vejo. Assim, busco algo mais concertado na periferia, já que o centro em si não me desperta orgulho. Mas sem magnetismo, desisto.

Olho para fora.

Toda a população ao redor é mais interessante. Todo o mundo tem luz própria, todos andam com passadas largas, com direcionamento. Mentira. Talvez estejam igualmente perdidos e ilhados em suas questões, mas parece que sinto suas dores, seus fantasmas e suas deserções. Tudo isso é mais chamativo, mais real. Tenho sede das pessoas e fome de sentir o que elas carregam.

Retorno a mim.

Dentro aqui enxergo escuridão em uma mente lúgubre, que habita um corpo incrédulo. Não vai a lugar nenhum, pois suas raízes estão fincadas profundamente na terra. Mas não há vazio, só que me vejo disforme, irreal, desconectada. O que me leva a ficar com a boca seca, mas não busco água. As entranhas estão ocas, mas o alimento já não nutre. Aqui há medos e gritos querendo ser expulsos em jatos, entretanto não é bonito o que tenho a expelir.

Amo o outro e isso me basta.

***

Caí. Estaquei. Adormeci. Silenciei. Resfriei. Anestesiei. Vedei. Enganei. Menti. Menti. Menti. Findei. Resisti. Levantei. Ousei. Berrei. Senti. Abri. Revelei. Articulei. Pari. Revivi.

Então a avistei, já com os limites bem definidos. Não entendi se era bonita, e sim autêntica. Não avaliei sua profundidade, mas parecia não acabar mais. Se estava certa, nem pensei, pois ela estava inteira. Nem bem legível ela era, mas me ocorreu estudá-la. Não me perguntei sobre o nível de sua força, pois meu intuito era carregá-la. Tampouco interroguei se aguentaria, pois eu a via drapejando em minha direção.

Era mais uma. Era o outro. Mas o maior disparate foi entender que era eu.

E assim pude começar minha história de amor.

O não sentir

Eu me depreciei e me iludi. Eu me apequenei e me feri. Eu me julguei e me escondi. Eu me senti incapaz e me puni. Eu me acovardei e fugi. Eu me despi e mesmo assim ardi de calor. E quando me vesti, morri de frio. Eu falei demais e não ouvi os gritos daqui de dentro. Eu abri bem os olhos, sem saber para onde mirar. Eu atirei com a certeza de que o crime compensaria. Eu me arremessei certa de que flutuaria. Eu quase sufoquei então corri a esmo. Eu escorreguei e no chão adormeci. Eu adiei e não vi as horas voarem. Eu me desmontei e perdi algumas peças. Após remontar-me, perdi o sentido e a função. Eu me boicotei em cada decisão e desapeguei. Eu arrumei meus planos, mas não fui a lugar algum. Eu me apavorei e diminuí o passo. Eu me entristeci e apartei os laços. Eu somente me suportei, com as pernas oscilantes. Eu parei de lamentar a dor e nada senti.

Nada mais senti.

Não quero enlouquecer

É até razoável controlar essa loucura que me habita, embora as obsessões, compulsões, mecanismos de fuga e, principalmente a sensação de ser uma fraude itinerante dominem os instantes. Mesmo assim, é manipulável, já que as testemunhas não adentram meu íntimo de enganos.

Já se sentiu dentro de uma sacola planando e recomeçando todos os dias? Já se sentiu tão instável quanto um brinquedo montado com peças de Lego nas mãos de uma criança de 3 anos?

Que medo de descarrilhar, que medo de me desfazer!

Enquanto reconheço que tamanho desconcerto pode se transformar em camadas variáveis de loucura, a vida passa por mim e finjo consertar uma coisinha ou outra.

Mas será que minha lucidez traria algum benefício ao mundo que me costeia? Não seriam necessários alguns golpes de maluquice para delinear destinos mais inteiros?

Não sou uma bola de canhão, não estou em chamas, minhas asas estão na oficina e não sei se reaprenderei a voar.

Então vou a pé, caminhando com bem pouca pressa, pois mesmo que demore um tanto, é certo que irei chegar.

Amiga

Ela é alguém que escuta seu silêncio sem monotonia no rosto, que enche de presença sua vasta solidão, que desarma seu grito com um sorriso quando seus vulcões internos resolvem bruscamente entrar em erupção.

Ela é alguém que tem liberdade para te dizer: vá! Pare! Pense! Chega! É alguém que se cala e segura sua mão quando não há mais o que dizer, que te telefona para pedir que pare de chorar, imaginando que sua cara esteja horrível, já que a voz revela o nariz entupido e, assim, não perde a oportunidade para ordenar que vá lavar o rosto, seguido de um “eu te amo”. Mais tarde, esse alguém vai assumir que também ficou com o nariz entupido, pois chorou junto, à distância. Continuar lendo

Eu enovelada de mim

O sono vem, mas a mente não desliga. Náusea, náusea. Tá faltando pão, passo na padaria pra buscar. Desde quando a sala está girando? Tá faltando queijo, vou ao mercado comprar. As mãos tremem, o corpo agita. Bocejo, bocejo. Tá faltando serotonina, passo na farmácia pra resolver, de algum jeito.

Viro a página, rolo a barra. Concentra aí. Alguém chama, alguém grita, serei eu? Não, aqui estou quieta, a casa sim está cheia, vida está solta, vida leve, vida minha que nem sei viver.

Rio agora, sem palavra, de um modo gelado, sem outro gesto. Frio, frio. O sol não quer entrar, então fique aí fora, que preciso fechar as portas, apagar as luzes, resetar…

Recomeço, junto as pontas, reúno as letras, faz sentido? Não, nada explica. Há quem durma apesar do barulho, há quem siga embora em solo infértil, há quem fique estagnado. E eu fico ali, bem no meio, entre um murmúrio e outro, enjaulada no inverno, ansiando a primavera, que é a única certeza a seguir.

O beijo

Mãos unidas, corpos resvalando, sinto sua essência tão próxima de mim, sua boca me convoca em sopro perfumado, e a pele vivencia o mormaço de seu hálito. Aguardo ansiosa o batismo dos seus lábios, aglomerando-se nos meus, feito colisão frontal, sem cálculo, sem premência, com devoção ausente de embaraço.

Esse toque me acode, surge para coexistir junto a mim, eu que não sei ser deserta, eu que suplico contato. Chega para invadir meus impérios, tomar posse, traz junto seu odor, sua saliva, sua língua, seus olhos cerrados embrenhando-se em minhas trevas.

Nada mais se enquadra no espaço de um beijo, nenhum segredo cala, por fim, nossa comoção e outras formas de linguagem se esvaecem. Vou e retorno da amplidão ao abismo em um mero átimo e não me interessa mais outra direção tomar.

Não me solte, não lacere minha alma ao desvencilhar-se de meus lábios. Quero persistir nessa viagem, excursionando em seus sentidos, perdendo-me na falta de juízo e desprovida de qualquer inquietação, deixando a noite cair…

Bora correr

Ele passa de peito aberto, apesar do porte miúdo, com o par de tênis violeta, o calção preto meio justo e a pressa do atleta que tem as horas correndo atrás de si. O bom dia é tão afoito quanto sua pernada, e na mente o dia inteiro já se desenvolveu, tudo cuidadosamente planejado, mesmo que o relógio ainda aponte 07:30.

Ela corre despercebida dos arredores, blusa branca, tornozelo encorpado, o cabelo esvoaçando num rabo de cavalo a acompanhar seu movimento. Não é nada fácil, ela pensa, vou conseguir, não aguento mais. Só mais um pouquinho. Sabe que depois de tanto esforço não poderá se conter ao encarar o pão fresquinho com cheiro de convocação, a fatia de queijo, o pedaço de bolo, o café com açúcar. São 07:35 e ela já cogita se render.

Já a outra caminha curiosa, olhar para tudo, olhar para nada. Chama a atenção de quem por ela passa para o pato que contempla a lagoa, para a flor vermelha, cujo nome não sabe definir. O que ela queria mesmo era vestir-se de verde, ter asas e nadar em água calma. Mas os minutos não podem se exceder e ela já pensa no almoço, na organização da casa, pois já são 07:40.

Ele, com seu corpo delgado, os cabelos em neve, a postura linear, sabe que não está só, mas não se deixa alcançar. Sua voz é levada com o vento, mesmo que as palavras não se voltem para ninguém em específico. A marcha é veloz pois a linha imaginária de chegada está fora de alcance. São 07:45 e ele não vai parar.

Eu ainda não sei qual é a minha urgência, mas corro ao som agudo emanado pelo fone de ouvido. Todos os passantes me fazem companhia e cada história é um pouco minha. Vou também de peito aberto, alternando curiosidade e descaso; também clamo meus ais ao vento e penso em desistir incontáveis vezes ao dia. Meu passo é menos firme que meus atos, mas sigo assim mesmo. São 08:00, a manhã não tarda a acabar e ainda pretendo sonhar um tanto mais.

A criança de lá

Não sei bem de onde vem a melancolia. De algum lugar escuso, muito bem guardado, onde ela faz moradia, em comum acordo e com contrato assinado, de modo a não ser expulsa de lá quando eu me canso dela.

Ela fica nesse dormitório secreto desde a forma embrionária, como se sempre fosse assim; tal como são castanhos escuros os olhos, tal como foi determinada a mancha no joelho, assim como são as coisas simplesmente.

O embrião formou um ser, veio ao mundo, cresceu. Olho de cá para lá e lembro da menina, que tinha medo de tudo e pouco se aventurava. Achava que abrigava um tesouro adulterado que não poderia interessar a ninguém. Ela olhava o futuro com desesperança, indignação, relutância e uma boa dose de temor em ser ferida.

E se essa garota olhasse de lá para cá, o que veria?

As neuras são muito semelhantes. O fascínio pelo mundo é o mesmo, porém salpicado de mais sal e pimenta. A vontade de se doar aos outros é infinitamente maior.

Aquela menina teria orgulho.

Ela teria orgulho de ter se libertado, de ter ido atrás de seus sonhos, de ter tido coragem para longe ir. Orgulho de ter se entregue a si mesma, inclusive na tentativa de entender suas próprias dores.

 

Prece leiga

Hoje é o meu silêncio que suplica, consumido pelos gritos que não soube emitir. Embora laica, muito tenho a reivindicar, pretender e soluçar. Mas me curvo, novata, em prece de gratidão e é o meu coração a ecoar e falar por mim:

Agradeço pelos melhores dias, às grandes descobertas, aos momentos de iluminação e aos sopros ao ouvido que vêm me ser companhia, como faíscas de inspiração.

Agradeço pelas horas de desespero, por não encontrar saídas, soluções, por me ver sem recursos, pois quanto mais perdida estiver, mais intenso será o reencontro; quanto mais Continuar lendo