Muito

Há casas que ainda não foram habitadas. Há gente que não fala a mesma língua e nem língua alguma. Há línguas que não se soltam do céu da boca, e ficam ali amorfas e taciturnas, escondendo o não-dito.

Há nuvens de chuva que se concentram acima da janela. Há roupas no varal que nunca mais querem secar. Há presentes esperando pelo seu dono e encontros que jamais acontecerão.

Há paredes descascando no quintal e o sol queima o chão, esperando para aquecer os pés, mal o dia começou. Há corpos consumidos pelo cansaço, que teimam em não trazer o olhar para a rua, em casa estão com os pés gelados.

Há uma sede indomável coçando a garganta e, por mais que os dias passem, não passará. Há alicerces desmoronando e a sabedoria pode ficar, mas as dores invadem e não se pode mais seguir em frente. Continuar lendo

Aprendi que nada me impede de fazer do meu jeito. Fui ensinada a ser uma garota padrão. Sei agradecer com os olhos, sei negar com o silêncio, sei pedir com as mãos e me aquietar com um suspiro, mas se eu não disser, ninguém saberá. Ninguém vai saber, por exemplo, que sou um ser de mim mesma. Por isso disfarço, finjo-me pequena, para não amedrontar. Finjo-me acuada, mas porque quero fazer tudo ao meu modo. Só para não parecer eu.

Deserto em mim

Eu queria saber quem foi que inventou que a minha rua é deserta durante a madrugada. Tenho certeza de que quem disse essa calúnia ainda não sabe sonhar. Porque a verdade é que nessa hora não há paz. E as calçadas se povoam de lutas e conquistas, muitas festas e gritos, alguns felizes, outros perdidos; muitos heróis se despem e saem vociferando seus próximos intentos; muitas donzelas festejam com seus mais belos vestidos, enquanto fogem de suas prisões.

E eu, Menina Desejo, não posso sair. Digo, não quero sair. Porque eu prefiro sonhar.

Se não for agora, então quando?

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“E agora, José?
A festa acabou,
A luz apagou,
O povo sumiu,
A noite esfriou”
(Carlos Drummond de Andrade)

Vale despertar no agora, tempo esse fundamental. O presente é o momento da escolha e da ação, dizem os especialistas. Antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.

Pois enquanto criam-se castelos no ar, seus alicerces podem muito bem ser fundados no chão, em concreto puro.

Minas não há mais! E não me venham com lições de teogonia que a luz já se apagou.

Mas e se não der, não puder, não vier, não couber nesse tal de agora?

Agora já foi. Vale reiniciar sem compromisso, pois o depois já  assomou.

Pare e observe. As mãos se ocupam do futuro e o texto se recolhe. Mas a história, essa sim, continua.

Chão da nossa casa

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 “Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria? ”
(Caetano Veloso)

Livre não sou. O raciocínio reaviva a ideia de que sou livre sim, pois vou e volto sem amarras; eu me nutro de vida e pão, pão que eu mesma produzo. Mas, fisiologicamente, não posso ser livre, pois de alguém dependo, de algo dependo, só ainda não lhes dei nomes.

Se sou livre, gosto de me fechar no meu universo, entre quatro paredes, com as portas bem fechadas, para que o outro não entre e venha me ferir. Continuar lendo

Tempestade cerebral

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“Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela.”

(Clarice Lispector, em Tanta Mansidão)

Não venha regar minhas begônias, pois eu as quero íntegras, mesmo ressequidas. De dia sou Luiza e à noite, Carla, orgiástica, mas tanto faz, já que tenho medo de ser óbvia.

Tenho medo de cantar mal e não me fazer ouvir. Não me refiro à melodia, mas quando canto gosto de saber que meu corpo vibra e é vista uma luz emanada de dentro de mim, mesmo que a voz não ecoe.

Tenho medo de tropeçar e tombar. Insanamente acabo soltando um gritinho abafado, para que quem não assistiu à queda, possa notar-me estatelada ao chão.

E nada disso quer dizer eu mesma.

Sou aprendiz, mas se não souber o meu valor, nem você, principalmente eu, não adianta desgrudar os pés do solo, melhor criar raízes.

Talvez digam que não sou eu mesma, ou que não convém ser eu mesma. Porque política, futebol e religião não se discutem. Então me abstenho. Ora, mas como não falar se ainda estou me procurando por aí.

“Se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar quando eu me encontrar.”

E corro o risco de nunca mais ser vista.

 

Quando as asas se quebram

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Entre na minha vida com sutileza.

Eu estava voando e, repentinamente, percebi que a trajetória traçada, antes já sinuosa, transformou-se em um completo ziguezague, cujo ponto de pouso é traiçoeiro. Quando olhei para trás, minhas asas estavam partidas e, até então, eu pensava que era o vento que sobrecarregava meu corpo.

Não me desacredite.

Mas é mais fácil negar que não tenho mais abrigo. Finjo que o consolo está presente e me abandono nessa inocência, mesmo que a rachadura seja facilmente observada ao reflexo do espelho.

Meu adeus não é reversível.

Tantas vezes procurei aquela paz das confidências e a linguagem foi parceira até o momento em que resolveu ferir e a palavra ficou perdida, sílaba a sílaba separada, feito cristal fendido.

Depois dos cacos, renovação.

E hoje quero me reencontrar comigo mesma. Deixo os pedaços de lado, à vista, para que os mesmos enganos não me enlouqueçam.

E guardo a conclusão.

Nem toda dor requer analgésico, nem toda solidão se satisfaz com companhia, nem toda queixa necessita ser invadida. Não sei onde fica a oficina das asas. Algumas coisas não têm conserto.

 

Outra

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Meu nome é Ana. Sou como essa poesia dura que o tempo não soube conservar, por isso não respondo a gracejos e pouco riso há em meus olhos. Os dias me passam e vou minguando rente a eles.

Mas hoje eu me chamo Bete. Os ares ao meu redor me expulsam de mim. Resolvo, então, sair pela noite, em busca de qualquer cena para viver. E logo no segundo ato já estou desperdiçada. Não me basta ser tocada, esse corpo não é meu.

Desperto como Laura. E me faço inteligível, posso até cantar, tenho o pescoço fino inclinado e o olhar ao céu. Hoje só sei erguer-me e nada me deterá.

Como? Invoca-me Sofia? Pois será como quiser. Ando acelerada demais para reconhecer-me em um simples epíteto. Feito nuvem, logo mais posso não estar por aqui e o som que sai de sua boca tornar-se-á somente eco…de uma criatura ida.

Ontem eu era sombria e me despi para examinar cada centímetro de minha pele crua.

Hoje sou equilibrista e me extravio no ar, nada me faz cair.

Amanhã serei uma máscara, sobre mim só restará suposição.

Maria. Fabiana. Patrícia. Sandra. Vanessa. Joana.

Beijo. Desejo. Incerteza. Resolução. Distância. Projeção.

Minha alma grita, mas não sei falar.

Anseio por descobrir-me, hora ou outra.

Sem correria, pois em segundos, já serei maior.